Logo após o encerramento da apuração do primeiro turno das eleições presidenciais, movimentos estudantis e frentes populares iniciaram uma onda de mobilizações nas ruas em diversas capitais e cidades universitárias do país em apoio à candidatura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e contra o senador Flávio Bolsonaro (PL).
“Nesses momentos de ascensão da extrema direita, a gente sabe que os estudantes sempre foram fundamentais para a disputa de ideias. Seja nas escolas ou nas universidades, produzindo ciência e conhecimento junto da comunidade”, disse a diretora da União Estadual dos Estudantes do Rio Grande do Sul (UEE-RS) e estudante de Saúde Coletiva da UFRGS, Niara Dy Luz.
Para a presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), Bianca Borges, as mobilizações devem servir também para conectar as ideias e propostas da campanha de reeleição do Lula com a fatia da população que está aberta para o diálogo. “A gente quer que milhares de estudantes façam aquilo que eles sabem fazer de melhor: conversar com outras pessoas, inclusive com aqueles que não pensam como nós”.
A reação começou na noite de segunda-feira (5), na Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói (RJ), e se espalhou ao longo da semana por mais de 40 universidades em 14 estados e no Distrito Federal, com assembleias, plenárias e passeatas que reúnem dezenas de milhares de jovens.
A mobilização ocorre no contexto do resultado de domingo (4), em que Flávio Bolsonaro obteve 47,03% dos votos válidos contra 45,16% de Lula, abrindo uma diferença de 2,2 milhões de votos que levou as organizações sociais a priorizarem o diálogo com indecisos e com os mais de 33 milhões de eleitores que se abstiveram.
O estudante de Direito da UFF e presidente da Federação Nacional de Estudantes de Direito (Fened), Hugo Silva, avalia que a prontidão da juventude em ocupar o espaço público reflete a consciência histórica de uma geração que não aceita retrocessos institucionais. Para ele, o momento exige defender as conquistas democráticas contra propostas de alteração constitucional que visam concentrar poder.
“Costumam dizer que a juventude é o futuro do Brasil, mas nós somos o presente. E é agora que queremos ter garantido o nosso direito à universidade pública, à saúde de qualidade, à educação e às políticas sociais que transformam a vida do nosso povo”, disse Hugo Silva. “Estivemos nas ruas no ‘Ele Não’, protagonizamos os tsunamis da educação e mostramos que não aceitamos o autoritarismo como destino”.
Além do movimento estudantil, a articulação tem integrado frentes populares, sindicatos e entidades como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) e o Levante Popular da Juventude, buscando transpor a disputa eleitoral para os espaços públicos e para os bairros.
Papel da juventude na disputa de ideias

No Rio Grande do Sul, a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) realizou, na quarta-feira (7), no campus central em Porto Alegre, uma grande assembleia de estudantes convocada pelas entidades representativas. Niara Dy Luz pontuou que o estado esteve na dianteira das mobilizações imediatas após a apuração.
“No Brasil todo, fomos os primeiros a convocar uma grande assembleia dos estudantes. Ela foi gigante. Os estudantes deram o recado e estão preparados para a missão de reeleger o presidente Lula”, afirmou a dirigente estudantil.
Para Niara, a mobilização da juventude universitária e secundarista ganha contornos decisivos diante do avanço da extrema direita no cenário nacional e internacional. “O segundo turno não é sobre a defesa de um partido, é a defesa da nossa soberania, das nossas riquezas, já que os Estados Unidos estão financiando uma campanha contra o STF”, destacou.
A diretora da UEE-RS observou que a manifestação “mobilizou a cidade inteira” e ressaltou a disposição dos jovens em ocupar as ruas de forma contínua até o dia da votação, marcada para 25 de outubro: “Precisamos ser a galera que vai levar esperança para o nosso povo. Com sorriso no rosto e adesivo no peito, vamos transformar o medo em garra e coragem para virar voto e vencer”.
Combinar ruas e redes
A presidente da UNE destacou que a entidade e as organizações de juventude construíram uma orientação unitária para o segundo turno, unindo a presença nas redes digitais ao trabalho presencial de convencimento.
