Valorizar o salário mínimo é, ao mesmo tempo, distribuir renda e fortalecer o mercado interno, o que faz do crescimento dos salários uma das importantes engrenagens do projeto de desenvolvimento para o Brasil.
Durante décadas, parte do debate econômico brasileiro tratou o salário predominantemente como custo. Segundo essa visão, aumentar salários acima da inflação pressionaria as empresas, provocaria desemprego, estimularia a informalidade e reduziria a competitividade. A experiência brasileira das últimas duas décadas recomenda olhar a questão por outro ângulo. Desde o início dos anos 2000, o país realizou uma das mais importantes experiências distributivas de sua história recente com a implementação da política de valorização do salário mínimo.
Os números são reveladores. Em abril de 2002, o salário mínimo era de R$ 200 e, em janeiro de 2026, chegou a R$ 1.621. No período, segundo o DIEESE, houve aumento nominal de 710% e, descontada a inflação medida pelo INPC, o resultado foi um ganho real acumulado de aproximadamente 100%. Em pouco mais de duas décadas, portanto, o salário mínimo praticamente dobrou seu poder de compra.
Essa transformação não caiu do céu. Foi uma conquista do movimento sindical. A partir da mobilização unitária das Centrais Sindicais, especialmente das Marchas da Classe Trabalhadora iniciadas em 2004, construiu-se uma política que combinou reposição da inflação e aumento real relacionado ao crescimento da economia. Há nessa fórmula uma ideia poderosa: se a economia cresce, parte desse crescimento deve chegar a quem vive do trabalho.
Assim, trabalhadores aumentaram seu poder de compra, aposentadorias e pensões foram valorizadas, benefícios vinculados ao piso nacional cresceram e o salário mínimo exerceu seu “efeito farol” sobre outras remunerações.
Os impactos
Mas há outro resultado que merece destaque: essa renda voltou para a economia. A Nota Técnica nº 289 do DIEESE permite enxergar a dimensão econômica dessa política. Em 2026, cerca de 61,9 milhões de brasileiros têm rendimentos referenciados no salário mínimo. O reajuste para R$ 1.621 acrescenta nada menos que R$ 81,7 bilhões à renda disponível na economia em um único ano.
Segundo o DIEESE, aproximadamente R$ 39 bilhões chegam aos beneficiários do INSS; R$ 24 bilhões aos empregados; R$ 13 bilhões aos trabalhadores por conta própria; R$ 5 bilhões aos trabalhadores domésticos; e cerca de R$ 473 milhões aos empregadores.
Um reajuste de R$ 103 mensais, quando observado individualmente, pode parecer pequeno. Multiplicado por dezenas de milhões de pessoas e considerado ao longo de todo o ano, transforma-se numa gigantesca massa de renda.
Esse dinheiro não fica parado: transforma-se imediatamente em consumo de alimentos, medicamentos, roupas, transporte, material escolar, serviços e outros bens necessários à vida cotidiana. O salário recebido pelo trabalhador transforma-se em faturamento do supermercado, da farmácia, da padaria, do comércio e dos prestadores de serviços. Ajuda a pagar outros salários, fornecedores e tributos e volta novamente a circular.
Esse efeito é particularmente importante nos pequenos e médios municípios, onde salários, aposentadorias e benefícios vinculados ao mínimo possuem enorme importância para a economia local.
Por isso, precisamos afirmar algo que muda a perspectiva do debate: salário não é apenas resultado do desenvolvimento. Salário também produz desenvolvimento.
Salário e mercado interno
Uma economia se desenvolve porque existe demanda capaz de sustentar e estimular a produção. O Brasil possui uma vantagem extraordinária: um mercado interno de dimensão continental. Mas o tamanho potencial desse mercado somente se transforma em força econômica quando as pessoas possuem renda. É aí que a política de valorização do salário mínimo se encontra com uma estratégia de desenvolvimento.
Salários maiores fortalecem o mercado interno. Mercado interno forte amplia a demanda por bens e serviços. A ampliação da demanda melhora as perspectivas das empresas e estimula investimentos. O investimento amplia a capacidade produtiva, incorpora tecnologia, gera inovação e aumenta a produtividade.
