ANÁLISE

Por que as mulheres estão aderindo ao movimento antifeminista?

Das redes sociais às eleições de 2026, extrema direita avança com discursos que ameaçam a vida das mulheres

Cena da série 'The Handmaid’s Tale', baseada no livro de mesmo nome, 'O Conto da Aia', de Margaret Atwood
Cena da série ‘The Handmaid’s Tale’, baseada no livro de mesmo nome, ‘O Conto da Aia’, de Margaret Atwood | Crédito: Reprodução

“O meu namorado descobriu uma traição, teve uma crise de ciúmes, ele me matou. Isso é feminicídio? Ele me matou porque ele descobriu uma traição e não porque eu sou mulher. Crime passional já existe há muito tempo.” 

“Qualquer homem tem que ter o direito de me mandar voltar pra cozinha se ele quiser.” 

“Existem algumas crianças que acabam menstruando cedo demais por uma questão hormonal, mas quando uma menina menstrua, aquele é o sinal de que o corpo dela está apto para gerar uma vida.”

As declarações acima são de Eduarda Campopiano, filiada ao Partido Liberal (PL) e que se apresenta como “a maior inimiga das feministas”. Nas eleições de 2026, Campopiano foi a mulher mais votada para a Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), com 1.956.238 votos.

Nas redes sociais, ela acumula mais de 2 milhões de seguidores e é acompanhada por uma comunidade de mulheres que, em seus perfis, se descrevem como “casadas, mães e cristãs”, expressões que vêm sendo utilizadas para sintetizar aspectos da identidade pessoal, dos valores familiares e da fé dessas mulheres.

Campopiano também ganhou força nas redes por meio de participações em dinâmicas de debate no formato “X contra 1” | Crédito: Reprodução

Foi com esse eleitorado que Campopiano, já em 2024, chegou à Câmara de Praia Grande, no litoral de São Paulo, tornando-se a parlamentar mais jovem a ocupar o cargo no município. Dois anos depois, essa base de apoio se ampliou e a levou a um novo patamar: foi eleita deputada estadual com o maior número de votos do Brasil.

Campopiano ganhou projeção pública por suas posições contrárias ao feminismo e ao direito ao aborto, inclusive em casos previstos em lei, defendendo que meninas e adolescentes levem adiante gestações decorrentes de estupro. Ela também classifica a licença-maternidade como um privilégio, se opõe à criminalização da misoginia e nega a existencia de feminicídio como uma categoria específica de crime.

Mas a sua ascensão política expõe um fenômeno perturbador que desafia qualquer análise simplista: por que tantas mulheres estão aderindo a um discurso antifeminista e se voltando contra os seus próprios direitos?

Casadas, mães, cristãs

Os resultados das eleições de 2026 escancararam o avanço de lideranças femininas alinhadas à extrema direita, que chegaram com força às urnas e conquistaram espaço no Legislativo. Com elas, avançam também projetos políticos que confrontam as lutas históricas do movimento feminista e colocam em disputa os rumos dos direitos das mulheres.

No Distrito Federal, Michelle Bolsonaro (PL) recebeu 938.496 votos (29,1%), enquanto Bia Kicis (PL) obteve 886.616 (27,4%). As duas foram eleitas para as vagas ao Senado. Em Santa Catarina, Julia Zanatta (PL) foi reeleita com 560.223 votos, tornando-se a deputada federal mais votada da história do estado. No Rio Grande do Sul, Adri Cherini (PL) foi a deputada estadual mais votada.

A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL), eleita senadora no DF

À primeira vista, a presença de mais mulheres nos espaços de poder poderia ser celebrada como uma conquista. Mas ocupar uma cadeira no Legislativo não significa, necessariamente, avançar na luta por direitos. Não basta que sejam mulheres a chegar ao poder: é preciso olhar para os projetos que defendem e para os interesses que representam. Afinal, quando lideranças femininas reproduzem discursos conservadores e defendem ideias que reforçam a opressão e a desigualdade de gênero, a representatividade pode servir não à emancipação das mulheres, mas à legitimação de estruturas que historicamente as oprimem.

Em um de seus discursos, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro defende que as mulheres na política devem adotar uma postura de “colaboração”, e não de competição com os homens. A ideia aparece também na forma como ela própria define o papel feminino: a mulher pode ocupar o espaço público, trabalhar e participar da política, mas sem romper com o lugar que a ordem patriarcal historicamente lhe atribuiu.

“Uma mulher ajudadora, auxiliadora do seu esposo. Entendo o meu chamado como mulher. Sou preciosa. Sou amada do Pai. Sei a minha missão. Entendo o meu propósito na Terra. E, quando falo sim, eu sou auxiliadora, ajudadora. E a Bíblia fala da submissão da esposa ao marido.”   

A lógica, portanto, não é a de afastar as mulheres da vida pública, mas de delimitar os termos de sua participação. Elas podem estar na política, desde que essa ascensão não implique disputar com os homens. A mulher pode ocupar espaços públicos, mas permanece vinculada ao papel de auxiliar, cuidadora e esposa. A posição de poder e liderança continua associada ao masculino: mulheres podem colaborar, mas o protagonismo segue sendo dos homens.

