Eram 7h15 da manhã quando dona Giovania Santana acordou ao perceber que as janelas de casa estavam tremendo outra vez. Primeiro, a do quarto, depois, a da cozinha, perto do fogão a lenha. Moradora de Antônio Pereira, distrito de Ouro Preto, ela pegou o celular e enviou uma mensagem ao grupo da Comissão de Pessoas Atingidas.
“Alguém está tendo essa mesma sensação também?”, perguntou.
Era 19 de agosto de 2026. A resposta não demorou. José Nazareno Pinheiro, também morador do distrito, disse que aquilo estava longe de ser novidade. “Isso aí não é hoje não. […] Lá em casa treme quase todo dia”. Contou que já havia gravado vídeos, feito reclamações e que uma parede do quarto chegou a apresentar uma trinca. “Eu já briguei, já falei, mas […] uma andorinha só não faz verão”.
Patrícia Rodrigues respondeu abalada. “Treme todo dia! Todo dia a janela treme, na casa inteira. E eu moro do lado da barragem.”
Há registros de relatos semelhantes em Antônio Pereira desde 2019. A suspeita dos moradores recai, sobretudo, sobre as atividades minerárias realizadas no entorno da comunidade. Antônio Pereira é cercado por estruturas e operações da mineração, entre elas a Barragem Doutor, da Vale, em processo de descaracterização, e a Mina de Timbopeba. A empresa, por sua vez, tem negado que os tremores relatados pela população estejam relacionados às suas estruturas e atividades.

No entanto, documentos técnicos analisados pela reportagem mostram que, no mesmo território onde moradores relatam tremores há anos, a auditoria independente responsável por acompanhar a Barragem Doutor, a SLR Consulting, vinha registrando incertezas geológicas, lacunas no monitoramento e acionamentos recorrentes de sismógrafos, além de cobrar da Vale investigações adicionais sobre questões que permanecem, até hoje, sem resposta.
Relatos de tremores de um lado, sismógrafos do outro
Julho de 2024 também foi marcado pela preocupação da comunidade com a segurança da barragem. Moradores voltaram a relatar vibrações no distrito e compartilharam áudios e mensagens sobre os episódios. Naquele mesmo período, uma ocorrência na Barragem Doutor levou à paralisação de atividades e à retirada de trabalhadores da área da operação. A Vale afirmou, após solicitação da Agência Nacional de Mineração (ANM), que a situação esteve relacionada a um problema de comunicação dos equipamentos de monitoramento da Barragem Doutor com o rádio da mineradora e ao acionamento de protocolos internos de segurança. A Vale negou relação entre o episódio e os tremores percebidos pela comunidade.
No entanto, os relatos continuaram nos meses seguintes. Em dezembro de 2024, enquanto moradores voltavam a comunicar vibrações nas casas, os documentos da auditoria da Barragem Doutor registravam ocorrências no sistema de monitoramento sísmico da estrutura — composto por aparelhos como piezômetros e sismógrafos.
No dia 6 de dezembro de 2024, um dos sismógrafos, instalados na Barragem Principal, registrou um pico de velocidade de partícula (indicador conhecido pela sigla PPV) de 5,3 milímetros por segundo, ligeiramente acima do limite de 5 mm/s adotado no monitoramento. Segundo os registros técnicos, a projetista responsável verificou que o piezômetro PZ073, localizado nas proximidades, não registrou uma alteração de pressão que correspondesse à vibração registrada pelo sismógrafo.
Três dias depois começou uma mudança importante na rede de monitoramento. Entre 9 de dezembro de 2024 e 3 de janeiro de 2025, 11 sismógrafos foram retirados pela equipe geotécnica da Vale e pela projetista: SMA 1, 2, 4, 6, 8, 9, 11, 12, 14, 15 e 16. Permaneceram seis equipamentos: cinco na Barragem Principal (SMA 3, 5, 10, 13 e 17) e apenas o SMA7 no Dique 1.
O período coincide com novos relatos de tremores feitos por moradores nos dias 9, 12, 13 e 14 de dezembro. Nos meses seguintes, os sismógrafos que permaneceram em operação continuaram registrando acionamentos. Em 11 de março de 2025, um deles registrou velocidades de até 6,16 mm/s. A Vale informou que imagens em vídeo indicavam que o registro poderia estar associado a uma atividade de limpeza de canal de escoamento de água próxima ao equipamento.
Novos registros superiores a 5 mm/s apareceram em abril. E, no dia 7 de julho, outro sismógrafo registrou até 6,16 mm/s l. Dois dias depois, em 9 de julho, dois equipamentos foram acionados. Em um deles, os registros chegaram a 10,7 mm/s. No outro, foram até 14,1 mm/s.
