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Quanto mais digital, mais colonial: o que as eleições brasileiras revelam?

Colonialismo químico, terra, tecnologia e a materialidade do capitalismo

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Marina Silva, deputada federal de São Paulo, acompanha o debate entre os postulantes ao governo estadual
Marina Silva, deputada federal de São Paulo e ex-ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima | Crédito: Renato Pizzutto/Band

O colonialismo não é um passado que desapareceu. Tampouco é um resquício que permaneceu. Ele é uma estrutura que se reproduz e se atualiza. A concentração da propriedade da terra, a expansão das monoculturas de exportação, a mineração e a conversão de enormes extensões territoriais em plataformas de produção de commodities não são sobrevivências de um Brasil arcaico. São parte da inserção contemporânea do país na economia mundial.

É nesse contexto que aquilo que tenho chamado de colonialismo químico ganha uma dimensão particular — conceito que desenvolvi em “Agrotóxicos e Colonialismo Químico” e, posteriormente, em “Pesticides: un colonialisme chimique”.

Esse conceito nos ajuda a compreender uma divisão internacional profundamente desigual: substâncias e riscos recusados em determinados países continuam circulando em outros (particularmente na América Latina), onde seus custos ambientais e sanitários permanecem nos corpos, na água, no solo e nos territórios das populações expostas.

A transformação de territórios gigantescos em espaços de produção de commodities agrícolas depende de uma infraestrutura química igualmente gigantesca. Agrotóxicos, fertilizantes, sementes e máquinas compõem um sistema comandado em grande medida por grandes corporações e marcado por profundas assimetrias internacionais.

O colonialismo químico, portanto, nunca foi apenas uma questão de agrotóxicos. Ele é uma das expressões contemporâneas de uma relação colonial com a terra, a natureza e os corpos.

Representação política

Nas eleições de 2026, a ex-ministra do Meio Ambiente e uma das mais importantes lideranças ambientais da história política brasileira, Marina Silva, terminou em quarto lugar, com 18,12% dos votos. Guilherme Derrite e André do Prado foram eleitos para as duas vagas, respectivamente com 30,59% e 29,28%.

Por sua vez, a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) reúne atualmente 299 dos 513 deputados federais e 48 dos 81 senadores. Ao todo, a organização contabiliza 200 de seus atuais integrantes eleitos ou reeleitos para cargos no Congresso Nacional. Mas talvez seja insuficiente falar simplesmente em “bancada ruralista”.

Os interesses ligados à terra encontram-se crescentemente com aqueles ligados ao subsolo. Agronegócio e mineração não são mundos políticos estanques. Uma investigação sobre o grupo parlamentar responsável pela revisão do Código de Mineração encontrou nove integrantes da FPA entre seus 15 membros e 11 com ligações com a Frente Parlamentar da Mineração.

Representação parlamentar, propriedade da terra, produção de commodities e mineração se sobrepõem justamente no momento em que assistimos à chamada “flexibilização” da legislação ambiental — isto é, ao seu enfraquecimento e à eliminação progressiva do princípio da precaução.

No caso dos agrotóxicos, essa transformação aparece de maneira particularmente clara na Lei 14.785/2023, que passou a organizar o processo regulatório em torno da análise de riscos, compreendendo avaliação, comunicação e gestão dos riscos e – claramente – eliminando o princípio da precaução na Nova Lei de Agrotóxicos.

Contradições do capitalismo contemporâneo

Vivemos sob a impressão de que a economia está se desmaterializando: inteligência artificial, algoritmos, cloud, plataformas, digitalização. Mas, onde está a nuvem? Está nos data centers, na eletricidade necessária para alimentá-los, na água usada para resfriá-los. Está nas redes de transmissão, nos semicondutores, no cobre, no lítio, no níquel e nas terras raras necessários à infraestrutura tecnológica.

A inteligência artificial está produzindo uma nova corrida geopolítica pela matéria, na qual o Brasil ocupa uma posição extraordinária. Segundo o Sumário Mineral Brasileiro da Agência Nacional de Mineração, o país possuía, em 2024, aproximadamente 11,4 milhões de toneladas de reservas de terras raras, equivalentes a 13,9% das reservas mundiais consideradas no levantamento, atrás apenas da China.

Também não é um detalhe que, menos de três semanas antes das eleições, tenha sido sancionada a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos. A Lei 15.506/2026 cria instrumentos destinados justamente à prospecção, pesquisa, lavra, beneficiamento e transformação desses minerais e autoriza, entre outros mecanismos, a criação de um Fundo Garantidor da Atividade Mineral.

Esses minerais estão diretamente relacionados às tecnologias apresentadas como símbolos da economia do futuro: veículos elétricos, turbinas eólicas, equipamentos eletrônicos, ímãs de alto desempenho e inúmeras aplicações de alta tecnologia.

