Contra cortes

Perda de mão, dentes quebrados e centenas de feridos: violência policial marca 3ª semana de protestos estudantis na França

Jovens sofreram amputação de mão e perda de dentes; ONU e Anistia Internacional denunciam repressão em escolas

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Protesto dos estudantes secundaristas e universitários em diferentes regiões da França
Protesto dos estudantes secundaristas e universitários em diferentes regiões da França | Crédito: L´Union Étudiante/Facebook

A terceira semana de mobilizações estudantis na França atingiu seu ápice com episódios graves de violência policial, mutilações de adolescentes e forte condenação de organizações internacionais de direitos humanos.

O movimento, iniciado em setembro por estudantes secundaristas contra a precarização das escolas públicas e os cortes orçamentários do governo do presidente Emmanuel Macron, já acumula mais de 6,8 mil detidos, dos quais 86% são menores de idade, e centenas de feridos.

O avanço da repressão gerou comoção no país após o registro de ferimentos severos provocados por armamentos de dispersão utilizados pelas forças de segurança. Em Lens, no norte da França, um estudante de 15 anos teve uma das mãos amputada após a explosão de uma granada lançada pela polícia durante um bloqueio escolar na segunda-feira (5).

No noroeste de Paris, em Saint-Ouen-l’Aumône, um adolescente de 14 anos sofreu dupla fratura no maxilar e perdeu vários dentes ao ser atingido no rosto por uma bomba de gás lacrimogêneo disparada a curtíssima distância.

Em outro caso, na cidade de Belfort, a promotoria de Vesoul abriu inquérito por tentativa de homicídio após um jovem de 17 anos relatar que policiais tentaram afogá-lo em um riacho durante uma abordagem.

Dados oficiais do governo francês contabilizam ao menos 215 estudantes, 85 professores e 715 policiais feridos desde a eclosão dos atos. Diante da repercussão dos episódios de mutilação, o ministro do Interior, Laurent Nuñez, anunciou a suspensão do uso de granadas de efeito moral em protestos de estudantes do ensino médio e informou a instauração de 18 investigações internas na corregedoria da polícia.

O primeiro-ministro Sébastien Lecornu declarou que as forças de segurança “não receberam instruções para confrontar os estudantes” e buscou responsabilizar partidos de esquerda, como A França Insubmissa (LFI), por supostamente incentivarem o confronto.

A oposição rebateu as declarações. “Foi preciso que vários jovens ficassem mutilados para o resto da vida para que Nuñez desistisse de usar granadas contra estudantes do ensino médio”, criticou o coordenador nacional da LFI, Manuel Bompard.

Denúncias internacionais

A escalada da violência contra menores de idade motivou alertas de entidades globais nesta sexta-feira (9). O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH) declarou acompanhar com “preocupação” os incidentes registrados no país europeu. A Comissão Nacional Consultiva dos Direitos Humanos da França e a Anistia Internacional também condenaram a conduta das forças policiais.

Advogados ligados ao Coletivo pela Ação Judicial e defensores de menores detidos afirmaram que a maioria dos estudantes chega às delegacias ferida por golpes de cassetete ou após serem arrastados pelo chão.

A indignação estudantil começou com o bloqueio de liceus na região metropolitana de Paris e se espalhou por dezenas de cidades, como Rennes, Toulouse, Estrasburgo e Lyon. Os estudantes protestam contra a escassez crônica de professores, a precariedade dos prédios escolares durante ondas de calor e as deficiências na plataforma Parcoursup, que regula o ingresso no ensino superior.

O pano de fundo da crise é o projeto orçamentário de 2027 encaminhado pelo governo Macron, que prevê um corte de 54 bilhões de euros em gastos públicos para tentar conter o déficit fiscal e a dívida pública de 119% do Produto Interno Bruto (PIB).

As medidas de austeridade atingem a infraestrutura escolar, a saúde pública e o funcionalismo, despertando apoio de pais e sindicatos como a Confederação Geral do Trabalho (CGT).

Na edição da semana passada de O Estrangeiro, programa de política internacional do Brasil de Fato, o analista Hugo Albuquerque apontou que o levante popular evidencia os limites da política neoliberal adotada por Macron às vésperas do ano pré-eleitoral de 2027:

“Os movimentos colocaram um limite no Macron. O Macron, obviamente, é uma figura ligada a um liberalismo francês”, destacou Albuquerque, apontando que o governo tenta impor uma austeridade exigida pela estrutura financeira europeia, mas esbarra na tradição de organização do povo francês.

Também ouvida no programa do BdF, a cientista política Florence Posnansky ressaltou que o descontentamento tem capacidade de articular diferentes setores sociais: “O fato de ter conseguido mobilizar um a cada dez servidores públicos em todas as categorias já é uma grande demonstração de força.”

Mobilização contínua

Apesar de o Ministério da Educação ter anunciado, na quinta-feira (8), a contratação emergencial de 3 mil professores substitutos, o movimento estudantil considerou a proposta insuficiente. Nesta sexta, 141 liceus permaneceram com atividades totalmente paralisadas ou bloqueadas por barricadas de lixeiras.

A fragilidade política do governo Macron, impopular, sem maioria parlamentar e a menos de seis meses do início do ciclo eleitoral de 2027, intensifica o impasse.

Segundo pesquisa do instituto Elabe para a emissora BFMTV, 55% dos franceses apoiam os protestos estudantis e 72% consideram suas reivindicações legítimas. Diante da rejeição às respostas do Palácio do Eliseu, entidades secundaristas e sindicatos já convocaram uma nova jornada nacional de greves e manifestações para a próxima terça-feira (13).

Editado por: Rafaella Coury

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