Sindicatos de diferentes categorias realizam, nesta quarta-feira (14), uma vigília no Senado Federal para pressionar os parlamentares a aprovarem a proposta que prevê o fim da escala 6×1. Com a matéria em votação, representantes dos trabalhadores defendem a redução da jornada como forma de ampliar o tempo de descanso e convivência familiar e melhorar as condições de vida de quem enfrenta jornadas extensas.
A mobilização ocorre em meio à discussão da PEC 221/2019, que propõe a redução gradual da jornada semanal máxima de 44 para 40 horas, com dois dias de descanso remunerado e sem redução salarial. A vigília busca ampliar a pressão sobre os senadores para que a proposta avance e represente uma mudança nas condições de trabalho no país.
A proposta está na pauta do Senado para votação em primeiro turno. A possibilidade de concluir os dois turnos no mesmo dia depende da aprovação de um calendário especial, que permite dispensar o intervalo regimental entre as votações. Para ser aprovada, a PEC precisa de pelo menos 49 votos favoráveis em cada turno.

A jornada que não termina em casa
“Muitos pensam que a gente quer descanso, mas não. Nós queremos saúde”, afirma Osmar Félix. Ao defender o fim da escala 6×1, o diretor do Sindiserviços-DF descreve a rotina de trabalhadoras terceirizadas que precisam conciliar longos deslocamentos, expediente e responsabilidades domésticas. O único dia de folga acaba sendo ocupado por atividades que não puderam ser realizadas durante a semana.
“Para estar aqui às 7h da manhã, ela precisa acordar às 3h e pegar um ônibus às 4h. Na volta, sai do serviço às 16h e pode levar horas tentando pegar um ônibus para chegar em casa. E, quando chega, não descansa: ainda tem que cuidar dos filhos, da casa e preparar a própria alimentação para ter o que comer no trabalho no dia seguinte”, relata.
O dirigente também relaciona as condições de trabalho ao adoecimento da categoria. Segundo ele, a maioria dos trabalhadores representados pelo sindicato enfrentam problemas de saúde, como hérnia de disco e ansiedade.
A sobrecarga feminina também é apontada por Rodrigo Britto, presidente da Central Única dos Trabalhadores no Distrito Federal (CUT-DF). Para ele, a escala 6×1 compromete a convivência familiar, o descanso e as possibilidades de estudar e cuidar de si.
“A gente precisa acabar com essa escala que prejudica tanto a classe trabalhadora, em todas as regiões do país. Sabemos que a maioria das pessoas não consegue ter tempo de qualidade com suas famílias, para cuidar de si, estudar, viver com seus filhos e descansar”, afirma.
Britto considera que os impactos são particularmente relevantes para as mulheres, que acumulam o trabalho remunerado e as tarefas domésticas. Ele também chama atenção para a realidade das mães solo em uma sociedade que desvaloriza o trabalho feminino.
“Há muitas mães solo no nosso país e ainda existimos em uma sociedade patriarcal, uma sociedade que infelizmente não dá o devido valor às nossas companheiras. Então, o fim da escala 6×1, você ter a jornada 5×2, com certeza é um avanço muito grande para a nossa sociedade e para a classe trabalhadora”, diz.
Na enfermagem, categoria majoritariamente feminina, a discussão sobre a jornada também está relacionada às condições de trabalho e à saúde das profissionais. Ursula Batista, vice-presidente do Sindicato das Enfermeiras e Enfermeiros do Distrito Federal (SindEnf-DF), afirma que a mudança pode melhorar tanto a vida pessoal quanto o ambiente de trabalho.
“Isso vai trazer uma qualidade de vida e não só uma qualidade também no ambiente de trabalho, principalmente porque somos, na sua maioria, mulheres”, afirma.
Batista ressalta, ainda, que a categoria mantém outra reivindicação: a aprovação da PEC 19, que busca vincular o piso salarial da enfermagem a uma jornada de 36 horas semanais. A dirigente defende que a mobilização pelo fim da escala 6×1 seja acompanhada do fortalecimento das demais pautas dos trabalhadores da saúde.
“É muito importante que os sindicatos estejam todos juntos e fortalecidos para que a gente possa mudar a realidade do trabalhador brasileiro”, diz.
Redução da jornada e geração de empregos
Além dos efeitos sobre o descanso e a saúde, a redução da jornada é defendida por dirigentes sindicais como uma medida que pode repercutir no mercado de trabalho e na economia. O argumento é que a reorganização das escalas pode exigir novas contratações, enquanto o aumento do tempo livre favorece o consumo.
Marcelo Bernardo, representante do sindicato dos petroleiros, afirma que a mudança pode beneficiar não apenas quem já está empregado, mas também trabalhadores que buscam uma vaga no mercado formal.
“Essa PEC vai beneficiar diretamente quem trabalha seis dias para ter apenas um de folga, mas também toda a classe trabalhadora do país, inclusive quem está fora do mercado formal de trabalho”, argumenta.
Bernardo relaciona a ampliação do descanso à possibilidade de movimentar a economia. Para ele, trabalhadores com mais tempo livre poderão consumir mais, enquanto empresas poderão precisar contratar profissionais para reorganizar as jornadas.
“Se o trabalhador que cumpre a escala 6×1 tiver mais um dia de folga, ele terá mais tempo para descansar e estar com a família, mas também para consumir e movimentar a economia”, afirma.

