A extrema direita realizou nesta terça-feira (13) um protesto em frente à PUC-Rio, em meio à mobilização política que vem tomando conta do país no segundo turno das eleições presidenciais. Durante a manifestação, um influencer de extrema direita ridicularizou a morte de Marielle Franco, ex-aluna da universidade e minha antiga colega no curso de Ciências Sociais. O episódio não pode ser tratado apenas como mais uma manifestação política: ele representa a tentativa de levar para dentro do espaço universitário uma cultura de intolerância e de desrespeito à memória de uma jovem que se tornou símbolo da luta democrática e dos direitos humanos no Brasil.
A PUC-Rio sempre foi um espaço marcado pela diversidade, pelo pluralismo e pela convivência entre diferentes correntes políticas e intelectuais. Isso não significa que a universidade tenha sido ou deva ser um espaço livre de conflitos. A história da PUC é também uma história de intensa participação política e de debate de ideias. Foi de seus corredores que saiu parte importante da geração da UNE que, nos anos 1960, atuou no Centro Popular de Cultura (CPC) da UNE. Aldo Arantes, então estudante de Direito e presidente da UNE, é um dos exemplos dessa trajetória. No campo da cultura, nomes como Arnaldo Jabor e Cacá Diegues, também formados pela PUC-Rio, participaram da efervescência cultural que marcou aquele período e contribuíram para a renovação do cinema brasileiro. Ou seja, a universidade sempre foi um espaço de produção intelectual, cultural e política profundamente conectado aos grandes debates nacionais.
Nos anos 1980, a PUC-Rio também foi o espaço acadêmico de uma das mais importantes intelectuais brasileiras do século 20: Lélia Gonzalez, professora e diretora do então Departamento de Sociologia e Política, atual Departamento de Ciências Sociais. Pioneira na reflexão sobre as relações entre raça, gênero e classe, Lélia desenvolveu formulações que anteciparam questões que décadas depois ganhariam grande projeção internacional sob o conceito de interseccionalidade, associado à jurista norte-americana Kimberlé Crenshaw. A dimensão de sua contribuição pode ser medida também pelo reconhecimento internacional de seu pensamento. Angela Davis já destacou a importância de conhecermos mais profundamente a obra de Lélia Gonzalez, em vez de tratarmos como novidade no Brasil formulações produzidas posteriormente nos Estados Unidos.
Na década de 1990, a PUC-Rio esteve novamente no centro de uma transformação decisiva do país: foi em seu Departamento de Economia que se reuniram alguns dos principais formuladores do Plano Real, entre eles André Lara Resende, Edmar Bacha, Francisco Lopes, Gustavo Franco, Pérsio Arida, Pedro Malan e Winston Fritsch. Independentemente das diferentes avaliações políticas e econômicas que se possam fazer do Plano Real, sua elaboração demonstra a capacidade da universidade de produzir conhecimento com impacto direto sobre os grandes problemas nacionais. Mais uma vez, a PUC-Rio funcionava como espaço de encontro entre universidade, debate público e formulação de políticas para o país.
No início dos anos 2000, a universidade esteve na origem de uma experiência que inspiraria a criação do Programa Universidade para Todos (Prouni). A PUC-Rio já possuía um modelo pioneiro de distribuição de bolsas e inclusão de estudantes de baixa renda, experiência que foi apresentada ao então ministro da Educação, Fernando Haddad, pelo saudoso Augusto Sampaio, ex-vice-reitor comunitário da universidade. A iniciativa expressava uma concepção de universidade fundada na ideia de que o acesso ao ensino superior deveria ser ampliado e socialmente democratizado. É mais um exemplo de como a PUC-Rio, ao longo de sua história, produziu experiências que ultrapassaram os limites de seus muros e contribuíram para a construção de políticas públicas nacionais.
É essa tradição de pluralismo, produção intelectual, participação política e compromisso democrático que está em disputa. A PUC-Rio é terreno fértil para a diversidade de ideias, inclusive para o confronto entre posições políticas antagônicas. Mas pluralismo não significa aceitar a intolerância como se ela fosse apenas mais uma opinião. O limite da tolerância é a própria intolerância. Quando a liberdade é utilizada para negar a dignidade, a memória e os direitos fundamentais de outras pessoas, a democracia precisa estabelecer seus próprios mecanismos de defesa. A boa tradição crítica que passa por Herbert Marcuse já nos ensinou que uma sociedade verdadeiramente tolerante não pode ser indiferente à ação daqueles que pretendem utilizar a tolerância para destruí-la. Pelo bem da universidade, pelo bem da democracia e pelo direito de todos à convivência plural, manifestações de intolerância não podem encontrar terreno fértil no campus da PUC-Rio. Mas a sua comunidade saberá responder à altura.
*Theófilo Rodrigues é cientista político, professor do Programa de Pós-Graduação em Sociologia Política do IUPERJ UCAM. Formado em ciências sociais pela PUC-Rio.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