“Temos combinado ruas e redes: a rede para alcançar uma geração que recebe informação pelo celular, mas também entendendo que nenhuma estratégia digital substitui a conversa olho no olho”, disse Bianca Borges.
A presidente da UNE ressaltou que a atuação não se limita a pronunciar palavras de ordem eleitorais, mas em conectar o projeto político ao cotidiano dos estudantes e das famílias trabalhadoras. “Nosso objetivo não é só dizer ‘vote em Lula’, é conseguir explicar por que essa escolha tem consequências concretas para a vida de cada jovem e, ao mesmo tempo, reconhecer que ainda existem transformações e mudanças pelas quais as pessoas anseiam e que precisam ser feitas”.
A líder estudantil destacou que a posição das entidades não representa adesão passiva ao governo, mas a garantia de um terreno favorável para a continuidade das reivindicações populares.
“Eleger o presidente Lula não significa abrir mão das nossas reivindicações, significa justamente criar as condições para que nós possamos continuar lutando pela concretização delas. E estamos convictos de que a eleição será decidida por quem conseguir transformar desilusão em esperança e esperança em ação. É justamente essa a tarefa que nós, estudantes brasileiros, estamos assumindo neste momento”, disse Bianca.
A necessidade de ocupar o espaço público físico para romper as barreiras do ambiente virtual também foi destacada pela advogada popular e ativista de direitos humanos Isa Penna. Em sua avaliação, embora as redes sociais cumpram função importante na transmissão de informações e no ânimo da militância, os meios digitais e as grandes plataformas sofrem forte controle econômico e distorções por algoritmos de desinformação.
“A rua é onde a realidade de fato não tem filtros. Nós ali falamos de verdade com quem se absteve ou com quem foi enganado pelas fake news”, pontuou Isa Penna. “Seja na França, na Bolívia, no Chile, na Argentina, nos EUA, na Alemanha, a rua é o palco principal onde o povo tem voz real, sem manipulação. O trabalhador que vê outros trabalhadores ocupando os terminais de ônibus, metrô, portas de fábrica sabe que algo de importante está acontecendo”, completou a ex-deputada estadual de SP.
Reação imediata

A fagulha das manifestações de rua surgiu na segunda-feira (5), quando alunos da Faculdade de Direito da UFF, convocados pelo Centro Acadêmico Evaristo da Veiga (CAEV), marcharam do campus do Gragoatá até Icaraí, estendendo na fachada da faculdade uma faixa com os dizeres “UFF Antifascista” sob o mote de que “o abalo e o espanto com o resultado de domingo precisam se transformar em movimento”.
Na terça-feira (6), mesmo sob chuva forte, os estudantes voltaram a marchar em Niterói rumo à estação das Barcas na Praça Arariboia, recebendo a adesão espontânea de trabalhadores e entoando gritos contra a anistia a Jair Bolsonaro e pelo fim da jornada 6×1.
Um dos articuladores da mobilização inicial em Niterói, Hugo Silva relata que a intenção original dos alunos era apenas realizar uma assembleia no curso de Direito para deliberar sobre a posição no segundo turno, mas a adesão em massa transformou o debate interno em passeata.
“A mobilização foi tão grande, a vontade de participar era tanta, que aquilo que seria uma assembleia se transformou em uma grande manifestação. Saímos das salas e ocupamos as ruas com a nossa rebeldia, a nossa indignação e, principalmente, com a esperança de que podemos construir um Brasil melhor”, pontua o estudante.
“Afinal, nós, que estudamos a Constituição, o Estado e as instituições, sabemos que a democracia não se sustenta apenas nos livros ou nos tribunais. Ela precisa estar viva nas ruas, nas universidades e na participação popular. Na UFF, transformamos a indignação em mobilização e mostramos que a nossa geração tem coragem, memória e disposição para defender a democracia”, completou o presidente da Fened.
Em Pernambuco, milhares de jovens ocuparam o jardim externo do Centro de Artes e Comunicação (CAC) da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) na terça-feira, em ato conjunto da UNE, UEE-PE e do Diretório Central dos Estudantes (DCE), com discursos em defesa do financiamento público da ciência e da autonomia universitária.
