Estamos numa época aqui no Brasil em que a verdade não é o principal alicerce da razão. Noutro dia, um amigo cineasta tentou provar a uma senhora no supermercado que a notícia que ela afirmava ser verdade era uma grande mentira, mas ela se recusou a saber a verdade. Quase suplicou pra que ele a deixasse ser enganada. Isto é, a verdade não tinha importância. A razão era o de menos para a verdade dela. Tal qual a subjetividade dentro de cada um, como defendia Platão. Provando que a maneira de encararmos o mundo não é real e cada um faz a sua própria visão sobre o mundo. Claro que na filosofia isso se refere a um íntimo individual de cada pessoa, mas não em relação as coisas palpáveis do coletivo, dos acontecimentos sociais.
O que mais espantou esse amigo artista é que essa senhora era uma pessoa comum e de bem, mas queria viver num conto paralelo. E essa consciência tão humana do cineasta me lembrou as movimentações das personagens do novo filme do iraniano Asghar Farhadi, chamado Contos Paralelos, presente no Festival do Rio 2026. Na história tudo parte da imaginação de uma escritora, que observa as pessoas da sua janela e cria a verdade ficcional (expressão paradoxal, propositalmente) para aquelas pessoas verdadeiras, que vivem suas vidas cotidianas e sem nenhuma graça. Claro que a ficção tem que ter uma trama, um conflito, uma história… alguma coisa bacana pra que possa valer a pena alguém ter interesse em ler o livro. Pra vida real, isso não faz a menor diferença. Na vida real, você acorda, vai pro trabalho, e sobrevive a seu cotidiano trivial. E acho que é isso que faz essa senhora do supermercado preferir acreditar nas fantasias escabrosas da mentira e quase lutar pra manter a sua vida ruim e simplória. As ‘fake news’ têm essa benfeitoria com a humanidade. E eu, para exemplificar a história do filme do iraniano no Festival do Rio, conto essa história também paralela. E tentando entender como hoje estamos vivendo tantas realidades paralelas ao nosso bel prazer e caos brasileiro. Fico pensando onde vamos parar, arriscando tantas linhas paralelas nessas eleições deste ano.
No filme, a escritora é desacreditada de sua criação por uma editora entediada (nada mais, nada menos do que Isabelle Huppert e Catherine Deneuve, respectivamente). Em crise, ela abandona sua história paralela dos vizinhos e entrega para um rapaz, ex-presidiário, hospedado em sua casa, para ele ler. O rapaz, que ao contrário da escritora, não quer ver o mundo pela janela, vai atrás das personagens reais do livro e sacode a vida real e sem graça dos vizinhos. Vida real e ficção se transformam num caos e a história paralela caminha para uma amarga ficção, onde, no fundo, as mulheres tomam as rédeas da vida real.
Contos Paralelos é uma ótima reflexão sobre criatividade, verdades e vida. E o roteiro vai até o limite das personagens, provando que toda razão também se limita às verdades de cada um. Tal qual a senhora brasileira do supermercado. Tal qual nós no domingo de eleições. Mas existe uma realidade paralela no domingo. E essa realidade é o Festival do Rio, que acontece paralelamente ao dia das votações. Mas, por enquanto, o vencedor é o diretor Asghar Farhadi e nós expectadores, que fomos brindados com uma joia de filme.
*Rogerio Cavalcante e Castro é cineasta e da produtora Poética Marginal.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

