Eleições 2026

Xenofobia eleitoral: por que o Nordeste vira alvo preferencial da extrema direita após as urnas

Socióloga aponta que associação entre Nordeste e PT estigmatiza ambos e que não existe região de direita e de esquerda

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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues, durante um evento de campanha em Salvador (BA). 28/08/2026
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues, durante um evento de campanha em Salvador (BA). 28/08/2026 | Crédito: Ricardo Stuckert/PR

Embora tenha ficado em segundo lugar no primeiro turno, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que tenta a reeleição, conseguiu imprimir vitória no Nordeste do país. Além disso, conseguiu alguns governos estaduais, como reeleger Jerônimo Rodrigues, na Bahia; Rafael Fonteles, no Piauí; e Elmano de Freitas, no Ceará. Como de costume acontece, uma onda de xenofobia contra o eleitor nordestino inundou as redes sociais. Figuras da extrema direita, como Rodrigo Constantino, destilaram ódio especificamente ao povo baiano.

Em entrevista ao É de Manhã, da Rádio Brasil de Fato, a pesquisadora e socióloga Marina Macedo Rego avalia que a onda da extrema direita é um fenômeno nacional e isso não isenta a região Nordeste, contudo, pondera que os estados têm representado na última década uma “salvaguarda do Brasil na valorização de aspectos democráticos básicos”.

Ela pontua, contudo, que essa onda de ódio direcionada ao Nordeste após a apuração acontece desde as primeiras eleições após a redemocratização, quando o PT nem era majoritário na região. A questão é que as redes sociais amplificam a narrativa discriminatória. “Esse preconceito se reverbera depois de cada eleição, o que aumentou muito depois da expansão da internet, das redes sociais. É comum que se cristalize no Nordeste um voto no PT”, afirma.

Rego pondera que o potencial de rejeição no voto em Lula, motivado pela xenofobia, pode desequilibrar o segundo turno e, por essa razão, é fundamental lembrar as relações de identificação com a esquerda em outras regiões do país. “O MST foi fundado no Paraná; Rio Grande do Sul já foi epicentro de progressismo. O PT foi fundado com uma juventude paulista que participou muito do movimento operário que tinha bases nordestinas”, exemplifica.

A pesquisadora detalha que, na análise feita a partir da cobertura de dois importantes jornais paulistas entre 1989 e 2022, metade das vezes a associação com o Nordeste era negativa. “Uma em cada cinco vezes havia um estereótipo negativo, um ataque direto. Seja por uma linha editorial do jornal ou para relatar alguma fala de preconceito que aconteceu na sociedade”, relata.

E traz outros dados. “Quase 70% das vezes em que o Nordeste é citado, ele é associado ao PT. E isso tem um motivo muito nítido. Quando você associa o PT e o Nordeste, você consegue estigmatizar tanto a região quanto o partido político, quando você tenta emparedar o progressismo num único local do Brasil, num local que é estigmatizado, porque assim você delimita fronteiras a esse exercício político”, analisa.

Marina Macedo Rego busca desmistificar a ideia, muito comumente difundida, de que determinada região ou estado é naturalmente de direita ou esquerda. “É uma construção histórica”, afirma, e reforça que, neste momento, todos os votos e estados estão em disputa.

“O que faz com que o PT seja votado majoritariamente pelo Nordeste desde 2006 são os avanços históricos que o PT trouxe para essa região. Isso é nítido. Quem conheceu o Nordeste antes de 2003 e quem conheceu depois vê essa mudança. E daí tem uma questão de que a juventude nordestina, por não ser adulta naquela época, não tem essa lembrança. E isso é algo que a gente tem que conseguir transmitir também de alguma maneira”, argumenta.

Para ouvir e assistir

O É de Manhã vai ao ar de segunda a sexta-feira às 07h da manhã na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.

Editado por: Gia Matheus Almeida

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