Em meio à ascensão da extrema direita nas eleições de 2026, o Partido Liberal (PL) ampliou sua força política e se tornou a maior bancada da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul. Nesse cenário, a eleição de Karen Santos (PSol) e a reeleição de Matheus Gomes (PSol) para o parlamento estadual ocorrem em um momento de redução da participação de pessoas negras entre as candidaturas registradas no estado.
Em 2020, Karen Santos (PSol), Laura Sito (PT), Bruna Rodrigues (PCdoB) e Daiana Santos (PCdoB), junto com Matheus Gomes (PSol), formaram a primeira bancada negra da história da Câmara Municipal de Porto Alegre. Nas eleições de 2022, outro marco histórico foi registrado: com a eleição de Laura Sito (PT) e Bruna Rodrigues (PCdoB), elas se tornaram as primeiras mulheres negras a ocupar cadeiras na Assembleia Legislativa, onde, ao lado de Matheus Gomes, formaram a bancada negra do parlamento estadual.
A participação de pessoas negras, consideradas as candidaturas daquelas autodeclaradas pretas e pardas, recuou nas eleições de 2026 no Rio Grande do Sul. Levantamento realizado a partir dos dados oficiais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostra que foram registradas 188 candidaturas negras neste ano, o equivalente a 17,89% das 1.051 candidaturas no estado. Em 2022, eram 279 candidaturas negras, que representavam 19,42% das 1.437 candidaturas registradas.
Nesta entrevista ao Brasil de Fato RS, Karen Santos analisa a redução da representação negra, fala sobre as prioridades de seu mandato a partir de 2027 e aponta a necessidade de reorganizar os movimentos sociais para ampliar a participação política e enfrentar o racismo. Segundo ela, é necessário buscar a unidade a partir do trabalho, do mutirão, da oficina, dos grupos de estudo, dos espaços de formação, quando “as pessoas conseguem ver realmente a necessidade da política, para além daquilo que está colocado nos recortes de Instagram e pela mídia hegemônica”.
Brasil de Fato RS: Tua eleição acontece em um cenário em que o número de candidaturas negras no Rio Grande do Sul diminuiu em relação a 2022. Como tu recebes esse resultado e o que a tua chegada à Assembleia Legislativa representa diante desse cenário de participação e representação política da população negra?
Karen Santos: Sim, houve uma mudança na composição da bancada negra na Assembleia. A gente tem hoje Laura Sito, Bruna Rodrigues e Matheus. Na próxima legislatura, somente eu e Matheus. Eu acho que a diminuição dessa representatividade também diz respeito a um recuo das lutas do movimento social negro nos últimos quatro anos.
Sem luta do movimento, não há renovação, não há constituição de novos quadros, não há desenvolvimento de uma consciência negra, de uma consciência racial em relação aos impactos do racismo dentro da comunidade do Rio Grande do Sul.
Eu sou fruto da luta pela política de ações afirmativas. Apesar de não ser cotista na graduação, participei de coletivos negros, ocupei a reitoria reivindicando melhorias nessa política pública, organizamos também marchas contra o genocídio, o encarceramento da juventude e contra a redução da maioridade penal.
Sem luta do movimento, não há renovação, não há constituição de novos quadros, não há desenvolvimento de uma consciência negra
Acho que boa parte da bancada negra veio desse processo de luta do ano de 2010 ao ano de 2018, até o golpe de Temer. E, sem um processo de novas pautas ou de oxigenação das pautas, que ainda são as mesmas, a gente não consegue ter o avanço da nossa consciência negra e da consciência do nosso povo gaúcho como um todo. Então, eu reflito nesse sentido.
Tu passas agora a integrar uma experiência que já teve Matheus Gomes, Laura Sito, Bruna Rodrigues e Daiana Santos como parte da primeira bancada negra da Câmara Municipal e, depois, da Assembleia. Que legado dessa atuação tu pretendes levar para o teu mandato e o que gostarias de acrescentar a essa construção?
Eu acho que a principal relação desses mandatos é a possibilidade de uma continuidade numa elaboração política, com essa articulação junto ao movimento social negro gaúcho, aos clubes negros, às comunidades de terreiro, às agremiações carnavalescas, às comunidades quilombolas.
Eu acredito que essa é a continuidade que expressou a votação dos camaradas e também é a viabilidade de eu ter um mandato articulado e combativo com essas pautas que são históricas do nosso movimento. Então, eu acredito que a continuidade é essa, e a principal contribuição do nosso mandato vai ser manter ativa essa articulação. Acho que essa é uma característica nossa.
Quais serão as prioridades do teu mandato a partir de 2027 e como tu pretendes articular as pautas da população negra com outras questões que atravessam a vida da maioria da população, como educação, moradia, trabalho, segurança e enfrentamento das desigualdades?
É difícil, num primeiro momento, dizer quais serão as nossas prioridades. A gente vai contribuir com a fiscalização e as lutas do povo trabalhador, seja na educação, na saúde, na assistência, seja nas lutas locais, dentro dos municípios. A característica do nosso mandato é estar na ponta, contribuindo com a fiscalização e articulando, para que a população se envolva com a política e pense mecanismos para a resolução dos seus problemas mais imediatos, as categorias, os trabalhadores, as comunidades.
