Cinema é, antes de tudo, atmosfera. Muitas vezes, é na imagem que está aquilo que nos propomos a contar. Em A Mãe Bruxa, do diretor grego Minos Papas, que integra a seleção do Festival do Rio de 2026, somos transportados para o Chipre de 1882, então sob ocupação britânica. Mas não é apenas por esse contexto histórico que o filme, entre o suspense e o terror, impressiona. É sobretudo pela visão depreciativa que lança sobre a mulher. É por meio de histórias como essa que podemos dimensionar as raízes de uma postura que, ainda hoje, persiste na sociedade.
No filme, o homem domina em diferentes esferas, mas sempre pela força. A mulher, por sua vez, constrói sua existência por meio da arte, da sensibilidade e de uma maneira de olhar o mundo que passa pelo místico, sem necessariamente se vincular à religião. Essa oposição nos leva a refletir sobre como os papéis de gênero são construídos de fora para dentro: primeiro, uma sociedade estabelece costumes, modos de vida e comportamentos; depois, transforma essas convenções em modelos do que se espera do masculino e do feminino.
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A mãe é pintora, concentrada em suas cores e em sua ligação direta com a natureza. Cada cor, cada nuance, parece nascer daquilo que a natureza oferece às flores. A grande pintura é a própria natureza, e é dela que a mãe se vale para sensibilizar suas imagens, encontrando os tons adequados para compor seus contos visuais. Enquanto isso, seus filhos acompanham o cotidiano artístico da mãe e vivem a infância em contato direto com o ambiente em que vivem. Um menino e uma menina, já crescidos, ajudam a mãe a cuidar de um bebê ainda de colo.
Nesse mesmo vilarejo da ilha vive outro menino, também imerso em seus desenhos rebuscados, abstratos e religiosos. Sua infância, porém, está longe de ser tranquila: o pai vive perseguindo-o, incomodado com a abstração do garoto e preso a uma visão de mundo restrita aos trabalhos braçais.
Esse conflito entre o trabalho artístico e o trabalho cotidiano, considerado “normal”, ainda persiste em muitas famílias. Curiosamente, essa visão tão afinada à lógica capitalista também se desfaz quando o próprio capitalismo consagra o artista por meio da fama e do reconhecimento. São contradições como essa que confundem os valores e as percepções das pessoas em uma sociedade regida pelo dinheiro.
Voltando à mãe pintora do Chipre, sua vida é atravessada por uma tragédia: ela perde os três filhos de uma só vez, em um acidente nas ruínas de antigos muros. Em uma sequência angustiante e brutal, vemos as crianças brincando sobre uma estrutura prestes a desabar. A tensão cresce até que o pior acontece, culminando na visão de três covas abertas, entre gritos, choros e lamentos.
Dias depois, porém, essa mesma mãe, já devastada pela tragédia, torna-se alvo de acusações, maldições e presságios dos moradores locais, que lhe atribuem toda a culpa pelo ocorrido, como se seu destino estivesse marcado por uma maldição por ser mãe das crianças mortas. Os pais do vilarejo, por sua vez, apesar da brutalidade, do abandono dos filhos e da violência familiar, permanecem impunes. A violência masculina parece encontrar sempre alguma forma de tolerância social.
Contudo, o pai violento do menino desenhista acaba morto pelas tropas inglesas invasoras, e o garoto passa então a estabelecer uma relação estreita com a mãe pintora, agora amaldiçoada pela comunidade. É nesse momento que o filme mergulha na atmosfera do terror, fazendo proliferar sustos e fantasmas. As crianças mortas reaparecem nos espaços mais sombrios do Chipre, entre cavernas e construções centenárias. E o menino desenhista aflora em possessões e anúncios de uma vida enfeitiçada. Enquanto isso, um demônio representa o domínio das crianças mortas.
A Mãe Bruxa, como já disse, é um filme de atmosfera, mas a articulação entre imagem e som está longe de nos deixar tranquilos. Há algo de profundamente inquietante nessa experiência, sobretudo quando pensamos no lugar reservado à mulher em uma história atravessada pela tragédia da dominação.
*Rogério Cavalcante e Castro é cineasta e da produtora Poética Marginal.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.