O movimento Tradwife 

Discursos como o de Michelle Bolsonaro ganhou as redes nos últimos tempos por meio de vídeos que performam e defendem uma rotina aparentemente “perfeita”, celebrando os papéis femininos tradicionais dentro do casamento e da família, com dedicação total aos seus maridos, filhos e às tarefas domésticas. 

O movimento tradwife ganhou popularidade entre as brasileiras e ajudou a difundir a figura da chamada “esposa troféu”: mulheres jovens que exibem uma rotina de luxo, tempo livre e dependência financeira do parceiro | Reprodução

Chamado de tradwife (abreviação de traditional wife, ou “esposa tradicional”), o movimento refere-se a uma comunidade de mulheres que abdicam de suas carreiras profissionais para se tornaram “alicerces” de seus lares.

O conteúdo é marcado por uma estética inspirada nos anos 1950 (vestidos vintage, penteados impecáveis, preparo de pães artesanais, receitas caseiras do zero e criação de filhos) em plataformas como TikTok e Instagram. 

O movimento tradwife ganhou popularidade entre as brasileiras e ajudou a difundir a figura da chamada “esposa troféu”: mulheres jovens que exibem uma rotina de luxo, tempo livre e dependência financeira do parceiro. Vendido nas redes sociais como um ideal de vida, esse modelo passou a representar o sonho de muitas.

Ambas as tendências acendem um alerta, pois abrir mão da independência financeira pode ser o primeiro passo rumo à dependência emocional, vulnerabilidade econômica e perda de autonomia, deixando as mulheres desprotegidas.

Levantamento realizado pelo Rampas UERJ, núcleo de jornalismo da Faculdade de Comunicação Social (FCS) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), aponta a força desse fenômeno. Em escala global, as buscas pelo termo tradwife atingiram o pico em agosto de 2025 e permaneceram em alta, oscilando entre 40 e 64 pontos em julho e agosto de 2026. Já o interesse pelo estilo de vida das stay-at-home moms (mães em tempo integral), outra denominação adotada por influenciadoras nas redes sociais, alcançou seu auge no início de 2025. As buscas por mulheres das décadas de 1940/50 e modelos familiares de meados do século 20 também cresceram consideravelmente. 

Esse movimento também vem se manifestando em conteúdos que “ensinam” como as mulheres devem se comportar para conquistar a aprovação masculina. Um exemplo é o perfil Café com Teu Pai, criado pelo influenciador Breno Farias, que ganhou notoriedade nas redes sociais com a proposta declarada de “ensinar as mulheres a entenderem a mentalidade e o comportamento dos homens”, prometendo orientá-las a se tornarem mulheres que eles desejam. Em abril deste ano, a página foi retirada do ar após ser denunciada pelo Ministério Público Federal (MPF) por suposta produção de conteúdos misóginos.

Enquanto esses papéis de gênero são resgatados e romantizados nas redes sociais, a realidade brasileira expõe a face mais violenta das desigualdades que ceifa as vidas das mulheres. Em 2025, o Brasil registrou 1.571 vítimas de feminicídio, o maior número da série histórica, segundo o 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública. No Rio Grande do Sul, a violência segue avançando. Somente em 2026, o estado já contabiliza 60 casos de feminicídio.

Busca por validação masculina?

Do outro lado desse debate, quase como uma nova onda feminista que, desta vez, se insurge contra o avanço do antifeminismo, psicólogas têm utilizado as redes sociais para promover reflexões sobre os mecanismos por trás desse fenômeno. 

A psicóloga clínica Karina Bezerra, que também produz conteúdos para as redes sociais sobre os padrões sociais e as expectativas que moldam a vida das mulheres, propõe uma reflexão sobre as origens psicossociais dos movimentos que resgatam papéis conservadores de gênero e sobre os mecanismos que levam algumas mulheres a reproduzir estruturas que limitam a sua própria autonomia. Para Bezerra, a busca por validação masculina pode estar entre as explicações para esse comportamento, especialmente quando a necessidade de aprovação dos homens se sobrepõe à defesa da própria liberdade e dos direitos de outras mulheres.

“Homens aumentam e mantêm seus privilégios desde que o mundo é mundo. Mulheres são ferramentas para preservar esse status quo e, para isso, nos convenceram de que só teríamos o amor e a admiração deles caso aceitássemos estar um grau abaixo”, afirma.

Segundo a psicóloga, essa necessidade de aprovação pode levar algumas mulheres a aceitar posições de submissão e a se incomodar com aquelas que tentam romper com essa lógica. “Para não encarar essa dor, essas mulheres se incomodam quando outras tentam sair desse lugar de validação e submissão”, explica. Em alguns casos, questionar essa dinâmica significa confrontar crenças construídas ao longo da vida. 

A psicóloga também alerta para as consequências coletivas desse comportamento, sobretudo quando a busca pela aprovação masculina passa pela deslegitimação das experiências de outras mulheres e pela defesa de estruturas que perpetuam a desigualdade de gênero.

