ARTE E RESISTÊNCIA

Bolívar segundo Boal: obra inédita de escritor brasileiro inspira teatro comunal na Venezuela

Montagem foi dirigida por Luciano Carvalho, integrante do setor de Cultura do Movimento Sem Terra

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Os comuneiros apresentaram a obra “Bolívar Não Arou no Mar” na comuna Panal 2021, em Caracas.
Os comuneiros apresentaram a obra “Bolívar Não Arou no Mar” na comuna Panal 2021, em Caracas. | Crédito: Leonardo Fernandes/Brasil de Fato

Mais que uma expressão artística, para esse grupo de comuneiras e comuneiros venezuelanos, o teatro é uma ferramenta política de transformação. 

A peça “Bolívar Não Arou no Mar” é uma adaptação de um texto inédito do teatrólogo e escritor, promotor do teatro político brasileiro, Augusto Boal. A montagem, que reúne um grupo de dez militantes de cinco comunas socialistas de toda a Venezuela, conta com a direção de Luciano Carvalho, diretor de teatro e integrante do setor de Cultura do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). 

“Fizemos uma adaptação e condensamos o texto para uma peça de agitação e propaganda, atualizando a figura de Bolívar no contexto atual de sequestro, violência internacional e imperialismo sobre a Venezuela”, conta o diretor.

Confira a reportagem em vídeo:

https://www.youtube.com/watch?v=XB807zCVTpo

“Estamos trabalhando com rupturas. A Venezuela possui uma tradição teatral muito pautada em personagens e no melodrama, com figurinos e cenários que mimetizam épocas históricas. Trabalhamos sem figurinos de época ou cenários figurativos. Adotamos a perspectiva de um teatro épico, dialético, popular, político e poético, simples e bonito, utilizando objetos e indumentárias disponíveis nas próprias comunas. Aplicamos procedimentos de ruptura em larga escala, desconstruindo a visão do indivíduo sacralizado e abordando Bolívar a partir de suas ideias e ações, que servem de referência para a população e para toda a América Latina”, explica Carvalho.

Rompendo com o melodrama histórico tradicional e com o uso de figurinos de época, o espetáculo adotou uma estética épica, popular e poética, incorporando elementos de circo e a linguagem do clown (forma de expressão cênica baseada na exposição do corpo ao ridículo, na verdade emocional e na relação direta e imediata com o público).

A proposta buscou desconstruir a visão estática de Simón Bolívar, trazendo a sua trajetória de lutas para a realidade cotidiana do povo venezuelano. Como conta Oliver Borges, artista circense que compõe o elenco da peça. 

“Fiquei bem impactado com a forma histórica e artística tradicional de representar Bolívar. Um dos meus receios era a reação do público ao ver Bolívar representado por meio do clown. No entanto, essa abordagem aproxima Bolívar do povo, retirando-o dos pedestais e das estátuas, mostrando que Bolívar não é um indivíduo isolado, mas sim que todos nós somos Bolívar de alguma forma. Politicamente, a mensagem principal é que Bolívar continua vivo, não está restrito aos livros ou a uma estátua, e se reproduz em nossa cotidianidade”, relata o ator.

Para militantes e educadores comunais de territórios como a Comuna El Maizal e a Comuna Carubarigua, o teatro popular atua como uma ferramenta estratégica de comunicação e formação de consciência política. Paolis Casmirri conta que a iniciativa visa criar núcleos multiplicadores nas comunas para capacitar novas gerações de jovens no teatro político.

“Sempre acreditei que o teatro influencia profundamente a consciência das pessoas. Por meio das imagens e da voz, além de entreter e despertar sentimentos, o teatro permite transmitir a mensagem de forma sutil e estratégica. O teatro é uma forma limpa e estratégica de fazer política”, afirma Casmirri.

“É fundamental que todo militante de esquerda tenha clareza de que este é um momento de firmeza na luta”, completa.

A apresentação na Concha Acústica da Comuna Panal 2021 parece ter agradado ao público presente. Yéssica Rodríguez, professora da comuna, destacou o caráter pedagógico da obra. 

“Lindíssima, atrativa e pedagógica. É atraente para as crianças por ser dinâmica. Como docente, considero muito bonito transmitir a história para chegar aos corações e às mentes das nossas crianças”, opinou.

Já Niurka González veio de longe para ver a peça, que, para ela, é um poderoso instrumento de mobilização da juventude. 

“Achei genial e magnífico. São iniciativas que precisam ser resgatadas para as nossas crianças, especialmente hoje em dia, quando muitos jovens se focam em outras coisas.”

O projeto pretende agora percorrer novos territórios com a mensagem de que a cultura e a história pertencem ao povo organizado. Apesar do nervosismo da estreia, para Rosanesys Capielo, cada minuto valeu a pena. 

“Valeu a pena cada minuto, cada frustração, cada alegria e cada noite mal dormida. Eu me sinto orgulhosa e muito feliz por ter sido convidada a integrar esta equipe multidisciplinar. Embora venhamos de estados diferentes, conseguimos criar uma dinâmica de trabalho em que funcionamos como um só corpo, e é isso que se busca na comuna”, exalta.

Editado por: Rodrigo Gomes

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