Quanto mais o capitalismo parece se desmaterializar por meio da inteligência artificial e da digitalização, mais profundamente ele depende da matéria — da terra, da água, dos minerais, da energia e, portanto, dos territórios.
A tecnologia não dissolve as estruturas históricas de concentração da terra e do poder, não democratiza a estrutura agrária. Ela aprofunda concentração, escala e dependência.

Essa dependência é também corporativa. Máquinas conectadas, plataformas em nuvem, sensores, sistemas de gestão e inteligência artificial transferem parcelas crescentes dos dados e da capacidade de decisão para infraestruturas tecnológicas controladas por empresas.

Ao mesmo tempo, uma pequena quantidade de grandes corporações vem ampliando sua presença nesse mercado. Plataformas como Climate FieldView, xarvio, Operations Center, Cropwise e YaraPlus coletam e processam dados agrícolas, conectando-os a máquinas, insumos e sistemas de decisão. O Agribusiness Atlas 2026 chama atenção justamente para a criação de novas formas de dependência dos agricultores em relação a essas infraestruturas corporativas.

Foi assim com a dependência química construída pela industrialização da agricultura. Agora, à dependência de agrotóxicos, fertilizantes, sementes e máquinas soma-se uma nova camada de dependência: plataformas, softwares, dados e algoritmos.

Big techs e inteligência artificial

As grandes plataformas estão também no centro de outra transformação: a capacidade tecnológica de produzir e distribuir representações da realidade em uma escala até recentemente inimaginável. As eleições brasileiras de 2026 oferecem uma demonstração inquietante desse fenômeno.

Entre 15 de agosto e 15 de setembro, o Instituto Democracia em Xeque monitorou uma rede de 255 perfis no Instagram que publicou ou coassinou 1.204 posts de conteúdo gerado por inteligência artificial, que gerou milhões de visualizações e interações.

Segundo os pesquisadores, os conteúdos incluíam ataques ao Supremo Tribunal Federal, desinformação eleitoral, violência política de gênero e propagação de pautas da extrema direita. A investigação encontrou também colaborações com contas de candidaturas, sem atribuir aos políticos ou partidos a administração ou coordenação da rede.

Isso já é algo diferente da velha ideia de que as redes sociais simplesmente “influenciam” eleições. Estamos diante de estruturas capazes de produzir conteúdos sintéticos em escala industrial e distribuí-los para milhões de pessoas. Enquanto cresce a disputa pela matéria que sustenta o capitalismo digital, cresce também o poder das infraestruturas digitais sobre a esfera pública.

Não é necessário supor que esses interesses constituam um bloco único ou que exista uma coordenação entre eles. O que importa perceber é que a transformação tecnológica ocorre dentro — e não fora — das relações históricas de poder que estruturam o território brasileiro.

Tecnologia e relações coloniais

É nesse contexto que vale voltar à Marina Silva. Sua não eleição não explica as eleições brasileiras, mas talvez ajude a revelá-las. Quando uma liderança com a trajetória de Marina termina em quarto lugar na disputa pelo Senado do maior colégio eleitoral do país, ao mesmo tempo em que emerge das urnas um Congresso no qual permanecem extraordinariamente fortes os interesses relacionados à apropriação da terra e da natureza, não estamos diante apenas de um resultado individual. Estamos vendo a ponta do iceberg.

E, talvez, seja justamente o colonialismo químico que nos ajude a enxergar o que existe sob a superfície. Ele mostra que as tecnologias mais modernas podem aprofundar relações profundamente coloniais; que inovação tecnológica não significa emancipação; e que a modernização da agricultura não eliminou a concentração da terra, do poder e da riqueza — ela as aprofundou.

Essa talvez seja uma das grandes contradições do nosso tempo: quanto mais o capitalismo parece se desmaterializar, mais profundamente depende da matéria. Essa matéria tem território, história e nome. É terra. É água. É floresta. É minério. São os nossos corpos. E a história de sua apropriação também tem um nome: colonialismo.

O resultado destas eleições nos obriga a perguntar que sociedade está sendo construída quando a concentração da propriedade da terra, a crescente apropriação da natureza e dos territórios, o poder econômico das corporações e uma capacidade tecnológica sem precedentes de produzir e distribuir representações da realidade política avançam simultaneamente e passam a se articular.

As perguntas que precisamos responder são: em que lugar da história queremos estar? Que história queremos construir? Esta história é a que estamos construindo ao votar no segundo turno, em 25 de outubro de 2026.

*Larissa Bombardi é pesquisadora do Projeto FRICTION – Laboratório de Agroecologia da Universidade Livre de Bruxelas.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

Editado por: Rafaella Coury

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