Aos 23 anos, Eduarda Campopiano passou, em menos de dois anos, de vereadora de Praia Grande, no litoral de São Paulo, à deputada estadual mais votada do estado. A candidata de extrema direita pelo Partido Liberal (PL) recebeu 1.956.238 votos para a Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) nas eleições de 2026, o equivalente a 8,39% dos votos válidos.
A projeção política de Campopiano foi construída principalmente nas redes sociais, onde passou a publicar vídeos sobre política ainda aos 18 anos. Sua atuação é marcada pela defesa de pautas conservadoras, ataques ao feminismo e ao aborto e críticas às políticas de cotas raciais. Após a eleição, afirmou que pretende levar para a Alesp uma atuação “muito mais ideológica” e intensificar o que chama de “combate cultural”.
A bolsonarista também se tornou conhecida por declarações propagadas massivamente no ambiente digital. Entre os episódios mais recentes estão uma publicação em que chamou a deputada federal Erika Hilton (Psol) de “homem biológico”, que motivou uma representação ao Ministério Público de São Paulo por transfobia e violência política de gênero, e declarações sobre a colonização do Brasil que levaram a artista e liderança indígena Katú Mirim a registrar um boletim de ocorrência por preconceito de raça ou cor.
‘Incompatível com a vida’
Sua própria história de nascimento é um dos elementos usados na biografia oficial de Campopiano para apresentar sua trajetória. Segundo o texto publicado pela Câmara Municipal de Praia Grande, ela nasceu em Campinas, em 22 de julho de 2003, após uma gravidez de alto risco. A biografia afirma que médicos consideravam a criança “incompatível com a vida”, mas que os pais decidiram prosseguir com a gestação.
“Apesar do suposto diagnóstico, seus pais persistiram e sua mãe deu à luz uma menina forte e saudável”, diz o texto, que apresenta o episódio como parte da história da parlamentar.
A narrativa se conecta à atuação política de Campopiano contra o aborto. Ainda segundo a biografia oficial, ela passou a participar de projetos ligados à chamada “defesa da vida desde a concepção” e a contar sua própria história como forma de defender a pauta.
A defesa da “vida desde a concepção” não corresponde ao entendimento firmado pelo Supremo Tribunal Federal sobre a proteção constitucional à vida. No julgamento da ADI 3510, que discutiu a pesquisa com células-tronco embrionárias, a maioria do STF considerou que a Constituição não define o início da vida e que o direito fundamental à vida previsto no artigo 5º é atribuído à pessoa já nascida. No voto condutor, o então ministro Carlos Ayres Britto distinguiu embrião, feto e pessoa humana e afirmou que não existe uma “pessoa humana embrionária”, mas um “embrião de pessoa humana”, cuja proteção jurídica pode existir sem equivaler à titularidade dos direitos fundamentais de uma pessoa nascida.
A mesma interpretação apareceu no voto da então ministra Rosa Weber na ADPF 442, que discutia a descriminalização do aborto até a 12ª semana. Para Weber, a Constituição não atribui ao embrião ou ao feto a titularidade dos direitos fundamentais e o argumento de que o direito à vida desde a concepção justificaria a proibição total do aborto “não encontra suporte jurídico no desenho constitucional brasileiro”. Isso não significa ausência de proteção jurídica ao nascituro: o ordenamento brasileiro prevê essa proteção em diferentes normas, mas ela não é equiparada, pelo STF, à titularidade dos direitos fundamentais de uma pessoa nascida.
A deputada eleita afirma ser contrária à legalização do aborto em qualquer circunstância. Ela defende que mulheres que engravidam após violência sexual levem adiante a gestação fruto de estupro e possam entregar a criança para adoção. “Eu não quero que o aborto seja proibido, eu quero que o aborto seja impensável”, disse, em entrevista.
‘Ginofascismo’
Os recorrentes ataques ao feminismo são um dos elementos centrais do discurso político de Campopiano. A própria parlamentar se define como “a maior inimiga das feministas de São Paulo” e, após a eleição, afirmou que “a guerra tá só começando” em referência ao enfrentamento com o movimento feminista na Assembleia Legislativa.
Em um debate no podcast IronTalks com a covereadora Silvia Ferraro (Psol), em março deste ano, Campopiano apresentou o conceito de “ginofascismo” para descrever o que considera uma estrutura social e política favorável às mulheres.
“A gente vive num ginofascismo”, afirmou.
Na argumentação, ela citou casos de mulheres que assassinaram companheiros, mencionou homens que ocupam trabalhos considerados mais pesados e criticou a existência de leis que, segundo ela, favorecem mulheres.
