A valorização dos conhecimentos ancestrais e o reconhecimento da medicina tradicional de matriz africana foram temas centrais do quarto episódio do podcast “Igualdade e Cultura Negra, Vozes e Territórios”. A convidada é a médica pediatra Regina Nogueira, conhecida como Kota Mulangi, que atua em Rio Grande (RS), e possui experiência tanto na medicina ocidental quanto nos saberes tradicionais de matriz africana.
Apresentado por Iyá Vera Soares, o programa pode ser assistido nas quintas-feiras, 19h, no YouTube da TV Josimo, do Brasil de Fato RS e nacional e no Vida no Sul. O podcast também será exibido nas sextas-feiras, às 11h, na TV Mais.
Kota Mulangi enfatizou durante a conversa que não vê as duas formas de conhecimento como conflitantes. Segundo ela, são ciências distintas, mas com um objetivo comum: aliviar a dor e cuidar das pessoas. A médica esclarece que sua formação em medicina ocidental foi enriquecida pelos ensinamentos obtidos na tradição de matriz africana.
“Eu me tornei uma melhor médica pediatra a partir que eu me transformei numa macota”, afirmou. Segundo ela, a experiência na tradição africana ampliou sua capacidade de compreender os pacientes de maneira integral, considerando não apenas os sintomas, mas também aspectos como alimentação, família, condições de vida, espiritualidade e ancestralidade.
A médica enfatizou ainda que a medicina tradicional de matriz africana deve ser entendida como um sistema de conhecimento próprio, e não como uma prática de menor valor. De acordo com Kota Mulangi, os terreiros e outros territórios tradicionais atuam como locais de cuidado e manutenção desses conhecimentos.
Nesse cenário, ela defendeu a relevância de ervas, plantas, banhos e outros componentes de uso tradicional. Kota Mulangi também destacou a conexão entre esses saberes e práticas que a medicina atualmente reconhece, como a fitoterapia. “A ciência e o mercado incorporaram ou ressignificaram muitos saberes ancestrais”, destaca.
Outro ponto abordado durante a entrevista foi o racismo enfrentado pelos povos de matriz africana. Kota Mulangi criticou a classificação de determinadas práticas tradicionais como “curanderismo” e defendeu que esses conhecimentos sejam tratados com respeito e reconhecidos dentro de seus próprios contextos.
A médica também relacionou a discussão sobre saúde ao racismo estrutural. Segundo ela, pacientes negros podem enfrentar desigualdades no atendimento médico, inclusive pela existência de preconceitos que influenciam a maneira como profissionais avaliam a dor e as condições de saúde dessas pessoas.

A conversa abordou ainda a saúde mental e o desenvolvimento de crianças e adolescentes. A convidada defendeu a criação e o fortalecimento de espaços capazes de estimular a convivência, a cultura e a valorização das crianças, citando terreiros, escolas de samba, capoeira e escolas como ambientes que podem contribuir para a qualidade de vida.
Para a médica, é necessário evitar que as crianças sejam tratadas apenas a partir de diagnósticos e problemas. Ela defende que esses espaços sejam capazes de potencializar a vida, reconhecer as diferenças e combater as discriminações.
A entrevista reforçou, assim, a necessidade de ampliar o debate sobre os diferentes modos de compreender o cuidado e a saúde, valorizando conhecimentos construídos historicamente pelas comunidades negras e preservados por meio da ancestralidade e da resistência cultural.
O projeto Igualdade e Cultura Negra: Vozes e Territórios é uma realização do Instituto Cultural Padre Josimo (ICPJ), por meio do Termo de Fomento nº 973281 do Ministério da Igualdade Racial do Governo Federal, com correalização do Brasil de Fato RS. Ele percorre temas como visão de mundo africana, saúde pública, ervas medicinais, economia solidária, cooperativismo negro, cultura ancestral e educação de matriz africana. Cada episódio parte de uma conversa com uma convidada ou convidado que atua diretamente com o tema abordado, unindo vivência de terreiro, produção acadêmica e militância política.

