Conviver com o mistério, atravessar as disputas e, acima de tudo, encontrar preciosidade no que é vivido. Nesta semana, Linn da Quebrada foi homenageada na abertura da 24ª Goiânia Mostra Curtas, em Goiás, coincidentemente, no mesmo dia em que, na capital, Flávio Bolsonaro (PL) recebeu o apoio político de Ronaldo Caiado (PSD). Cenas totalmente distintas em sua forma, mas que não deixam de levantar uma provocação que vem da curadoria do evento e também da multiartista: a “disputa da imaginação”.
“Isso tudo que existe só existe porque já foi imaginado um dia”, disse Linn ao Brasil de Fato DF, após deixar o palco. A frase poderia servir de epígrafe à própria Goiânia Mostra Curtas, que, depois de discutir a política da memória em 2025, dedica a 24ª edição à política da narrativa e da imaginação: quem conta as histórias, quais delas ganham espaço e como as imagens moldam o presente e o futuro que se consegue imaginar. Realizado pelo Icumam Cultural desde 2001, o festival segue até domingo (11) com programação gratuita no Teatro Goiânia, na Vila Cultural Cora Coralina e na Galeria Cerrado, no centro da capital goiana.
Ao receber a homenagem, Linn disse que não deixava “de passar um filme” na cabeça sobre o que vem construindo como multiartista. Durante a abertura, o público assistiu a blasFêmea | Mulher (2017), curta experimental dirigido e protagonizado por Linn. Ela lembra que fez o filme no começo da carreira, quando tinha “muitas inquietações, muitos desejos, muitas dúvidas e uma grande encruzilhada” à frente. Quase uma década depois, ela avalia que a obra ganhou outros sentidos e segue presente no momento político, não só para travestis e outros corpos dissidentes, mas pelo que se pode construir a partir desse encontro. “E isso é sagrado. Isso é blasfêmia. Isso é profano. Isso assusta e isso é urgente.”
A noite de abertura também homenageou o Sertão Negro, complexo de criação, formação e convivência que reúne ateliês, residências artísticas, biblioteca, cineclube e agroecologia a partir de saberes afro-brasileiros e indígenas. O prêmio foi recebido pela diretora artística do Sertão, Beatriz Lemos, como um reconhecimento profundamente simbólico ao legado da escola, com suas artes e educação enquanto territórios vivos de fabulação. “Ter nossa trajetória celebrada por um festival em nosso território é de tal relevância para muitas gerações da cidade, válida a urgência de colocarmos os saberes dissidentes no centro do debate cultural, pautando o presente com soberania”, comenta. Beatriz lembra que “disputar narrativas é também criar e sustentar novas formas de habitar o mundo”.
Com as homenagens feitas, Linn atravessou a plateia até o palco para o pocket show Corpo Cruzado, com “amor amor”, ao lado de Giovani Cidreira, da baixista Erica Silva e da baterista Dominique Vieira. O repertório foi pensado para o momento no festival, atravessado também pela lírica de Giovani e Linn sobre o atual momento político que atravessa o país. Perguntada sobre o que a homenagem daquela noite representava, Linn devolveu a dúvida como resposta: “Eu ainda não sei. E que bom que eu não sei”.
Esperançar
Após dez anos de carreira, Linn conta que segue aprendendo a se seduzir pelas próprias contradições. E nessa caminhada, não deixar de “esperançar” – possibilidade que a multiartista fundamentou em momentos de reciprocidade com a cosmovisão de seu babalorixá. A esperança é “algo que não seja sobre mim, não seja sobre você, mas seja sobre algo que a gente possa fazer juntos. E isso é confuso. Talvez a esperança seja confusa”, refletiu. E nesses, talvez, desencontros, Linn reforça a busca pela fé em algo: “a gente talvez esteja procurando no que acreditar. E a gente é muita gente. E a gente se perdeu no meio de toda essa gente”.
Para ela, as redes sociais ajudam a explicar os caminhos que vêm sendo construídos. “Elas nos deram a grande possibilidade de sermos únicas, de termos um perfil, de sermos adoradas, de termos milhares de seguidores ou poucos seguidores, mas a possibilidade de ser alguém. E eu já quis ser alguém. Porque eu já quis que alguém acreditasse em mim. Talvez seja isso que estamos tentando buscar singularmente, enquanto pessoas. Mas a luta é coletiva. Eu me encontro no coletivo, eu me reconheço no coletivo”, afirmou, colocando a dimensão de Linn da Quebrada como o próprio “encontro desses vários corpos”.
Daí a leitura de que o momento, embora assuste, também guarda uma oportunidade. “Eu sinto que verdadeiramente nós estamos vivendo um momento de crise, e a crise é um momento muito perigoso, porque é na crise que a gente tem a possibilidade de mudar de opinião. É a crise que faz com que a gente possa pensar diferente de como já pensa. Nós estamos nos vendo obrigadas a olhar para além das nossas bolhas, para ouvir além daquilo que nós já conhecemos. Isso tem que ser considerado, de alguma forma, precioso”, continua.
