MEMÓRIA

Dama do Jazz, Ivone Pacheco morre aos 94 anos em Porto Alegre

Nos anos 1980, ela converteu a garagem de sua casa no bairro Petrópolis em clube para aficcionados do jazz e do blues

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Dama do Jazz, Ivone Pacheco morre aos 94 anos em Porto Alegre
Ivone Pacheco, em apresentação na Fundação Ecarta, em 2008 | Crédito: René Cabrales/ Arquivo Sinpro/RS/ Divulgação

A pianista e fundadora do clube de jazz Take Five, Ivone Pacheco, faleceu na noite de domingo (11) em Porto Alegre, aos 94 anos. Referência do blues e do jazz na capital gaúcha, a artista estava internada no Hospital da Santa Casa, em Porto Alegre. A causa morte não foi divulgada pela família. Ivone Pacheco foi velada na manhã desta segunda-feira (12) no Clube de Jazz, e o enterro, em cerimônia fechada para familiares, será às 18h, no Cemitério São Miguel e Almas (Av. Oscar Pereira, 400).

Ivone nasceu em 11 de outubro de 1932 – no mesmo dia de seu falecimento. Natural de Porto Alegre, ela teve os primeiros contatos com a música ainda na infância. Ela se familiarizou com o teclado e as partituras no piano do hotel Metrópole, localizado na rua General Andrade Neves, centro da capital, que pertencia ao pai, e onde a família morava. A partir daí, nunca mais se afastou da música, mas só retomou a carreira artística quando completou 50 anos.

Casou-se, teve três filhos e trabalhou como professora. “Tudo começou em abril de 1982, em Porto Alegre RS, quando Ivone Pacheco foi descoberta pelo jovem músico Marcos Ungareti. Na época, suas performances musicais eram restritas a familiares em festas particulares”, relata a fotógrafa Rosa Pacheco, filha de Ivone.

Com 50 anos, depois de ter criado os filhos, cursado a faculdade de música e lecionado música como professora estadual concursada, “Ivone Pacheco pôde enfim dar asas a sua veia artística, que não podia mais ser abafada”.

Clube de jazz no porão

O clube de jazz Take Five, criado no porão de casa pela pianista Ivone Pacheco nos anos 1980
O clube de jazz Take Five, criado no porão de casa pela pianista Ivone Pacheco nos anos 1980 | Crédito: Rosa Pacheco/ Divulgação

Teve a ideia de fazer do porão de sua casa, que tinha sido a discoteca dos filhos nos anos 70, um clube de jazz. “Mãos à obra, pintaram-se as paredes de preto e lá foram penduradas capas de disco, fotos, posteres e quadros. Móveis antigos foram trazidos para o porão, junto com o piano, que estava na sala”, recorda.

“Os filhos já estavam grandes e seguiam seus próprios caminhos, e ela então mergulhou nas possibilidades do jazz. Começou uma série de curtas estadias, em torno de 15 ou 30 dias, em Nova Orleans, Nova York e Buenos Aires, lugares onde tocava escaleta nas ruas e nos metrôs. Em Porto Alegre, a noite virou o melhor turno. Palcos e bares se tornaram os lugares mais confortáveis, e pianos eram ancoradouros à espera de Ivone”, anotou o jornalista Victor Necchi, em 2022, quando os 40 anos do Take Five e dos 90 da sua fundadora foram celebrados com uma maratona de apresentações na Casa de Cultura Mario Quintana.

Para a primeira jam session, Ivone chamou músicos e amigos. Rosa conta que a proposta enfrentou certa rejeição por parte da família, que não entendia muito bem a nova opção de vida daquela mãe e esposa tão convencional que de uma hora a outra resolve abrir a casa para gente desconhecida. “Depois, todos entenderam a proposta e passaram a prestigiar os encontros”.

Do Guaíba ao Mississipi

Os encontros semanais foram batizados com o nome da música de trabalho do disco “Time Out”, de 1959, da banda de jazz norte-americana The Dave Brubeck Quartet: “Take Five”.

O que poderia soar como inusitado em uma cena urbana mais inclinada aos regionalismos, os shows improvisados ao melhor estilo das jam sessions da cidade crescente, com Ivone Pacheco ao piano, logo se transformaram em ponto de encontro para músicos, artistas, jornalistas e apaixonados por jazz em geral.

Assíduo frequentador do clube do jazz, o jornalista Renato Dalto, então repórter de cultura do extinto Diário do Sul, lembra que o jazz corria solto madrugada adentro e a certa altura alguém gritava: “Cadê a concertina?”. Era a senha para Ivone Pacheco entrar em cena, não ao piano, mas empunhando seu acordeão diatónico, instrumento que ele descreve como algo entre uma gaita a ponto e um bandoneon.

“Ivone costuma dizer que o Guaíba é o Mississipi e Porto Alegre sua New Orleans”, resumiu a poeta Maria Conceição Nunes Dornelles no livro “A Lenda do Jazz – Ivone Pacheco”, lançado em outubro do ano passado. 

Editado por: Katia Marko

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