A Vale atribuiu os registros à realização de obras nas proximidades dos equipamentos. A explicação, porém, não encerrou a questão para a SLR, empresa que então realizava a auditoria técnica independente da Barragem Doutor.
Ao analisar conjuntamente os acionamentos registrados, entre março e julho, a auditoria classificou como “preocupante” a recorrência de eventos registrados pelo sismógrafo SMA17 diante da ausência, até aquele momento, de uma investigação completa sobre os registros. A SLR observou ainda que o equipamento havia sido deslocado para uma posição mais alta e mais distante das atividades de construção e recomendou que outras causas potenciais fossem identificadas. A auditoria pediu também uma investigação detalhada sobre possíveis interferências das obras em três sismógrafos e o aumento do acompanhamento de mais um, o SMA03.

Isso não significa que os sismógrafos tenham registrado os mesmos tremores sentidos pelos moradores. Os documentos consultados não estabelecem essa correspondência, mas revelam duas histórias que avançaram simultaneamente em Antônio Pereira: do lado de fora da barragem, moradores relatam casas, portas e janelas vibrando; dentro do sistema de monitoramento, instrumentos eram acionados, retirados ou investigados enquanto técnicos discutiam a origem das alterações nos registros.
E a dúvida sobre os sismógrafos era apenas uma parte das questões que a auditoria vinha levantando sobre a Barragem Doutor.
Outras preocupações recorrentes da auditoria
Os acionamentos dos sismógrafos não eram a única questão acompanhada pela auditoria externa independente SLR Consulting, responsável por acompanhar as obras de descaracterização da Barragem Doutor, da Vale. Em sucessivos relatórios, a auditoria vinha cobrando da Vale investigações adicionais sobre as condições geológicas da fundação da estrutura, especialmente do Dique 1.
Uma das preocupações diz respeito à presença de formações rochosas dolomíticas, que podem estar associadas a processos de dissolução, cavidades e abatimentos do terreno. Mapas geológicos anteriores já indicavam esse tipo de rocha nas proximidades do Dique 1. Ao analisar a caracterização apresentada pela Vale, a SLR questionou diferenças entre esses registros históricos e a descrição dos materiais encontrados na fundação da barragem.
A divergência não ficou restrita aos mapas. A auditoria também chamou atenção para oscilações registradas em piezômetros instalados na fundação e para a ocorrência de buracos no terreno. Para a SLR, o comportamento dos instrumentos constituía uma “evidência muito forte” em favor da hipótese de solos diferentes do que estava relatado pela Vale, o que justifica uma investigação mais aprofundada.
A recomendação atravessou os anos. Em relatórios posteriores, a SLR voltou a pedir que a Vale revisasse os registros geológicos e reconsiderasse a caracterização da fundação da Barragem Doutor, particularmente do Dique 1. Em 2025, a auditoria continuava afirmando considerar que existiam rochas dolomíticas na fundação e que esse risco geológico demandava investigação e gestão adicionais. No trimestre analisado, registrou ainda que nenhuma nova informação ou discussão sobre o tema haviam sido apresentadas.
As dúvidas sobre a fundação apareciam também em relação ao extravasor da barragem. Ainda em 2020, durante as obras de descaracterização, a SLR havia recomendado o mapeamento geológico das escavações do vertedouro de água, que faz parte do sistema de drenagem da barragem. Posteriormente, o vertedouro apresentou uma falha em seu primeiro escoamento. A auditoria voltou ao assunto ao analisar o relatório da estrutura e apontou problemas na caracterização do mecanismo que teria provocado a falha.
Anos depois, uma nova descoberta chamou a atenção dos auditores. Durante os trabalhos no Talude 8, foi encontrado um solo branco ainda não identificado. A SLR considerou que o material poderia ser semelhante ao solo de fundação não caracterizado, observado onde houve a falha no vertedouro e recomendou enfaticamente sua coleta e caracterização em laboratório, inclusive para avaliar o risco de dispersão no meio ambiente, especialmente seu carreamento para os cursos d’água da região.
Ao mesmo tempo, havia pendências documentais. Em 2025, a SLR voltou a registrar preocupação com o atraso na entrega do relatório do tratamento da fundação do Dique 1, que estava previsto para fevereiro daquele ano.
A auditoria muda, as perguntas ficam
As recomendações se repetiram ao longo dos relatórios. A SLR voltou sucessivamente às dúvidas sobre a caracterização geológica da fundação da Barragem Doutor, especialmente do Dique 1. A empresa auditora cobrou documentos e investigações que permitissem compreender melhor as condições encontradas durante as obras. Em 2025, continuava registrando que não havia recebido novas informações sobre algumas dessas questões e destacava, entre as preocupações pendentes, o atraso no relatório do tratamento da fundação do Dique 1, previsto inicialmente para fevereiro daquele ano.
