O dia de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, acontece neste ano em meio a ataques sobre a legitimidade da santa por parte de uma parcela de lideranças evangélicas e a disputa eleitoral para Presidência da República, que terá seu último ato no dia 25 de outubro, quando a população vai escolher entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL).
Ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, padre Igor Pedro, da diocese de Garanhuns, cidade natal de Lula, explica que a aparição da imagem da santa aconteceu em 1717, na região onde hoje é Guaratinguetá. Três pescadores lançaram a rede e recolheram primeiro o corpo da santa e, depois, a cabeça. A imagem, por conta do barro do rio, saiu negra.
“Isso é lido como um sinal profético contra a escravidão que estava em curso no Brasil”, aponta. “Isso é lido para além dos tempos como um convite a percebermos que não existe qualquer proximidade de Deus e Maria Santíssima com os projetos de escravidão. A escravidão no Brasil não acabou simplesmente com um decreto. Ela não corresponde àquela estética ligada a seu período mais trágico, mas a outras formas de escravidão hoje em dia”, continua.
O padre vê o atual momento com muita preocupação e considera triste o discurso de ódio ligado à intolerância religiosa. “O cenário político está costurado por uma famigerada guerra espiritual, porque nós sabemos que Nossa Senhora Aparecida é também respeitada por fiéis protestantes, por pessoas que não têm manifestação religiosa, por pessoas ligadas a religiões de matriz africana que fazem sincretismo”, afirma.
“Precisamos retomar a história e reforçar a importância de Nossa Senhora Aparecida para todos nós”, complementa.
O religioso observa que a forma com que Flávio Bolsonaro se manifesta, por exemplo, quando diz que, caso seja eleito, vai decretar que o Brasil é “do senhor Jesus Cristo”, é uma forma de dizer que a religião que ele professa é superior às outras.
“A gente tem um Estado laico e isso é garantido na Constituição. Na medida em que isso [a manifestação de Flávio Bolsonaro] acontece, a gente está permitindo que uma única visão de Deus e de mundo se estabeleça”, destaca.
“A fé é do âmbito privado, não do âmbito público. A gente quer que todas as pessoas sejam livres para manifestar sua fé e respeitem a experiência de fé de cada uma das outras pessoas”, defende.
Para ouvir e assistir
O jornal Conexão BdF vai ao ar em duas edições, de segunda a sexta-feira: a primeira às 12h e a segunda às 17h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.