A esperança, nessa conta, não vem pronta. Para um projeto coletivo num país em que a frustração não começou na última década, Linn diz que “a gente precisa ter onde se agarrar”.
“São tantos sonhos sendo construídos, tantos sonhos sendo desmoronados à nossa frente, há tanta miséria. É muito complexo”, complementa. A multiartista também chegou a fazer uma autocrítica do campo progressista: “É muito petulante da nossa parte achar que isso que a gente está construindo é o que todo mundo está vivendo, o que todo mundo está sentindo, o que todo mundo está entendendo. Talvez seja importante, mais do que nunca, que esse esperançar esteja ligado a uma coligação”, reflete.
Imaginação
É nesse ponto que a fala de Linn encontra o tema do festival. “O festival fala sobre imaginar. Nós estamos numa disputa da imaginação”, retoma. Segundo a multiartista, “é preciso desentender um pouco e aceitar um pouco a ignorância” para construir, de fato, políticas públicas abrangentes, estas que exigem ir além do que se acredita e se entende.

Na cerimônia de abertura, a diretora-geral da Goiânia Mostra Curtas, Maria Abdalla, seguiu a mesma linha ao apresentar a edição. “Nenhum futuro nasce daquilo que já conhecemos, ele começa quando somos capazes de imaginar outras histórias. São elas que moldam nossa percepção do passado, orientam nossas escolhas no presente e ampliam aquilo que conseguimos imaginar para o futuro”, afirmou.
À reportagem, Abdalla explica que a escolha de Linn levou em conta uma presença que “amplia uma reflexão para além da própria tela”. A homenagem, segundo ela, foi pensada como um encontro com o público, por meio de diferentes linguagens, do curta ao show. “Sua trajetória de resistência e sua trajetória artística dialogam com a ideia de construir no presente e imaginar novos sonhos e caminhos para o futuro”, afirma.
Sem comentar diretamente a coincidência com a agenda de Flávio Bolsonaro na capital, a diretora define Linn como “uma agitadora cultural que propõe uma reflexão sobre sua existência diante de cenários violentos”. “Sua voz, corpo e performance representam uma comunidade que muitas vezes não é vista ou reconhecida”, diz. Para ela, o festival busca “oferecer espaço seguro para toda existência”, compromisso que, segundo Abdalla, envolve público, equipes e programação.
Imaginar e intervir
Em Goiás, disputar a imaginação também é disputar a ideia de que a vida no estado se resume ao latifúndio e ao poder ruralista. Imaginar e intervir com outras vidas possíveis abriu as sessões competitivas do festival, realizado na quarta-feira (7). Os nove títulos selecionados pelo curador Fábio Rodrigues Filho tratam de envelhecimento, luto, memória, figurações da infância e corpos dissidentes.

Para Gabriela Marques, professora e pesquisadora da Faculdade de Informação e Comunicação da Universidade Federal de Goiás (UFG) e jurada do festival, as obras apresentam não apenas caminhos rumo a uma modificação da realidade no estado, como já interferem nesse universo. “São filmes que já têm uma narrativa bem mais amadurecida e trazem essa diversidade goiana, principalmente aqui da capital”, avaliou. A construção, de acordo com a jurada, é resultado de muitos anos de formação e de incentivo à produção, que se traduz no primeiro dia de mostra como “um bom presságio”.
No estado, o gargalo, segundo Gabriela, está menos nos temas e mais no acesso. Uma sessão numa quarta-feira à tarde, no centro da cidade, já define quem consegue assistir. “Se o filme não chega, a temática também acaba não chegando”, disse. É diante desse contexto que ela defende a preservação audiovisual como política pública, para que obras como as produzidas em Goiás não se percam “nos canais individuais de cada um” depois de circularem em festivais. Durante a conversa, a pesquisadora também cita o Tela Brasil, do governo federal, como um exemplo.
Gabriela também defende que a circulação dos filmes não dependa apenas de quem filma. Para levá-los a escolas, centros culturais de periferia, associações e espaços de convivência, diz ser preciso financiamento para equipe, projeção e som. Como experiências bem-sucedidas, ela cita o Cine Maria Grampinho, coordenado pela professora Ceiça Ferreira, da Universidade Estadual de Goiás (UEG), que circulou por escolas, e o Festival Audiovisual Vera Cruz, da região Oeste da cidade. “Quanto mais espaço para exibir, melhor”, finaliza.
Durante a quarta-feira (7) a programação garantiu também um momento de formação, em que as pessoas participantes puderam discutir pensamento, narrativa e construção de mundos para desenvolvimento de projetos. O dia se encerrou com a segunda exibição do festival: Curta Mostra Brasil. A curadoria com o tema “terra que nos atravessa” reuniu filmes que buscam dimensionar territórios a partir de seus vínculos e memórias, para além somente da paisagem. Já no recorte “modos de vida”, numa perspectiva ancestral, a mostra reuniu mais nove produções de diversos estados, com destaque para histórias do Norte do país.
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