O Comitê Norueguês do Nobel anunciou, nesta sexta-feira (9), em Oslo, a jurista sul-africana Navanethem “Navi” Pillay, de 85 anos, como vencedora do Prêmio Nobel da Paz de 2026.
A escolha reconhece mais de cinco décadas de atuação de Pillay na defesa do direito internacional e na responsabilização por crimes contra a humanidade, com destaque recente para a presidência de comissão das Nações Unidas que concluiu que Israel cometeu genocídio na Faixa de Gaza.
Pillay é a 21ª mulher laureada com o Nobel da Paz entre 144 vencedores na história da premiação. Ela receberá uma medalha e uma dotação de 12 milhões de coroas suecas (cerca de R$ 6 milhões). A cerimônia oficial de entrega está marcada para 10 de dezembro, na capital norueguesa.
Apuração sobre Gaza
Em setembro de 2025, Navi Pillay liderou a publicação do relatório da Comissão Internacional Independente de Inquérito sobre o Território Palestino Ocupado, vinculada à Organização das Nações Unidas (ONU).
A investigação concluiu que as forças armadas de Israel cometeram genocídio contra a população palestina na Faixa de Gaza durante a ofensiva militar e apontou que autoridades de alto escalão do governo israelense, incluindo o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, incitaram a prática desses atos.
Na ocasião, autoridades israelenses classificaram as conclusões da investigação como “escandalosas”. Nesta sexta, logo após o anúncio da concessão do Nobel da Paz à jurista, o governo de Israel voltou a criticar o resultado da premiação, acusando o comitê norueguês de premiar “a maior mentira do século 21” e de incentivar ódio contra o país.
Ao justificar a premiação, o presidente do Comitê Norueguês do Nobel, Jørgen Watne Frydnes, afirmou que Pillay foi laureada “por sua coragem e integridade excepcionais em sua atuação jurídica e por seus esforços para promover a paz e o direito internacional”. Segundo o dirigente, a decisão busca ressaltar o papel das instituições multilaterais em um momento de crescentes ataques e questionamentos às cortes internacionais.
“Esta é uma mensagem de que o direito internacional e suas instituições são fundamentais para um mundo mais pacífico”, disse Frydnes. “É uma mensagem para aqueles que estão atacando e enfraquecendo o sistema internacional, o sistema internacional baseado no Estado de Direito e suas instituições.”
Representantes diplomáticos associaram a declaração às pressões exercidas por líderes internacionais contra cortes globais, incluindo as ameaças de sanções do governo de Donald Trump nos Estados Unidos contra magistrados do Tribunal Penal Internacional (TPI) após a emissão de mandado de prisão contra Netanyahu.
Do combate ao apartheid aos tribunais internacionais
Filha de um motorista de ônibus de ascendência tâmil, Navi Pillay nasceu em 23 de setembro de 1941 em um bairro pobre de Durban, na África do Sul. Sua trajetória jurídica teve início durante o apartheid, sistema de segregação racial imposto pela minoria branca.
Como jovem advogada, Pillay defendeu ativistas do movimento de libertação, combateu o uso de tortura por forças policiais e atuou para garantir o acesso à assistência jurídica para presos políticos detidos na Ilha Robben, entre eles Nelson Mandela. Em 1967, tornou-se a primeira mulher negra a abrir um escritório de advocacia na antiga província de Natal.
Com a redemocratização sul-africana em 1995, Mandela indicou Pillay para a Suprema Corte do país, tornando-a a primeira mulher não branca a compor o tribunal superior. No mesmo período, ela iniciou uma carreira de projeção global ao ser indicada para o Tribunal Penal Internacional para Ruanda (TPIR), órgão criado pela ONU para julgar o genocídio de 1994.
No tribunal ruandês, onde atuou por oito anos e exerceu a presidência por quatro, Pillay liderou a formulação de decisões históricas que fixaram que o estupro e a violência sexual sistemática configuram atos de genocídio e crimes contra a humanidade.
A jurista também atuou como juíza do Tribunal Penal Internacional (TPI) e chefiou o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH) entre 2008 e 2014, principal posto das Nações Unidas para fiscalização de violações a direitos fundamentais no mundo. Atualmente, Pillay também integra a Corte Internacional de Justiça (CIJ) no processo que julga a acusação de genocídio contra o Estado de Mianmar.
Repercussão internacional
O anúncio da premiação foi saudado por representantes de entidades de direitos humanos e autoridades internacionais. O atual Alto Comissário da ONU para os Direitos Humanos, Volker Türk, classificou a escolha como “uma vitória coletiva dos direitos humanos e da justiça”, ressaltando a relevância dos mecanismos internacionais de responsabilização criminal.
A presidente do TPI, Tomoko Akane, e a procuradora-geral adjunta da corte, Nazhat Shameem Khan, destacaram a trajetória de Pillay como um marco para a justiça global. O presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, também celebrou a premiação da conterrânea.

