Acordo inédito

Acordo de diesel entre Putin e Trump surpreendeu ‘partido da guerra’, diz vice-chanceler russo

Diplomata nega que avanço no setor de energia altere os objetivos militares de Moscou e rebate novas sanções do Ocidente

Presidente dos EUA Donald Trump e presidente russo Vladimir Putin
Presidente dos EUA Donald Trump e presidente russo Vladimir Putin | Crédito: Andrew Caballero-Reynolds / AFP

O vice-ministro das Relações Exteriores da Rússia, Serguei Ryabkov, declarou nesta terça-feira (13) que o resultado da conversa telefônica entre os presidentes Vladimir Putin e Donald Trump, é “sem precedentes”. De acordo com ele, o acordo sobre o fornecimento do diesel russo surpreendeu o “partido da guerra”.

“É claro que a eficácia — o resultado absolutamente sem precedentes da conversa telefônica entre os presidentes [russo e americano], que ocorreu há dois dias — surpreendeu muitos no partido da guerra”, disse o vice-ministro.

Ao mesmo tempo, Ryabkov rejeitou as sugestões de que Moscou tenha feito algum tipo de concessão sobre as negociações referentes à guerra da Ucrânia ao concordar com o acordo sobre o diesel com os EUA.

O vice-chanceler também destacou que Moscou, sobre o diesel, está convencendo aqueles que ainda não perceberam que o lado russo alcançará seus objetivos em relação à guerra da Ucrânia.

“Sempre defendemos e continuamos a defender uma solução [política]. Se o outro lado não estiver preparado para isso, seus objetivos serão alcançados militarmente, o que enfraquecerá a posição de negociação do outro lado. Quanto antes eles perceberem isso, melhor. Acho que o chamado acordo sobre o diesel está fazendo um ótimo trabalho ao convencer aqueles que ainda não entenderam isso”, frisou.

Os presidentes da Rússia e dos EUA, Vladimir Putin e Donald Trump, anunciaram um acordo sobre o fornecimento de diesel russo na última sexta-feira (9). Após o anúncio, o vice-primeiro-ministro russo, Alexander Novak, anunciou a prontidão da Rússia para exportar 300 mil toneladas de diesel em outubro, 500 mil toneladas em novembro e 1 milhão de toneladas em dezembro. Posteriormente, o volume de entregas poderia chegar a 3 milhões de toneladas mensais.

O ministro das Finanças russo, Anton Siluanov, por sua vez, declarou que o acordo de fornecimento de diesel com os EUA é benéfico para a Rússia. De acordo com ele, o acordo permitirá que as empresas nacionais aumentem sua receita e terá um impacto positivo na balança de pagamentos do país.

“Nossas empresas terão a oportunidade de exportar diesel, obter receita e divisas estrangeiras com isso. Isso é importante para nossa balança de pagamentos e para as empresas, em primeiro lugar, é claro”, disse Siluanov durante uma reunião com jornalistas na Duma Estatal.

Já o porta-voz da presidência russa, Dmitry Peskov, declarou nesta terça-feira (13) que o “acordo do diesel” era do interesse tanto da Rússia quanto dos EUA, bem como dos mercados globais de energia.

Entenda o acordo sobre o diesel

O acordo anunciado por Donald Trump prevê a retomada das exportações de diesel russo para os mercados internacionais, incluindo os Estados Unidos, após Washington flexibilizar temporariamente as sanções contra o combustível.

A medida ocorre em meio à alta dos preços dos combustíveis nos Estados Unidos, às vésperas das eleições legislativas de novembro. Trump apresenta a liberação do diesel russo como uma alternativa para ampliar a oferta e aliviar os custos para consumidores, agricultores e transportadores. Entretanto, análises publicadas pelo The Washington Post e pelo Financial Times apontam que o impacto econômico imediato tende a ser limitado.

De acordo com as publicações, o volume anunciado equivale a aproximadamente 74 mil barris por dia, cerca de 2% da produção estadunidense de diesel, estimada em 3,6 milhões de barris diários. A escala reduzida torna improvável uma queda expressiva dos preços nos Estados Unidos, sobretudo diante da escassez internacional de capacidade de refino e da instabilidade provocada pela guerra no Oriente Médio.

O acordo também tem implicações políticas que vão além do mercado de energia. A flexibilização das sanções abre uma oportunidade de receita para as empresas russas e enfraquece a estratégia de isolamento econômico do Ocidente sobre Moscou. Ao mesmo tempo, a iniciativa expõe divergências entre Washington e seus aliados europeus, que continuam ampliando as restrições contra a Rússia.

Sanções da UE

Enquanto Washington e Moscou celebram um acordo inédito sobre o fornecimento de diesel, a União Europeia adota mais sanções contra a Rússia. Em 10 de outubro, a chefe da diplomacia europeia, Kaja Kallas, anunciou o 22º pacote de sanções da UE contra a Rússia. Segundo ela, este será o maior desde o início do conflito na Ucrânia.

Kallas esclareceu que as novas restrições visam à indústria militar russa. O pacote prevê sanções contra fabricantes de mísseis balísticos e empresas que produzem tecidos especiais, fibras sintéticas e fibras de carbono para sistemas de mísseis. As listas incluirão mais de 1.600 indivíduos e organizações.

A política de sanções ocorre em paralelo a uma aproximação pontual entre Moscou e Washington no setor energético, evidenciando a diferença de abordagem entre os Estados Unidos e os países europeus em relação à Rússia. Enquanto o governo Trump negocia o fornecimento de diesel russo, a UE mantém a estratégia de ampliar as restrições econômicas e tecnológicas contra Moscou.

Ao comentar o novo pacote, o vice-chanceler russo Serguei Ryabkov afirmou que as relações da Rússia com a União Europeia estão em um ponto crítico, mas atribuiu aos europeus a responsabilidade pela situação.

“Nós, é claro, entendemos que as relações com a União Europeia, com o Ocidente como um todo, estão atualmente em um ponto crítico. Mas não somos responsáveis por isso”, disse.

Ryabkov também criticou a sucessão de medidas restritivas adotadas pelo bloco europeu e afirmou que os pacotes de sanções acabam se contradizendo.

O vice-chanceler acrescentou que Moscou não considera as medidas europeias capazes de alterar os rumos da política russa. “Que continuem apresentando seus pacotes. Esses pacotes não têm significado algum”, concluiu.

Editado por: Gia Matheus Almeida

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