Meme que tem circulando nas redes sociais sobre a suposta busca por validação masculina de Campopiano | Créditos: Reprodução

“Fazer uma mulher acreditar que, para ser aceita por homens, ela precisa se afastar das outras mulheres, deslegitimar suas dores, questionar seus direitos e defender justamente a estrutura que mantém todas nós em uma posição de desigualdade é uma das formas mais perversas de funcionamento desse sistema”, afirma Bezerra.

A questão ganha ainda mais relevância quando mulheres ocupam espaços de poder e atuam para restringir direitos de outras. “Quando uma mulher abre mão da própria autonomia para receber aprovação masculina, ela não está apenas fazendo uma escolha individual”, destaca.

A reflexão, portanto, vai além das preferências individuais: trata-se de questionar até que ponto determinadas escolhas são feitas com autonomia ou refletem padrões de socialização que ensinam às mulheres a priorizar a aprovação masculina em detrimento da própria liberdade – e que podem levá-las a reproduzir, inclusive, estruturas que restringem os direitos de outras mulheres.

De Atwood à Federici

Com o avanço desses discursos, a realidade brasileira passou a ser comparada com a distopia “O Conto da Aia”, escrita por Margaret Atwood. Na obra de ficção, um regime totalitário toma o poder, mulheres perdem a liberdade, famílias são separadas, a reprodução é controlada pelo Estado e mulheres férteis são transformadas em instrumentos reprodutivos.

No livro, Atwood alerta que antes do absurdo virar cotidiano, foi preciso normalizar discursos, relativizar violências e convencer as pessoas de que os direitos das outras não eram problema delas. Direitos não desaparecem de uma vez. 

Partindo da realidade, a filósofa Silvia Federici em “O Calibã e a Bruxa” analisa como a transição do feudalismo para o capitalismo foi marcada pela intensificação da exploração das mulheres e pelo controle de seus corpos. A autora argumenta que a consolidação do sistema capitalista dependeu da divisão sexual do trabalho, que confinou as mulheres às atividades domésticas e reprodutivas. Nesse contexto, afirma que “o corpo é para as mulheres o que a fábrica é para os homens trabalhadores assalariados”, pois constitui o principal terreno de exploração e resistência.

Cena da série “The Handmaid’s Tale”, baseada no livro de mesmo nome, “O Conto da Aia”, de Margaret Atwood | Crédito: Reprodução

Durante a crise do sistema feudal, enquanto camponeses se rebelavam contra a exploração dos senhores, a violência também foi direcionada às mulheres. A legalização do estupro de mulheres pobres e a institucionalização da prostituição contribuíram para consolidar um ambiente de misoginia e naturalizar a violência de gênero. Segundo Federici, esse processo ajudou a preparar o terreno para a caça às bruxas, que perseguiu mulheres e contribuiu para destruir sua autonomia e seus conhecimentos sobre o próprio corpo.

Também nesse contexto, a capacidade reprodutiva das mulheres passou a ser considerada estratégica para a expansão econômica, transformando seus corpos em instrumentos de reprodução da força de trabalho. Como consequência, práticas contraceptivas e formas de sexualidade não voltadas à procriação foram perseguidas, enquanto leis e mecanismos de vigilância passaram a punir mulheres que tentavam controlar a própria fertilidade.

Nesse processo, a reprodução das gerações futuras de trabalhadores e a manutenção cotidiana de sua capacidade de trabalho foram atribuídas às mulheres, tornando-se força motriz para o funcionamento do capitalismo. Para Federici, portanto, a exploração capitalista não se limita ao trabalho assalariado: ela também depende do trabalho reprodutivo imposto às mulheres.

Federici demonstra que o controle da reprodução foi uma das bases da consolidação do capitalismo e que suas consequências permanecem presentes, ainda que sob novas formas. A reflexão permanece atual diante dos debates sobre direitos reprodutivos, acesso a contraceptivos e a autonomia das mulheres para decidir sobre seus próprios corpos. 

A obra de Margaret Atwood e a análise histórica de Silvia Federici, embora partam de contextos distintos, convergem em uma questão fundamental: quem tem o poder de decidir sobre o corpo, o trabalho e o destino das mulheres? Essa disputa está longe de pertencer apenas ao passado ou à ficção. Ela atravessa o presente e demonstra que nenhuma conquista de direitos é definitiva enquanto persistirem as estruturas que sustentam a desigualdade de gênero. A misoginia não desapareceu: ela se adaptou, assumiu novas formas e agora também tenta se disfarçar de tradição, escolha individual e valorização feminina.

Quando a submissão é romantizada nos scrolls do TikTok e do Instagram, a busca por validação masculina é vendida como ideal de vida e a autonomia das mulheres passa a ser tratada como uma ameaça, o retrocesso avança pela disputa de valores e imaginários, resultando na retirada de direitos historicamente conquistados. 

* Jornalista, repórter do Brasil de Fato RS

** Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Editado por: Katia Marko

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