A mesma perspectiva é defendida por Geraldo Estevão, diretor do sindicato de telecomunicações no Distrito Federal e representante da Federação Interestadual dos Trabalhadores e Pesquisadores em Serviços de Telecomunicações (Fitatelp). Ele avalia que a redução da jornada pode gerar efeitos em cadeia sobre o emprego, o consumo e a renda.
“Quanto mais emprego, mais consumidor; e quanto mais consumidor, mais vai ter que fabricar. […] É uma corrente que vai fortalecer a economia e gerar renda também para os pequenos comerciantes e para os grandes mercados”, afirma.
Estevão também destaca a situação das trabalhadoras do teleatendimento, categoria representada pelo sindicato. Segundo ele, a jornada remunerada é apenas uma parte das responsabilidades enfrentadas por muitas profissionais.
Os dois dirigentes defendem que a redução da jornada pode beneficiar diferentes setores da sociedade. Os efeitos sobre a geração de empregos, a produtividade e o consumo, entretanto, dependerão da implementação da mudança e da resposta das empresas às novas regras.
Mobilização reúne categorias que já trabalham cinco dias por semana
A mobilização também conta com representantes de categorias que já adotam a escala 5×2. É o caso dos bancários, segundo Matheus Fraiha, diretor do Sindicato dos Bancários de Belo Horizonte.
Para ele, o apoio ao fim da escala 6×1 é uma pauta que ultrapassa os limites da própria categoria. Mesmo com uma jornada diferente, os bancários participam da mobilização em defesa de melhores condições de trabalho para outros segmentos.
“Nós, bancários, já usufruímos da escala 5×2, mas, mesmo assim, estamos aqui trabalhando, atuando em favor dos trabalhadores pelo fim da escala 6×1”, afirma.

Fraiha também destaca os efeitos que dois dias de descanso podem ter sobre a convivência familiar.
“Isso traz dignidade às famílias e permite maior convivência entre pais e filhos. É importante para a qualidade de vida dos trabalhadores e trabalhadoras brasileiras que a proposta de acabar com a escala 6×1 avance de fato”, diz.
A participação de bancários, terceirizados, profissionais da enfermagem, petroleiros e trabalhadores das telecomunicações mostra como o tema mobiliza diferentes categorias.
A votação da PEC 221/2019 coloca em discussão os limites da jornada semanal e a garantia de dois dias de descanso remunerado. Para os dirigentes presentes na vigília, a mudança deve considerar não apenas a organização das empresas, mas também as condições de vida de quem depende do salário para sobreviver.
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