Uma mobilização convocada pelo Diretório Central dos Estudantes (DCE) da Universidade de Brasília (UnB) reuniu milhares de pessoas na Esplanada dos Ministérios, em Brasília, na tarde desta terça-feira (13). Com o lema “Bolsonaro Nunca Mais”, o ato reuniu movimentos sociais, coletivos estudantis, representantes de categorias profissionais e parlamentares em apoio à candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à Presidência da República e de Leandro Grass (PT) ao governo do Distrito Federal.
Segundo a organização, 50 mil pessoas participaram da manifestação, que saiu da Biblioteca Nacional em direção ao Congresso Nacional. Em conversa informal com a reportagem, a Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF) estimou um público de pelo menos 20 mil pessoas.
A manifestação ocorreu a 12 dias do segundo turno das eleições, marcado para 25 de outubro, e teve como pautas a defesa da democracia, dos direitos trabalhistas, das universidades públicas e dos direitos das mulheres e da população LGBTQIA+. Ao longo do ato, representantes de partidos e movimentos sociais discursaram e convocaram os participantes a intensificar a mobilização nas ruas e a busca por votos até o dia da eleição.

A convocação foi aprovada em assembleia do DCE da UnB na semana anterior. Para a coordenadora-geral da entidade, Isadora de Oliveira, a disputa eleitoral exige que a população se mobilize contra o avanço da extrema direita.
“Só temos dois caminhos: seguir o que a extrema direita quer, paralisados, ou ocupar todas as ruas deste país para o Bolsonaro não voltar à Presidência”, afirmou. Ela saudou os estudantes que deixaram o trabalho e a universidade para participar do ato.
Defesa da democracia e dos direitos trabalhistas
O deputado distrital Fábio Félix (PSOL), eleito deputado federal e mais votado nas eleições para a Câmara dos Deputados em Brasília, afirmou que a eleição representa uma disputa sobre o futuro da democracia e dos direitos civis no país.
“Não se trata de uma escolha difícil. É uma tentativa da extrema direita de destruir as instituições e a democracia”, disse. O parlamentar criticou posições atribuídas ao campo bolsonarista em relação aos direitos trabalhistas, às universidades federais, às mulheres e à comunidade LGBTQIA+.
“Aqui não tem deputado isentão sem posição política, estamos na rua para derrotar o Bolsonaro. Nós, da comunidade LGBTQIA+, não vamos voltar para o armário”, declarou. Para ele, a mobilização nas ruas é fundamental para derrotar o bolsonarismo e impedir retrocessos nos direitos conquistados.
O deputado distrital Max Maciel (PSOL), reeleito para a Câmara Legislativa do DF, alcançando o posto de mais votado da história da Casa, convocou os participantes a intensificar a campanha. “Vamos eleger o presidente Lula e, no Palácio do Buriti, um professor comprometido com o DF”, afirmou, em referência a Leandro Grass.
A defesa dos direitos trabalhistas esteve entre os principais temas dos discursos. O deputado federal eleito Rick Azevedo (PSOL-RJ) defendeu a mobilização da classe trabalhadora e a ampliação de sua representação política.
“Esse Congresso Nacional nunca imaginou que o Rio de Janeiro ia colocar o primeiro balconista de farmácia para ocupar uma cadeira no congresso. A gente vai acabar com a escala 6×1 e colocá-la no lixo da história”, declarou o representante do movimento VAT (Vida Além do Trabalho), que encabeça a luta pelo fim da escala 6×1.
Azevedo encerrou sua fala exaltando a classe trabalhadora e manifestando apoio à candidatura de Lula.
Juventude e educação na mobilização
A presença de estudantes e representantes de entidades educacionais foi um dos destaques da manifestação. Mariana Chagas, tesoureira da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES), destacou políticas de acesso ao ensino superior, como o Programa Universidade para Todos (Prouni) e o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies).
A dirigente defendeu a mobilização cotidiana dos apoiadores. “Cada um aqui tem que ser um multiplicador da nossa palavra”, afirmou, convocando os participantes a usarem adesivos e demonstrarem publicamente seu posicionamento político. “É Lula ou barbárie”, concluiu.
Amanda Mendes, vice-presidente da Associação Nacional de Pós-Graduandos (ANPG), relacionou sua trajetória acadêmica às políticas públicas de acesso à educação. Primeira pessoa de sua família a ingressar no mestrado, ela destacou a importância das cotas raciais e do Prouni.
“Eu sou a primeira da minha família a entrar no mestrado, e tudo isso graças aos nossos governos Lula e Dilma, que olharam para os filhos e filhas da classe trabalhadora”, afirmou.
Mendes criticou a condução do governo Bolsonaro durante a pandemia de covid-19 e destacou a necessidade de defender a ciência e a soberania nacional. Ao final, manifestou apoio às candidaturas de Lula e Leandro Grass.

