Tempo de virada

Sindicatos avaliam disputa pelo voto dos trabalhadores em meio ao avanço da extrema direita no DF

Representantes destacam cenário conservador no Congresso e crescimento da bancada de esquerda na Câmara Legislativa

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Trabalhadores ocupam Brasília em marcha nacional pelo fim da escala 6x1.
Trabalhadores ocupam Brasília em marcha nacional pelo fim da escala 6×1 | Crédito: Roberto Parizotti/CUT

O avanço da extrema direita nas eleições deste ano não encerrou a disputa política no Distrito Federal. É o que apontam representantes de sindicatos e movimentos sociais ouvidos pelo Brasil de Fato DF, que veem um cenário de maior presença conservadora no Congresso e, ao mesmo tempo, mudanças na representação da esquerda na Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF) e uma nova etapa da disputa pelo governo local.

Para os entrevistados, a extrema direita aumentou sua presença entre a classe trabalhadora e consolidou espaços de comunicação, enquanto o campo progressista precisa retomar o trabalho de base e aproximar o debate político dos problemas vividos pela população.

Na CLDF, a esquerda passou de seis para sete deputados distritais. O resultado é considerado um dos pontos positivos por Marco Baratto, da coordenação nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).  “Embora se mantenha majoritariamente à direita, tivemos alguns avanços importantes. Conseguimos aumentar em um nome a bancada da esquerda. Também tivemos um aumento substancial no número de votos dos candidatos de esquerda”, avaliou.

Entre os eleitos estão Max Maciel (Psol), que recebeu 92.234 votos e teve a maior votação da história da Câmara Legislativa, Keka Bagno (Psol), com 40.569 votos, e Múcio (PSB), que conquistou uma cadeira com 42.769 votos. Com os três resultados, a esquerda conquistou uma cadeira a mais na CLDF.

No entanto, o balanço eleitoral também teve perdas para o campo progressista. As deputadas federais Érika Kokay (PT) e Leila do Vôlei (PDT), que disputavam uma vaga ao Senado pelo Distrito Federal, não foram eleitas. Para Baratto, a derrota de Érika representa uma perda para o legislativo.

“É uma perda gigantesca para a esquerda do DF, para as lutas e para as pautas progressistas. A Érika é uma parlamentar historicamente combativa, com pautas progressistas em todos os campos políticos do Distrito Federal”, destacou o coordenador.

Congresso mais conservador

A avaliação sobre o cenário nacional é mais negativa. Para Rodrigo Rodrigues, presidente da Central Única dos Trabalhadores do DF (CUT-DF), o Congresso eleito nas urnas será ainda mais contrário à defesa dos direitos dos trabalhadores.

“A composição do Congresso é muito ruim. O Congresso caminhou mais para a direita e para o conservadorismo, e a composição ficou ainda mais contrária à classe trabalhadora. Será muito mais difícil resistir ao retrocesso e às tentativas de retirada de direitos da classe trabalhadora”, avaliou.

No Senado, o Distrito Federal elegeu Michelle Bolsonaro (PL), com 938.496 votos, e Bia Kicis (PL), com 886.616. As duas se juntam a Damares Alves (Republicanos), que já ocupa uma das três cadeiras do DF. Com o resultado, a bancada da capital no Senado será formada exclusivamente por mulheres alinhadas ao bolsonarismo.

Para Rodrigues, apesar do cenário nacional, a eleição também produziu mudanças na representação dos trabalhadores no legislativo local. “O Distrito Federal, por exemplo, conseguiu ampliar a sua representatividade de deputados que defendem os interesses da classe trabalhadora. Também tivemos uma boa notícia, que é a ida do candidato Leandro Grass ao segundo turno, o que nos coloca numa possibilidade de debater questões fundamentais, como o rombo do BRB [Banco de Brasília] e o escândalo do Banco Master”, afirmou.

Classe trabalhadora em disputa

A eleição para o governo do Distrito Federal ainda será definida. Celina Leão (PP) terminou o primeiro turno com 49,93% dos votos, enquanto Leandro Grass (PT) teve 34,47%. Os dois voltam às urnas no dia 25 de outubro.

Para os representantes dos trabalhadores, o segundo turno abre espaço para aumentar a discussão sobre políticas públicas e os problemas que afetam a população do Distrito Federal. “Essas eleições no segundo turno nos colocam numa condição de fazermos uma luta ainda mais árdua, principalmente para a eleição de Leandro Grass e para que os interesses da classe trabalhadora possam se fazer vigorar”, defendeu Márcia Gilda, diretora do Sindicato dos Professores no Distrito Federal (Sinpro-DF).

Para os entrevistados, a disputa eleitoral não se resume à composição das instituições. Um dos principais desafios apontados é a dificuldade do campo progressista de dialogar com parcelas da classe trabalhadora que passaram a se identificar com os discursos da extrema direita.

