A campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) busca reorganizar sua estratégia de comunicação para o segundo turno das eleições presidenciais de 2026. Depois de ficar em segundo lugar na primeira etapa da disputa, o candidato reuniu influenciadores digitais, jovens lideranças e parlamentares eleitos para fortalecer sua presença nas redes sociais. A iniciativa, porém, reacende um debate no campo da esquerda: como combinar a comunicação digital com o trabalho de base e a mobilização nas ruas?
Na quarta-feira (7), em Brasília, Lula se reuniu com mais de 100 jovens eleitos, parlamentares e influenciadores digitais de esquerda para organizar uma força-tarefa de comunicação. A equipe de campanha montou uma sala no comitê do petista para receber o grupo, que deve atuar na produção e na circulação de conteúdos durante a disputa, marcada para o dia 25 de outubro.
Entre os participantes está Ana Elisa (PT), eleita deputada federal por Minas Gerais com 524.219 votos, a segunda maior votação do estado. Para ela, a esquerda precisa reconhecer o peso das redes sociais na disputa política e aproveitar as habilidades de quem já atua nesses espaços.
“Eu acredito que todos nós que queremos que o presidente Lula vença no segundo turno agora estamos unindo as nossas forças e principalmente as nossas habilidades. Então, eu, enquanto oriunda da rede social, me coloquei à disposição para ajudar a equipe de comunicação, ajudar o presidente Lula nesse momento porque eu entendo que hoje o nosso maior panfleto está no telefone e na rede social”, afirmou, em entrevista à imprensa.
Em publicação nas redes sociais, a deputada eleita defendeu que a atuação digital não deve ser tratada como uma alternativa à mobilização presencial, mas como parte de uma mesma estratégia política.
“Não é que não seja importante ter comícios nas ruas ou ir para as ruas: é entender que não existe mais separação de redes sociais das ruas. Quem está nas ruas está nas redes, mas muitas vezes quem está nas redes não está nas ruas”, explicou.
Comunicação digital e disputa política
A mudança na estratégia de Lula já começou a aparecer nos conteúdos publicados pelo presidente. Após os encontros com os jovens e influenciadores, o petista passou a gravar vídeos no formato selfie, em uma linguagem mais direta e próxima daquela utilizada cotidianamente nas plataformas digitais.
Na quarta-feira (7), Lula publicou nove vídeos nesse formato ao longo do dia, acompanhado por jovens lideranças de esquerda. Um dos conteúdos ultrapassou 25 milhões de visualizações no Instagram, segundo os números divulgados sobre a publicação.
Em um dos vídeos, o presidente convocou apoiadores a saírem às ruas e conversarem com outras pessoas sobre a eleição. Ele relacionou a mobilização à defesa da educação, da democracia, do emprego e da continuidade do crescimento econômico.
“Bora gente para a rua, vamos conversar com as pessoas, você que gosta do Brasil, que gosta da educação, que gosta da democracia, que quer ter um emprego de qualidade, que quer continuar estudando e ver o Brasil crescer”, afirmou.
Em outra publicação, Lula direcionou sua mensagem aos cerca de 33 milhões de brasileiros que não compareceram às urnas no primeiro turno. O presidente pediu que esse eleitorado participe da segunda etapa da disputa, argumentando que a escolha terá consequências para suas famílias e para o país.
A campanha aposta em uma comunicação mais ágil e incisiva nas redes sociais, ambiente em que a extrema direita consolidou uma presença expressiva nos últimos anos. O desafio para a esquerda é ampliar o alcance de suas mensagens sem reproduzir práticas de desinformação.
Para o cientista político Francisco Fonseca, professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e da Fundação Getulio Vargas (FGV), a aposta no ambiente digital precisa caminhar junto com o contato direto com a população.
“É preciso ter um contato direto com a eleitora, com o eleitor, com o cidadão. Não me parece que deva haver uma oposição. De toda forma, no campo da esquerda, como um todo, é um tema que não está muito resolvido”, avaliou, em entrevista ao programa Conexão, da Rádio Brasil de Fato.
Fonseca reconhece que a direita construiu uma atuação eficiente nas plataformas digitais, mas ressalta que a esquerda não deve abandonar seu compromisso com a informação verdadeira.
“Já que, na extrema direita, nomes como Nikolas, Pavanato, entre outros, usam da pior maneira as redes, com a disseminação de mentiras e a criação de mundos paralelos, a esquerda não pode entrar nessa”, afirmou.
Para o cientista político, é necessário ampliar a presença digital e desenvolver uma linguagem capaz de dialogar com os mais jovens, sem perder a conexão com os movimentos populares. Ele cita a deputada eleita Ana Elisa e o deputado André Janones (Rede) como exemplos de lideranças que vêm apontando a necessidade de uma atuação mais incisiva nas redes.
O papel das ruas e o diálogo com as periferias
Se as redes sociais ganharam protagonismo na campanha, a mobilização presencial continua sendo apontada como fundamental para conquistar eleitores indecisos e ampliar a participação no segundo turno.
Em entrevista ao podcast Visões Populares, do Brasil de Fato MG, João Pedro Stédile, integrante da direção nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), defendeu que a militância concentre esforços nas periferias urbanas, especialmente no diálogo com mulheres trabalhadoras.
“É preciso olhar do ponto de vista estatístico também para as periferias da cidade. Por quê? Nós já tínhamos esse diagnóstico antes e vínhamos dialogando nas plenárias da militância: os setores mais indecisos e que talvez engrosse também a fila dos que não foram votar são as mulheres da periferia da cidade. Mulheres, em geral, trabalhadoras, mães de família, mães solo e que lutam todo dia pela sobrevivência”, afirmou.
Para Stédile, a estratégia não pode se limitar à circulação de mensagens nas plataformas digitais. É necessário que a militância vá aos bairros, visite as casas e estabeleça conversas presenciais sobre os projetos políticos em disputa.
“Porém, elas têm personalidade, têm ideia própria e não vão mais atrás do marido, de um pastor, de um padre ou do Zap. Então, a militância dos movimentos populares tem que chegar e dialogar com esse setor social, as mulheres trabalhadoras da periferia das grandes cidades. É aí que está o nó. É dialogar com elas”, disse.
O dirigente do MST defendeu que os apoiadores de Lula aproveitem os fins de semana para realizar visitas, entregar materiais de campanha e conversar diretamente com as eleitoras.
“Então, nós temos que ir nas casas, bater lá sábado e domingo para conversar com elas, entregar material, enfim, fazer um diálogo”, completou.
A avaliação reforça a importância de uma estratégia que não confunda alcance digital com mobilização política efetiva. Embora um vídeo possa atingir milhões de pessoas, o contato presencial permite identificar dúvidas, ouvir demandas e construir relações de confiança com eleitores que ainda não definiram seu voto ou que sequer compareceram às urnas.
Redes e ruas na mesma estratégia
A campanha de Lula também discute a retomada de viagens e atos públicos pelo país. A previsão é que o presidente inicie a agenda do segundo turno pelo Rio Grande do Norte, com uma caminhada em Natal no sábado (10). Na sequência, a expectativa é concentrar atividades na região Sudeste, com passagens pelo Rio de Janeiro, por Minas Gerais e por São Paulo.
A combinação entre atos presenciais e comunicação digital busca ampliar a capacidade de mobilização em um período curto de campanha. Enquanto comícios e caminhadas podem aproximar o candidato de eleitores e fortalecer a militância, os conteúdos nas redes ajudam a multiplicar o alcance dessas atividades e manter a disputa política em circulação cotidiana.