Mobilização para além do Plano Piloto
Lideranças políticas defenderam a ampliação da campanha nas regiões administrativas (RAs) do Distrito Federal. Gabriel Barros, secretário de Juventude do PT, afirmou que os atos no Plano Piloto precisam ser acompanhados por ações de mobilização nos territórios do entorno.
“Agora temos a tarefa de voltar para as nossas regiões administrativas e virar voto para o Lula e para o Leandro Grass. Vamos montar comitês de base em cada RA”, declarou.
O deputado distrital Gabriel Magno (PT) convocou a juventude e os trabalhadores a manterem a mobilização. Para ele, o crescimento da extrema direita exige organização popular e presença nas ruas. O parlamentar criticou a possibilidade de continuidade de um projeto político associado ao bolsonarismo no Distrito Federal.
Leandro Grass, candidato ao governo do DF que disputa o segundo turno contra a atual governadora Celina Leão (Progressistas), discursou e convocou os apoiadores a ampliar o diálogo com os eleitores e conquistar votos na reta final da campanha. Em sua fala, defendeu a construção de “Brasília como a terra da liberdade e a capital do povo brasileiro”.
Também estiveram presentes entre as lideranças políticas a deputada federal Erika Kokay (PT-DF), o deputado distrital Múcio Botelho (PSB-DF) e o deputado federal Agnelo Queiroz (PT).

Militância e participação popular
A manifestação reuniu militantes de organizações políticas e pessoas que participaram do ato por iniciativa própria.
Caio Andrade, servidor público federal e morador de Brasília, afirmou que foi à Esplanada em defesa da reeleição de Lula e contra a possibilidade de retrocessos democráticos. Ele reconheceu que o resultado do primeiro turno expressou insatisfações de parte do eleitorado com a política econômica, mas avaliou que uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro poderia agravar a situação.
“Não podemos aceitar nenhum retrocesso democrático no nosso país”, afirmou. Para Andrade, a continuidade do governo Lula oferece melhores condições para ampliar conquistas e defender direitos.
“A gente não pode ignorar a insatisfação popular, sobretudo em relação à política econômica, mas a gente não pode ignorar que o tesouração que Flavio Bolsonaro quer vai piorar muito essa situação. Com o governo Lula a gente vai ter condições muito melhores de lutar para ampliar a conquista e defender nossos direitos.”
Gabriela Matos, militante do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR) no Distrito Federal, disse que a mobilização expressa a indignação de setores da sociedade com o resultado do primeiro turno e a preocupação com a possibilidade de vitória da extrema direita.
Embora tenha feito críticas à política econômica do governo Lula, que classificou como marcada pela austeridade fiscal e por ataques a direitos, ela defendeu a mobilização contra o projeto representado por Flávio Bolsonaro.
“Entendemos a centralidade de não entregar o Brasil para um projeto reacionário”, afirmou. Para Gabriela, a organização da classe trabalhadora precisa ir além do calendário eleitoral, com a formação de comitês de luta e a continuidade da mobilização popular independentemente do resultado das urnas.

Julie Witzel, atriz da Companhia Burlesca, pesquisadora do Coletivo Terra em Cena e doutoranda em Artes Cênicas na UnB, destacou a importância da mobilização para impedir o retorno do bolsonarismo ao governo federal.
“Esse é um dos momentos mais importantes para a gente não deixar que essa família volte a tomar conta de tudo”, afirmou. Witzel defendeu a eleição de Lula e Leandro Grass e disse temer retrocessos políticos e sociais caso a extrema direita volte ao poder.
A participação de famílias e crianças marcou a manifestação. Maria Flor, de 10 anos, estudante da Escola Classe 5 do Guará, contou que foi ao ato por apoiar Lula e associar sua candidatura à educação e ao Bolsa Família.
“Eu adoro o Lula. Meu sonho é dar um abraço nele e, com certeza, vou realizar meu sonho”, disse. A estudante se declarou evangélica e manifestou apoio ao presidente.
Ao longo da tarde, as falas convergiram para a necessidade de manter a mobilização política até o segundo turno e fortalecer a campanha nos territórios. Para os participantes, a disputa eleitoral envolve os rumos das políticas públicas, dos direitos sociais e da democracia no país. O ato encerrou às 20h.