Mas esse círculo virtuoso não ocorre automaticamente. Se ampliarmos a demanda sem transformar nossa capacidade produtiva, parte dela poderá resultar em importações, gargalos de oferta ou pressões sobre preços. Por isso, política salarial e política de desenvolvimento produtivo precisam caminhar juntas.
Produzir mais valor, não competir pagando menos
Nosso desafio é fortalecer a estratégia que combina investimento, conhecimento, tecnologia, inovação, produtividade e agregação de valor. A Nova Indústria Brasil oferece uma base importante ao organizar a política industrial em torno de grandes missões nacionais. Precisa ser fortalecida e articulada às demais políticas setoriais de desenvolvimento produtivo.
Investimento público e privado, crédito, ciência e tecnologia, inovação, infraestrutura, formação profissional e compras públicas precisam convergir para uma finalidade: aumentar o valor produzido pelo trabalho brasileiro.
Inteligência artificial, automação, digitalização e reorganização produtiva poderão gerar enormes ganhos de produtividade. Mas produtividade maior não significa automaticamente salários maiores. A pergunta será: quem ficará com esses ganhos?
Parte precisa retornar às empresas como investimento e inovação. Parte deve fortalecer a capacidade do Estado de financiar infraestrutura e políticas públicas. E parte deve chegar aos trabalhadores na forma de salários maiores, empregos de qualidade, formação profissional, proteção social e redução da jornada.
Essa distribuição não acontecerá espontaneamente. Para isso existem instituições: política de valorização do salário mínimo, negociação coletiva, proteção trabalhista e previdenciária, formação profissional permanente e serviços públicos. Precisamos construir deliberadamente a ponte entre produtividade e qualidade de vida.
Bons empregos também são política de desenvolvimento
Quando o Estado financia investimentos, oferece crédito, infraestrutura, incentivos ou apoio à inovação, deve perguntar também: quantos empregos serão criados? Que qualidade terão? Quais serão os salários? Que formação será necessária? Como os trabalhadores participarão dos ganhos de produtividade?
Nosso projeto precisa alcançar também milhões de brasileiros que convivem com informalidade, subutilização da força de trabalho, baixa produtividade ou dificuldades para acessar as novas oportunidades.
Por isso, precisamos de uma Política Nacional de Inclusão Produtiva articulada à estratégia de desenvolvimento. Quando um investimento é decidido, devemos antecipar quais empresas, ocupações e competências serão demandadas. Formar antes que faltem profissionais. Preparar os trabalhadores antes que ocupações desapareçam. Conectar educação profissional, intermediação do trabalho, crédito, assistência técnica, empreendedorismo, cooperativismo e economia solidária às oportunidades criadas em cada território.
Crescer, transformar e distribuir
Não existe desenvolvimento sustentável distribuindo uma riqueza que não cresce. Mas tampouco existe desenvolvimento socialmente legítimo quando a riqueza cresce e permanece concentrada. O desafio brasileiro é crescer, transformar e distribuir ao mesmo tempo.
Investimento gera inovação. Inovação aumenta produtividade. Produtividade permite produzir mais valor. Parte desse valor transforma-se em salários maiores. Salários maiores fortalecem o mercado interno. Mercado interno forte estimula novos investimentos. E o ciclo recomeça em um patamar mais elevado.
A política de valorização do salário mínimo ocupa lugar estratégico nesse projeto porque atua justamente na base da estrutura de rendimentos e coloca renda nas mãos de milhões de pessoas.
Salário maior, produtividade maior, economia mais forte e vida melhor são partes do mesmo projeto de desenvolvimento.
*Clemente Ganz Lúcio é sociólogo, coordenador do Fórum das Centrais Sindicais, membro do CDESS – Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social Sustentável da Presidência da República, membro do Conselho Deliberativo da Oxfam Brasil, Enviado Especial para COP-30 sobre Trabalho, Coordenador do Grupo de Facilitação do Pacto Nacional pelo Combate às Desigualdades, consultor e ex-diretor técnico do DIEESE (2004/2020).
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

