Alguns dos principais campeões de votos das eleições do último domingo (9) são influenciadores digitais de sucesso nas redes sociais. Boa parte dos seus votos vem da visibilidade digital com milhões de seguidores, mas não é só essa estratégia que garante o sucesso eleitoral. Campanha nas ruas, estrutura partidária e mobilização de pautas fizeram parte desse resultado.
“Dizer que os candidatos mais votados têm uma presença expressiva nas redes sociais não é o mesmo que afirmar que foram eleitos por causa dessa presença”, afirma Bianca Fernandes, a Biana, mestranda em antropologia digital pela USP e integrante do DiraCom (Direito à Comunicação e Democracia).
“É evidente que as plataformas digitais são importantes, principalmente porque elas ampliam a circulação de determinadas figuras públicas e ajudam a construir reconhecimento, o que eventualmente pode oferecer condições para mobilização política. Mas tem um problema quando a gente toma a visibilidade digital como causa suficiente do sucesso eleitoral”, acrescenta.
No caso da extrema direita, nomes como Lucas Pavanato (PL-SP) e Eduardo Camponiano (PL-SP) apostaram muito nas redes sociais. A receita de campanha de Pavanato foi de R$ 3.082.120,04, sendo 92,79% vindo do fundo partidário do PL. Foram gastos R$ 2.702.190,92, sendo que metade (50%) foi com impulsionamento de redes. Atualmente, Pavanato tem 5,1 milhões de seguidores, número maior que os votos que conseguiu: 3.119.318.
Quem também investiu pesado na internet foi a deputada estadual eleita Eduarda Camponiano. Dos R$ 654.315,52 gastos na sua campanha, pelo menos R$ 400 mil foram para impulsionamento nas redes sociais, 61% do total de despesas.
Já o padrinho digital e político de ambos, o deputado mais votado de Minas Gerais, Nikolas Ferreira, investiu R$ 103 mil em impulsionamento no Facebook. No entanto, a maior parte dos gastos da sua campanha de R$ 1.237.095,31 foi para material gráfico, como santinhos e adesivos, correspondendo a 48% dos gastos.
“No caso da extrema direita, por exemplo, não dá para explicar seu crescimento apenas por uma suposta ‘competência excepcional para produzir vídeos ou dominar algoritmos’. A gente está falando de um movimento político que dispõe de organizações, financiamento, redes religiosas, espaços de formação ideológica e uma capacidade de mobilização que ultrapassa amplamente as plataformas”, aponta a especialista.
Do outro lado, por canalizarem certos discursos e encontrarem respaldo em setores da população, as redes sociais retroalimentam a própria mobilização.
O deputado federal mais votado dessa eleição, Lucas Pavanato (PL-SP), é um exemplo dessa fórmula. Ex-integrante do Movimento Brasil Livre (MBL), Pavanato é atualmente vereador por São Paulo. Nascido em uma família evangélica, o político usa as redes para atacar os adversários de forma violenta, proferir discurso de ódio contra as pessoas e os direitos LGBTQIA+, construir conflitos com alunos das universidades públicas, enquanto recebe apoio e impulsiona seus posts.
Uma das estratégias bastante usadas por esses influenciadores é a criação de factoides. As ameaças e brigas de Pavanato com estudantes universitários são um exemplo. O padrinho digital e político de Pavanato, Nikolas Ferrera (PL-MG), usa bastante esse artifício, como foi a sua caminhada contra a corrupção, que fez em janeiro, já de olho nas eleições.
Eleita com 1.956.238 votos, a atual vereadora da Praia Grande, Camponiano cria teorias antifeministas inexistentes e, assim que foi eleita, atacou a segunda deputada mais votada no estado, Erika Hilton (Psol-SP), que a processou por transfobia. O discurso desses influenciadores também tenta deslegitimar e mesmo inverter o sentido do discurso progressista ou de esquerda. Pavanato e Camponiano gravaram, por exemplo, um vídeo juntos em que diziam que a esquerda defende a “favelização” da população, para “viver no lixo”. A deputada eleita tem 2,6 milhões de seguidores, o que quer dizer que pelo menos 24% dos seus seguidores não votaram nela.
“Parte da extrema direita conseguiu se apresentar como força de contestação, enquanto defende, em muitos aspectos, a preservação ou o aprofundamento de estruturas de poder já existentes. Esse discurso funciona também porque oferece explicações aparentemente simples para contradições sociais reais. A precarização do trabalho, a insegurança econômica, a frustração com as instituições e a percepção de ausência de perspectivas são experiências concretas. A extrema direita frequentemente captura essas insatisfações e oferece inimigos identificáveis, como imigrantes, mulheres, pessoas trans ou movimentos sociais”, explica Biana.
Engajamento digital com pauta progressista
O fenômeno das redes sociais também tem seus destaques no campo progressista. A influenciadora digital Ana Elisa (PT-MG) recebeu 524.216 votos, sendo a deputada mais votada da história do estado, perdendo apenas para Nikolas Ferreira. Ana Elisa destaca a importância do engajamento digital para o resultado. “Eu fui votada nos 853 municípios de Minas Gerais e rodei cerca de 20 municípios. Então, é a prova de que a rede social chega muito antes que nosso próprio corpo nos territórios”, afirmou.
Ana Elisa, no entanto, não gastou com impulsionamento direto das redes em sua campanha. Cerca de 80% dos R$ 895.294,14 foram gastos com campanha de rua. Ana Elisa tem 3,4 milhões de seguidores no Instagram e conquistou 524.219 votos.
O engajamento político e a conscientização de Ana Elsie vêm de antes do sucesso nas redes. Em entrevista concedida ao Brasil de Fato MG em abril, a influenciadora contou que sua relação com a política começou ainda na infância, influenciada pela trajetória da mãe, professora da rede pública e sindicalista. “Comecei a falar de política e a ser ativa politicamente desde sempre”, afirmou.
Ana Elisa produz vídeos sobre assuntos difíceis, como política, racismo, educação pública, feminismo e trabalho. Estudante de Direito, seu primeiro vídeo de sucesso foi um em que ela explicava, com uma linguagem leve, alegre, fácil, como ex-presidente Jair Bolsonaro (PL-RJ) tinha se tornado réu no caso da trama golpista. Mas a atuação de Ana Elisa vai além das redes, tendo, por exemplo, participado de mobilizações pela permanência de estudantes nas universidades, com ampliação de bolsas e defesa do passe livre.
Para Biana, o debate vai para fora dos limites das redes sociais. “A esquerda precisa se perguntar não apenas como comunicar melhor suas propostas, mas como construir relações políticas concretas com as pessoas e disputar interpretações sobre suas condições de vida, para, a partir disso, oferecer perspectivas de transformação que façam sentido para elas.”
Foi sob essa perspectiva de transformação que se pode analisar a vitória de Rick Azevedo (Psol-RJ), o segundo deputado federal mais votado no Rio de Janeiro. Azevedo foi o protagonista da pauta do fim da escala 6×1, criando o movimento Vida Além do Trabalho (VAT) e está sempre presente tanto nas ruas como nas negociações do projeto de lei que está sendo discutido no Senado. Na campanha, o atual vereador do Rio de Janeiro investiu em mídias digitais apenas 7% das despesas de sua campanha, que somaram R$ 733.550,71. Com 606 mil seguidores no Instagram, Azevedo recebeu 191.371 votos.