Foi depois de sucessivas reiterações como essas que a SLR deixou a função de auditora independente da Barragem Doutor. A Vale contratou para o posto a AECOM, que passou a acompanhar a descaracterização da estrutura. Nos documentos consultados pela reportagem, não foi localizada, até o momento, uma justificativa para a substituição, nem informação que permita afirmar se a saída da SLR ocorreu pelo encerramento regular do contrato, por rescisão ou por outro motivo.
A nova auditora, porém, já conhece bem a Vale. Desde 2019, a AECOM atua na auditoria independente das ações socioambientais relacionadas ao rompimento das barragens da Mina Córrego do Feijão, em Brumadinho. Atualmente, é também a auditoria socioambiental independente do Acordo Judicial de Reparação Integral da bacia do Paraopeba, acompanhando ações executadas pela Vale ou por empresas contratadas pela mineradora.
A relação entre a AECOM e a Barragem Doutor, no entanto, começou bem antes de sua chegada ao posto deixado pela SLR. Na própria Ação Civil Pública em que a Vale figura como ré por danos relacionados à Barragem Doutor, a mineradora já havia indicado a AECOM para exercer a função de perícia técnica da Justiça.
Assim, a empresa indicada pela Vale para produzir a perícia técnica em uma ação judicial movida contra a própria mineradora é agora também a empresa contratada para suceder a SLR na auditoria independente da Barragem Doutor.
A mudança deixa uma questão que os documentos disponíveis ainda não respondem: o que acontecerá com as recomendações técnicas que a SLR vinha reiterando e que permaneciam pendentes quando deixou a auditoria?
E como fica a comunidade?
Em 20 de agosto de 2026, o MPMG recebeu a Notícia de Fato nº 02.16.0461.0430292.2026-43, apresentada por dona Giovania Santana à Promotoria de Justiça de Ouro Preto. O documento registra o relato de três tremores fortes no dia anterior e afirma que episódios semelhantes vinham ocorrendo com frequência havia meses. A manifestação também menciona o medo provocado pela situação entre os mais de 5 mil moradores de Antônio Pereira, comunidade inserida em área de risco da Barragem Doutor. A Notícia de Fato, que pode ser entendida como uma denúncia, foi recebida e autuada no sistema do Ministério Público, na área de Meio Ambiente.
Além disso, oito dias depois de relatar que as janelas de sua casa tremiam, Patrícia Rodrigues levou a mesma questão diretamente à Vale.
Durante o Seminário Orientativo/Reunião Pública de Antônio Pereira, realizado em 27 de agosto de forma online pela Vale, a moradora escreveu no chat da transmissão: “Esses dias as janelas e portas das casas tremeram e até trincou cerâmicas em Antônio Pereira.”
Ao responder às manifestações, Felipe Guerra, gerente de geotecnia e um dos representantes da mineradora durante o Seminário, afirmou que a Barragem Doutor possui monitoramento de vibrações e que os dados são submetidos a diferentes auditorias e encaminhados aos órgãos responsáveis.
“A gente tem monitoramento de vibrações na estrutura, que são auditados […] Então todos esses dados são disponibilizados, inclusive nos relatórios trimestrais que a gente envia ao Ministério Público, e eles não demonstram nenhum tipo de vibração oriunda da barragem.”
A resposta veio depois de anos de relatos de tremores feitos por moradores e no mesmo período em que os documentos desse monitoramento registravam os episódios analisados nesta reportagem: sismógrafos com velocidades superiores aos níveis de referência, equipamentos retirados durante as obras e recomendações da auditoria para que determinados acionamentos fossem investigados em maior profundidade.
Nos relatórios, a Vale atribui parte desses registros a atividades realizadas nas proximidades dos equipamentos, como obras e limpeza de canais. Mas a auditoria também considerou “preocupante” a recorrência de acionamentos do sismógrafo SMA17 entre março e julho de 2025 diante da ausência de uma investigação completa que explicasse os registros e recomendou a busca por outras causas potenciais; preocupação essa que, até então, segue sem resposta.
Durante o mesmo Seminário, em outra manifestação, Patrícia resumiu o sentimento de quem convive com o medo diariamente em Antônio Pereira: “A Vale mente muito. Nós estamos doentes de tanto sofrer por barragem.”
Outro lado
A Vale, a AECOM e o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) foram procurados pela reportagem para se manifestar sobre as questões abordadas nesta matéria, mas não haviam respondido até a publicação deste texto. A SLR Consulting também foi procurada e informou que encaminhou os questionamentos ao MPMG, em razão de obrigações de confidencialidade previstas no contrato referente aos serviços prestados na auditoria da Barragem Doutor.