“Aqui no DF, a extrema direita e a direita capturaram, há bastante tempo, um segmento importante da classe trabalhadora. A classe trabalhadora está em disputa. Um dos desafios do campo progressista é voltar a fazer trabalho de base e conversar com o povo sobre os problemas reais da população”, destacou Marco Baratto do MST.

Na avaliação de Rodrigo Britto, presidente do Sindicato dos Bancários de Brasília, esse trabalho precisa combinar presença nos territórios e atuação nas redes sociais. Ele aponta o discurso do individualismo como elementos utilizados pela extrema direita para dialogar com os trabalhadores.

“Precisamos ir para as ruas, olho a olho. É ir aos conhecidos, conversar e falar a verdade. Principalmente os mais jovens. Eles estão com uma visão muito daquele sonho do empreendedorismo e do individualismo, que a extrema direita vende. Até coisas boas, como os direitos trabalhistas, eles colocam como ruins, e as pessoas vão acreditando, porque não querem se ver como trabalhadores, querem se ver como empreendedores”, avaliou.

Bancários do DF reunidos em frente do sindicato da categoria
Bancários do DF reunidos em frente do sindicato da categoria | Crédito: Divulgação

Britto também considera que a esquerda precisa aumentar sua presença nas plataformas digitais, onde identifica uma dificuldade de comunicação. “A gente da esquerda sempre teve muita dificuldade de atuar nas redes sociais, de ocupar esse espaço. Também existe a questão dos boicotes das big techs, que está mais transparente agora, mas que, de certa forma, sempre existiram. Há também o papel dos influenciadores, que vendem essa ideia de riqueza e de prosperidade com muita facilidade”, afirmou.

Para Marco Baratto, a estratégia passa por aumentar o contato com as periferias e aproximar a discussão eleitoral dos problemas cotidianos da população. “A gente precisa sair do Plano Piloto, correr os trechos nas periferias rurais e urbanas e demonstrar essa diferença de projeto. Precisamos debater as pequenas coisas do cotidiano, porque o voto em Celina e Flávio [Bolsonaro] não significa necessariamente que essas pessoas tenham votado porque eles têm um projeto. Precisamos apresentar propostas e mostrar quem pode melhorar a vida do povo”, defendeu.

Mobilizações

A avaliação sobre o resultado das urnas também já se transformou em mobilização dentro da Universidade de Brasília (UnB). Cerca de 120 docentes, estudantes e técnicos administrativos participaram, na segunda-feira (5), de uma reunião emergencial convocada pela Associação dos Docentes da Universidade de Brasília (ADUnB) para discutir ações em defesa da educação pública e da democracia.

Durante o encontro, os participantes avaliaram os resultados do primeiro turno e aprovaram diretrizes de organização para os próximos dias. Foram criados quatro grupos de trabalho voltados para organização, comunicação, atuação nos territórios e cultura. A proposta é articular iniciativas relacionadas ao segundo turno e ampliar a participação da comunidade universitária no debate eleitoral.

No Distrito Federal, a reunião também foi marcada pela avaliação de que o segundo turno abre espaço para discutir diferentes projetos para a capital. Entre as pautas apontadas como prioritárias estão a defesa da democracia, da soberania nacional, da ciência e da educação pública.

A mobilização deve continuar ao longo da semana. Docentes da UnB realizam assembleia e paralisação nesta quarta-feira (7), enquanto o Diretório Central dos Estudantes (DCE) promove uma assembleia na quinta-feira (8) para discutir o cenário eleitoral e as ações para o segundo turno.

Crise climática

A avaliação sobre o resultado eleitoral também inclui a emergência climática que, para Lúcia Mendes (Lucinha), diretora da Associação Preserva Serrinha e coordenadora do Fórum de Defesa das Águas, do Clima e Meio Ambiente do DF, precisa ganhar espaço no debate sobre o futuro do Distrito Federal. Para ela, os impactos ambientais estão diretamente relacionados às condições de vida da população trabalhadora e não podem ser separados de questões como saúde, mobilidade e serviços públicos.

“Os trabalhadores serão sempre os mais atingidos quando faltam serviços públicos, quando a mobilidade não funciona, quando a saúde entra em colapso ou quando eventos climáticos extremos atingem uma cidade despreparada. Por isso, política ambiental e política social não podem mais ser tratadas separadamente”, destacou.

Lucinha também defende que a preservação dos recursos hídricos seja considerada nas decisões sobre o desenvolvimento urbano do DF. “Precisamos que o eixo prioritário, o vetor de desenvolvimento da cidade, não tenha mais como centralidade a especulação imobiliária, mas a capacidade de suporte e a sensibilidade ambiental. A água precisa estar no centro do debate”, defendeu.


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Editado por: Clivia Mesquita

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