CORRELAÇÃO DE FORÇAS

Campo progressista perde 309 mil votos para a Assembleia do RS entre 2022 e 2026

PL mais que dobra votação em 2026 e fortalece extrema direita; coligação de Zucco fica a um voto da maioria absoluta

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Nova composição da Assembleia amplia o desafio do campo progressista para articular oposição ao governo Zucco
Nova composição da Assembleia amplia o desafio do campo progressista para articular oposição ao governo Zucco | Crédito: Fernando Gomes/ALRS

Os partidos do campo progressista perderam 309,6 mil votos para a Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul entre 2022 e 2026. A soma de PT, PCdoB, PV, Psol, Rede, PSB e PDT caiu de 2,1 milhões para 1,79 milhão. A participação desse conjunto passou de 34,18% para 29,39% dos votos válidos, enquanto suas bancadas diminuíram de 19 para 17 deputados.

No mesmo período, o PL ganhou 675,2 mil votos e passou de cinco para 12 cadeiras, fortalecendo a extrema direita dentro do campo da direita. O PSD também cresceu, enquanto PSDB e outras legendas perderam espaço. A comparação considera os votos nos candidatos e os votos de legenda nas duas eleições.

A Assembleia Legislativa tem 55 deputados. A redução da bancada progressista aumenta a necessidade de buscar votos fora desse campo para barrar projetos do governador eleito, Luciano Zucco (PL). Os partidos da coligação de Zucco conquistaram 27 cadeiras e, se votarem juntos, precisarão de um apoio adicional para aprovar projetos de lei complementar e de seis para alterar a Constituição estadual.

Campo progressista perde duas cadeiras, centrão recua uma e direita e extrema direita ganham três na Assembleia do RS
Campo progressista perde duas cadeiras, centrão recua uma e direita e extrema direita ganham três na Assembleia do RS
| Crédito: TSE via Radar do Voto/Gerado por IA

Mudanças nas candidaturas e nas bancadas progressistas

A federação Brasil da Esperança, formada por PT, PCdoB e PV, perdeu 193,7 mil votos e passou de 12 para dez cadeiras. O PT, isoladamente, perdeu 184,3 mil votos e caiu de 11 para nove eleitos. A disputa também teve mudanças de nomes: Valdeci Oliveira e Laura Sito, ambos do PT, concorreram à Câmara dos Deputados, enquanto Luiz Fernando Mainardi (PT) assumiu a Prefeitura de Bagé. Os três haviam somado 164,1 mil votos para estadual em 2022.

Bruna Rodrigues, eleita pelo PCdoB em 2022 com 51.865 votos, disputou neste ano pelo PSB, recebeu 17.315 e não se reelegeu. O PSB ficou sem representação na Assembleia. Em 2022, o partido havia eleito Elton Weber, que neste ano concorreu pelo PSD e ficou suplente. O PCdoB manteve uma cadeira, agora com Humberto Matos, eleito com 40.122 votos.

O Psol ampliou sua bancada com a eleição de Karen Santos, além da reeleição de Luciana Genro e Matheus Gomes. A federação Psol–Rede ganhou 36,4 mil votos, passando de 288.839 para 325.270. O crescimento não compensou as perdas dos demais partidos progressistas. O PSB perdeu 93,2 mil votos e o PDT, 59,1 mil, embora os pedetistas tenham mantido quatro deputados.

Extrema direita ganha força dentro da direita

O PL passou de 519.833 para 1.195.077 votos, crescimento de 129,9%. Sua participação subiu de 8,44% para 19,57% dos votos válidos. O avanço ocorreu enquanto outras legendas da direita recuaram: Republicanos perdeu 96,8 mil votos e passou de cinco para quatro deputados. PP e União Brasil, somados, perderam 120,8 mil votos e passaram de dez para oito cadeiras.

Em análise sobre o avanço da extrema direita no estado ao Brasil de Fato, o doutor em Ciência Política e pesquisador da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Jorge Branco avalia que o resultado expressa uma “narrativa reacionária” em um estado historicamente marcado pela presença tanto da direita quanto da esquerda, acompanhando um movimento nacional e mundial.

Ele relaciona esse avanço à influência de discursos de meritocracia e individualismo sobre pequenos empreendedores e proprietários rurais. Segundo o pesquisador, parte desses setores já esteve ligada ao campo progressista, mas foi capturada por “essas ideias neoliberais” e passou a se aproximar da extrema direita.

Branco alerta para quais pautas essa força parlamentar deverá favorecer. Ele contrapõe uma agenda de desenvolvimento e inovação a medidas como “vender ativos, aumentar a repressão ao crime menor, ao crime de calçada”, além da retirada de direitos dos servidores. Na avaliação dele, o risco é dar continuidade a políticas de retrocesso adotadas nos governos Sartori e Eduardo Leite.

PSD cresce e “centrão” pode ampliar apoio ao governo

O PSD ganhou 376,5 mil votos e ampliou sua bancada de uma para cinco cadeiras. Já a federação PSDB–Cidadania perdeu 424,8 mil votos e caiu de cinco para uma. Parte dessa reorganização envolve mudanças de partido: o PSD recebeu deputados como Delegada Nadine e Neri, o Carteiro, anteriormente no PSDB, e Aloísio Classmann, eleito pela União Brasil.

MDB, PSD e PSDB somam 11 deputados na nova composição, contra 12 eleitos em 2022. Branco avalia que o apoio dos parlamentares desse conjunto, que chama de “centrão”, poderá ampliar a base do próximo governo para além dos partidos da coligação. “Me parece que ele vai ter uma maioria folgada”, afirma.

Nesse cenário, Branco prevê que a oposição terá inicialmente uma pauta voltada à “defesa dos direitos dos servidores públicos, da rede de saúde estadual, da rede de ensino estadual”. Ao mesmo tempo, defende que esse campo busque diálogo com universidades, empresas de tecnologia e setores industriais para colocar desenvolvimento e inovação na agenda estadual e contrapor o projeto de “volta ao passado” que atribui a Zucco.

Lula também perde votos no RS

A perda de votos progressistas também aparece na disputa presidencial. Entre 2022 e 2026, o conjunto dessas legendas recebeu 14,7% menos votos para deputado estadual, enquanto Lula (PT) perdeu 18,2% de sua votação no primeiro turno no RS.

Do outro lado, os partidos que compõem a coligação de Zucco ampliaram em 24,8% os votos para a Assembleia, considerando as mesmas siglas nas duas eleições. Na disputa presidencial, Flávio Bolsonaro (PL) recebeu 10,1% mais votos que Jair Bolsonaro em 2022.

Editado por: Katia Marko

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