Na quarta-feira (7), estudantes da Universidade de Pernambuco (UPE) realizaram plenária na Reitoria e o ato “UPE Antifascista” na Faculdade de Ciências Médicas, integrando-se a reuniões convocadas por movimentos populares e sindicatos no Espaço 13 e no Armazém do Campo do Recife.
Na Bahia, a noite de quarta-feira foi marcada por protesto de estudantes da Universidade Federal da Bahia (UFBA), que se reuniram na Faculdade de Educação (Faced), no campus do Canela, e marcharam até o Largo da Vitória, provocando bloqueios no viaduto do Canela e na Graça com bandeiras e cantos em defesa da democracia. No Rio de Janeiro, a marcha “Juventude na Rua pela Democracia” reuniu estudantes da UFRJ, Unirio, UFF e de colégios públicos da Candelária à Cinelândia.
Em São Paulo, frentes populares e movimentos estudantis convocaram um ato na Praça Roosevelt nesta quinta-feira (8), com lideranças como Guilherme Boulos e a deputada federal Erika Hilton, com o objetivo de concentrar esforços de mobilização na capital paulista, onde a abstenção atingiu 23,4% no primeiro turno. No mesmo dia, também está previsto um ato de estudantes das universidades e das escolas secundaristas paranaenses na Praça Santos Andrade, em Curitiba.
A mobilização registrada nos primeiros dias pós-primeiro turno deve ganhar ainda mais fôlego no decorrer da campanha de segundo turno. Diretórios centrais dos estudantes, uniões estaduais e frentes populares já articulam uma nova rodada de atos públicos, caminhadas e assembleias em campi universitários e praças de capitais e cidades do interior de todas as regiões do país.
A meta das entidades é manter uma agenda contínua de ocupação das ruas e diálogo com a população até 25 de outubro, intensificando as panfletagens e o trabalho de convencimento em áreas de grande circulação.
Para Isa Penna, a mobilização estudantil tem peso tático central para contagiar os demais setores sociais, definindo a juventude como a “força motriz das grandes transformações sociais” e o segmento que mais sofre a precarização neoliberal.
Para a ex-parlamentar, a capilaridade das instituições de ensino em todas as cidades coloca os estudantes em posição estratégica para dialogar com familiares e vizinhos, combinando a conversa comunitária à agitação com megafones e panfletagens em áreas de grande circulação para alertar sobre retrocessos sociais e impulsionar a virada de votos.
Firmeza contra intimidações
A mobilização nos campi e nas ruas ocorre em meio a ameaças e tentativas de intimidação direcionadas a estudantes e lideranças do movimento social.
Em Belo Horizonte, onde a UNE e o DCE da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) convocaram manifestação para esta sexta-feira (9), às 17h, na Faculdade de Direito (Praça Afonso Arinos), circularam áudios em comunidades virtuais ligadas a grupos bolsonaristas anunciando agressões físicas, uso de fogos de artifício e roubo de celulares contra os participantes.
Em Pernambuco, estudantes da UFPE também relataram ameaças anônimas antes de um princípio de incêndio registrado no campus na noite de quarta-feira.
A presidente da UNE afirmou que a entidade não recuará diante de ações intimidatórias e informou que todas as providências formais de segurança estão sendo adotadas junto às autoridades competentes.
“O direito de manifestação e participação política dentro das universidades está protegido pela democracia brasileira. Então, qualquer tentativa de transformar divergência política em intimidação ou violência precisa ser combatida com seriedade”, disse Bianca.
“Diante das ameaças, nossa orientação tem sido registrar e documentar tudo, comunicar as diretorias, as entidades e autoridades cabíveis, inclusive cobrar a estrutura de segurança das forças públicas e acionar as autoridades sempre que necessário, porque a segurança dos estudantes precisa vir em primeiro lugar”, afirmou a presidente da UNE.
A dirigente lembrou a trajetória histórica da entidade e ressaltou que a tentativa de impor o silenciamento não terá efeito sobre a juventude: “Nós temos tomado as medidas legais que são possíveis, também acionado as autoridades, mas também entendemos que não devemos nos intimidar com essas ameaças, porque o movimento estudantil só chegou onde chegou porque os estudantes ao longo de 89 anos de UNE nunca baixaram a cabeça”.