Ferraro contestou a formulação. “Esse conceito que você elaborou aí de ‘ginofascismo’ é uma aberração”, afirmou. Na sequência, argumentou que mulheres, meninas e crianças são vítimas de violência e que existe uma desigualdade de gênero que produz diferentes níveis de exposição à violência.
“Em meio ao aumento exponencial do feminicídio, vocês estão preocupados com assassinato de homens, ao invés de estarem preocupados com o número relevante de assassinatos de mulheres”, pontuou Ferraro durante o debate.
Rejeição ao conceito de feminicídio
A posição da bolsonarista sobre violência contra as mulheres vai além da crítica ao feminismo. Campopiano também contesta a própria existência do feminicídio como categoria específica de crime.
Ela diz não acreditar que o feminicídio “seja algo que exista” e defende que os assassinatos de mulheres sejam tratados como crimes passionais, associados ao sentimento de posse.
A posição contrasta com a legislação brasileira. Desde outubro de 2024, o feminicídio é um crime autônomo no Código Penal, definido como matar uma mulher por razões da condição do sexo feminino. A lei considera essas razões presentes quando o crime envolve violência doméstica e familiar ou menosprezo e discriminação à condição de mulher. A pena prevista é de 20 a 40 anos de prisão.
Os dados sobre violência letal também dão dimensão da “epidemia de feminicídios” no país. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 1.568 mulheres foram vítimas de feminicídio no Brasil em 2025, maior número da série histórica iniciada em 2015. Em 96,4% dos casos com autoria identificada, os assassinos eram homens; 60,9% dos crimes foram cometidos por parceiros íntimos e 18,9%, por ex-parceiros.
Leitora de Olavo de Carvalho
A biografia publicada pela Câmara de Praia Grande apresenta Olavo de Carvalho e o britânico conservador Roger Scruton entre os autores que Campopiano considera “conceituados” e que fazem parte de suas referências literárias.
O texto afirma que a parlamentar sempre foi dedicada aos estudos e gostava de ler obras dos dois autores. Olavo de Carvalho, morto em 2022, foi um dos principais nomes da extrema direita brasileira nas últimas décadas e exerceu influência sobre setores do conservadorismo que posteriormente se aproximaram do bolsonarismo.
A atuação política de Campopiano começou nas redes sociais. Em 2022, ela trabalhou como comentarista da Jovem Pan e, em 2024, foi eleita vereadora de Praia Grande pelo PL, com 3.583 votos, tomando posse aos 21 anos.
A parlamentar adota como lema “Deus, Pátria, Família e Liberdade”. Durante a campanha de 2026, esteve politicamente próxima de Lucas Pavanato, também do PL, com quem fez dobradinha eleitoral. A relação política entre os dois faz parte de uma rede de parlamentares jovens do partido que construiu projeção principalmente por meio das redes sociais.
Ataque transfóbico
No dia seguinte ao primeiro turno das eleições de 2026, Campopiano publicou no X uma mensagem dirigida à deputada federal Erika Hilton (Psol), reeleita para a Câmara dos Deputados: “Oi Erika Hilton. Como é saber que um homem biológico nunca vai ocupar o espaço da mulher mais votada de São Paulo? Rs”.
A publicação motivou uma representação apresentada pela deputada estadual eleita Sofia Favero (Psol) ao Grupo Especial de Combate aos Crimes Raciais e de Intolerância do Ministério Público de São Paulo. A representação pede investigação por transfobia e violência política de gênero.
Campopiano disse posteriormente que a publicação foi uma “manifestação provocativa” no contexto do debate político nas redes sociais e afirmou que responderia a eventuais questionamentos pelas vias legais.
Colonização e povos indígenas
Antes da eleição, Campopiano também provocou repercussão por declarações sobre a colonização brasileira. Durante participação no podcast RedCast, ela agradeceu pela colonização que dizimou os povos indígenas do Brasil.
“Glória a Deus que colonizaram, glória a Deus que catequizaram as índias”. Na sequência, associou povos indígenas a práticas como sacrifícios e canibalismo. “Glória a Deus que a extrema direita chegou e falou para os índios: ‘Galera, fazer sacrifício e comer o braço do irmãozinho não é legal, enterrar criança viva…’”, declarou.
As falas foram criticadas por lideranças indígenas. A artista e liderança indígena Katú Mirim registrou boletim de ocorrência por preconceito de raça ou cor, alegando que as declarações ofendiam a cultura, a história e os povos indígenas. Após a eleição, a ministra dos Povos Indígenas, Sonia Guajajara, anunciou que apresentaria notícia-crime ao Ministério Público Federal em razão das declarações.