Mas, a gente consegue vislumbrar a tarifa zero, que é a discussão da fiscalização do transporte coletivo por ônibus, visando aos subsídios do município, do estado e da União, visando também uma qualidade do transporte, à eletrificação das frotas em circulação, uma qualidade de fato.
A característica do nosso mandato é estar na ponta, contribuindo com a fiscalização e articulando, para que a população se envolva com a política
O debate do Museu do Negro é uma luta que a gente começa aqui na cidade de Porto Alegre, mas que combina tanto a discussão da cultura, da educação, das reparações históricas, dos crimes da escravidão e do colonialismo, e que tem muito a contribuir para o estado do Rio Grande do Sul. Então, a gente quer também dar essa envergadura para essa luta que estamos construindo aqui na cidade de Porto Alegre, para que seja um Museu do Negro do estado do Rio Grande do Sul, situado na cidade de Porto Alegre.
O combate aos feminicídios, desde as políticas de reeducação até o fortalecimento da rede de acolhimento às mulheres vítimas de violência. A gente conseguiu aqui em Porto Alegre aprovar a lei que criou o auxílio-aluguel às mulheres vítimas de violência. A gente sabe que, lá na Assembleia, a Luciana Genro (PSol) já protocolou também essa lei com esse mesmo conteúdo. Aqui, a nossa briga é para que ela seja regulamentada. Acredito que vai ser essa mesma demanda no estado do Rio Grande do Sul, visto que tem uma discussão de enxugamento das contas públicas, de teto dos gastos, que inviabiliza boa parte das nossas propostas.
Então, combinar também a discussão da necessidade de ampliação de políticas públicas para o transporte, moradia, educação e saúde, vinculando também com essa discussão do teto dos gastos e da renegociação da dívida pública do Rio Grande do Sul, que é de onde, de fato, vai sair o orçamento para a gente constituir todas essas melhorias.
Diante da redução no número de candidaturas negras e dos desafios para ampliar a representação política, o que precisa ser feito concretamente para aumentar a participação de pessoas negras nas eleições e garantir que essa presença se traduza também em maior representação nos espaços de poder?
Sem movimento social negro ativo, não há renovação de quadros, não há a disputa da consciência do povo gaúcho, menos ainda a constituição de coletivos e organizações do movimento social negro.
Então, acredito que nós, enquanto figuras públicas e direções desse movimento, temos como principal tarefa reorganizar e reconstituir essas frentes de luta na base do nosso movimento, para que a gente possa vislumbrar novas representações dentro do parlamento, dentro do Judiciário, dentro do serviço público, pelas cotas que existem nos concursos públicos.
Mas que essas candidaturas estejam alinhadas a um projeto de reparação aos crimes da escravidão e do colonialismo, que consiga colocar na ordem do dia a necessidade de um projeto de sociedade de fato antirracista. E esse é o compromisso que eu pretendo assumir enquanto deputada estadual eleita, compondo essa nova bancada negra.
A extrema direita está avançando globalmente e já sentimos o reflexo desse cenário aqui no Rio Grande do Sul, mais recentemente a partir dos resultados do primeiro turno das eleições de 2026. O PL ampliou sua força política, e parlamentares de direita questionam políticas voltadas à igualdade racial, de gênero e protagonizam debates sobre os direitos de grupos historicamente marginalizados, entre eles pessoas negras, mulheres e pessoas LGBTQIAPN+. Quais são os próximos passos para combater e enfrentar esse cenário? E como disputar esse debate na sociedade, especialmente neste momento em que o segundo turno das eleições de 2026 está em curso?
A nossa tática a curto prazo é ir atrás dos votos brancos, dos nulos, das pessoas que não foram votar, muito no sentido do diálogo e também de alertar sobre os malefícios de uma gestão bolsonarista no governo federal.
A médio prazo, eu acredito que a gente precisa levar elementos para a nossa população, ter uma reflexão sobre a política para além do voto. As pessoas são convidadas a participar da política de dois em dois anos, nas eleições, e a gente entende que tem elementos da economia, da história, da filosofia que são negados à população. Então, é óbvio que as pessoas não vão ter as mesmas ferramentas para conseguir fazer grandes análises em relação à sua condição.
A médio prazo, eu acredito que a gente precisa levar elementos para a nossa população, ter uma reflexão sobre a política para além do voto
E também tem um problema, que é essa polarização. A polarização vem mais no sentido de emburrecer e afastar as pessoas da política. Promovem a desunião, promovem o ódio, promovem a desorganização da nossa classe trabalhadora.
Também acho que um dos exercícios nossos, da esquerda revolucionária, dos movimentos sociais, é buscar elementos que nos unam a partir do trabalho, do mutirão, da oficina, dos grupos de estudo, dos espaços de formação, que eu acho que é quando as pessoas conseguem ver realmente a necessidade da política, para além daquilo que está colocado ali nos recortes de Instagram e pela mídia hegemônica.

