O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, reconheceu nesta quarta-feira (7) que houve planejamento para um golpe de Estado após as eleições de 2022, mas afirmou que a elaboração da trama, por si só, não deveria ser considerada crime. Em entrevista ao programa “Timeline”, da Rádio Gaúcha, o dirigente também foi questionado sobre a possibilidade de uma nova tentativa de ruptura institucional em um eventual governo de Flávio Bolsonaro (PL) e, irritado, respondeu: “Sei lá”. Na sequência, ele reformulou a resposta e afirmou que isso “nunca, jamais” seria cogitado, sobretudo após a prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro.
A declaração ocorreu enquanto Valdemar defendia a anistia aos golpistas do 8 de Janeiro e aos envolvidos na tentativa de golpe. Segundo ele, a medida teria como objetivo “soltar todos os militares que estão presos injustamente”. O presidente do PL argumentou que o planejamento de um golpe não deveria ser considerado crime se a ação não chegasse a ser executada.
“Tudo bem, discutiram de dar o golpe, mas não deram o golpe, e daí?”, afirmou Valdemar. Questionado pelo jornalista Paulo Germano se reconhecia que havia existido, de fato, um planejamento para o golpe, respondeu: “Não tenha dúvidas”.
Na sequência, o apresentador perguntou quem garantiria que um novo planejamento não ocorreria em um eventual governo Flávio Bolsonaro. “O senhor acha que podem tentar de novo?”, questionou. Irritado com a insistência no assunto, Valdemar respondeu: “Sei lá, sei lá”. Em seguida, tentou afastar a possibilidade. “Isso deu certo? Olha o Bolsonaro o que tá pagando? Você acha que alguém quer fazer isso? Nunca, jamais”, afirmou.
As declarações de Valdemar ocorreram no mesmo dia em que Flávio Bolsonaro voltou a afirmar que pretende “redemocratizar” o Brasil e disse que “as instituições têm que voltar a ser respeitadas”. A fala foi feita durante o anúncio do apoio do Republicanos à sua candidatura no segundo turno.
Na terça-feira (6), durante agenda em Goiânia, Flávio havia afirmado que pretende usar a maioria de centro-direita eleita para a Câmara e o Senado para “mudar a Constituição e redemocratizar esse país”, sem detalhar quais medidas seriam essas. No dia seguinte, disse que a afirmação se refere a propostas que já defende, entre elas a redução da maioridade penal, mudanças no STF, alterações na reforma tributária e o fim da reeleição.
Bolsonaro no governo
Durante a entrevista, Valdemar também afirmou que Jair Bolsonaro não teria um cargo formal em um eventual governo de Flávio, mas participaria informalmente da administração. “Bolsonaro logicamente vai dar opinião no governo, não tenho dúvida disso. Mas não vai fazer parte do governo”, disse.
O presidente do PL demonstrou ainda expectativa de que o ex-presidente seja anistiado e deixe a prisão domiciliar caso Flávio seja eleito. A anistia aos envolvidos na tentativa de golpe é uma das bandeiras defendidas pelo candidato.
Impeachment no STF
Valdemar também foi questionado sobre a defesa do impeachment de ministros do Supremo feita por integrantes do PL durante a campanha eleitoral. O dirigente afirmou que o tema precisa ser discutido pelo Congresso, mas disse que não considera adequada uma disputa entre os Poderes.
“Isso precisa ser discutido. O ideal para nós era que o Supremo resolvesse os problemas dentro do Supremo, mas é uma pauta que vai ter uma discussão grande. Não vamos resolver nada com guerra, na minha opinião. Temos que ter habilidade de tocar o país para frente”, afirmou.
O Supremo se tornou um dos principais alvos da extrema direita durante o governo Jair Bolsonaro, com ataques recorrentes aos ministros, ao funcionamento da Corte e ao sistema eleitoral. A ofensiva se intensificou após as eleições de 2022, quando o STF passou a atuar diretamente na investigação e no julgamento dos envolvidos na tentativa de golpe e nos atos de 8 de Janeiro. Segundo as investigações, a própria Corte estava entre os alvos da trama, que previa a prisão ou o assassinato do ministro Alexandre de Moraes.
Segundo dados do Supremo Tribunal Federal, 1.402 pessoas foram condenadas por crimes relacionados aos atos de 8 de janeiro e à tentativa de golpe. Entre elas estão integrantes dos núcleos apontados pela investigação como responsáveis pelo planejamento da ruptura institucional, incluindo Jair Bolsonaro e generais que integraram o antigo governo.
As investigações da Polícia Federal apontaram ainda a existência do plano “Punhal Verde e Amarelo”, que previa o assassinato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do vice-presidente Geraldo Alckmin e do ministro do STF Alexandre de Moraes. De acordo com a investigação, integrantes das Forças Especiais chegaram a monitorar Moraes e avaliaram a possibilidade de prendê-lo ou assassiná-lo em dezembro de 2022. A trama tinha como objetivo criar condições para impedir a posse de Lula e reverter o resultado das eleições daquele ano.

