Artigo

Para onde vamos: uma Igreja cada vez mais fiel a Jesus Cristo

"Que, ao acolhermos os pequenos, reconheçamos o próprio Senhor, que se identifica com eles"

Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos na Penha, em São Paulo
Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos na Penha, em São Paulo | Crédito: Divulgação/Basílica de Nossa Senhora da Penha

Esta pergunta tem acompanhado minhas reflexões. Partilho essas inquietações como irmão e pastor, desejoso de que possamos discernir juntos. Vivemos um tempo de incertezas e desafios que atingem especialmente os pobres e ameaçam sua esperança. Como Igreja, precisamos discernir os caminhos que estamos percorrendo e renovar nosso compromisso com o bem comum. Esse compromisso encontra fundamento no Evangelho e é iluminado pela Doutrina Social da Igreja, pelo Concílio Vaticano II e pelo magistério dos papas, especialmente Francisco e Leão XIV. Ela nos pede liberdade diante dos interesses partidários e fidelidade às exigências do Evangelho.

Vivo no Nordeste do Brasil, onde a proximidade com os empobrecidos nos permite conhecer suas dores e esperanças. Aqui, a pobreza tem rosto, nome, família e história. Está nas periferias, nas comunidades rurais, nas famílias que lutam pela sobrevivência e nos jovens privados de oportunidades. Mas encontramos também uma fé perseverante, solidariedade entre vizinhos e comunidades que se organizam para defender a vida. Essa experiência nos ensina a caminhar com os pobres, reconhecendo sua dignidade, ouvindo sua palavra e aprendendo com eles.

À luz dessa caminhada, preocupam-me atitudes e discursos que encontram espaço também em nossos ambientes eclesiais: a naturalização das desigualdades, o desprezo pelos mais frágeis, a intolerância e a utilização da fé para alimentar hostilidades. Preocupam também os ataques dirigidos à CNBB, especialmente quando substituem o diálogo por acusações, desinformação e agressões pessoais. É necessário distinguir essas práticas da crítica respeitosa, que pode contribuir para nosso discernimento e para a comunhão. Também nós, bispos, padres, pessoas consagradas, seminaristas e leigos, precisamos examinar como acolhemos ou reproduzimos essas práticas.

Nossa comunhão deve encontrar expressão concreta na vida. A fidelidade à doutrina, a celebração da liturgia e o compromisso com a dignidade humana precisam alimentar-se mutuamente. A defesa da vida, desde a concepção até a morte natural, exige cuidado em todas as suas etapas, especialmente quando ela é ameaçada pela fome, pelo abandono ou pela violência. Esse compromisso inclui o cuidado com a casa comum e com toda a criação. As Bem-aventuranças nos oferecem um caminho para viver essa fidelidade (cf. Mt 5,1-12).

Precisamos perguntar-nos, com sinceridade e coragem, se estamos vivendo o Evangelho que anunciamos. Também nós, pastores, devemos vigiar para que a vaidade e a autorreferencialidade não ocupem o lugar do anúncio de Jesus Cristo. Manter os olhos fixos nele (cf. Hb 12,2) significa permitir que sua Palavra examine nossas escolhas. Jesus nos adverte que a entrada no Reino dos Céus exige fazer a vontade do Pai, e não apenas invocá-lo com os lábios (cf. Mt 7,21).

O discipulado cristão exige que o Evangelho se traduza em atitudes concretas. A vida e a organização da Igreja devem servir à missão de anunciar e testemunhar Jesus Cristo. Na sinagoga de Nazaré, o Senhor apresentou sua missão como anúncio da Boa-Nova aos pobres, libertação dos oprimidos e proclamação do ano da graça (cf. Lc 4,18-19). Como anunciar o mesmo Cristo e permanecer indiferentes às injustiças que ferem os mais vulneráveis? Como deixar de reconhecer nossa responsabilidade pelos pecados pessoais e pelas estruturas de pecado que sustentam a exclusão?

Na cena do juízo final, Jesus identifica-se com os famintos, os sedentos, os estrangeiros, os que estão nus, os enfermos e os encarcerados. O amor concreto aos pequenos torna-se critério decisivo de nossa fidelidade a ele (cf. Mt 25,31-46). Essa exigência nasce das palavras do Senhor e deve orientar nosso discernimento sobre qualquer proposta política. São Tiago recorda que a fé sem obras está morta (cf. Tg 2,14-17), e São João nos ensina que o amor a Deus não pode ser separado do amor ao irmão (cf. 1Jo 4,20).

A Doutrina Social da Igreja expressa as consequências sociais da fé e oferece critérios para discernir a realidade à luz do Evangelho. A Constituição Pastoral Gaudium et spes, no n. 1, afirma a solidariedade dos discípulos de Cristo com as alegrias e esperanças, as tristezas e angústias da humanidade, sobretudo dos pobres e daqueles que sofrem. No n. 43, o Concílio adverte contra a separação entre a fé professada e a vida cotidiana. Nossa espiritualidade precisa, portanto, abrir-nos às dores do povo e sustentar nossa responsabilidade na história.

Na Exortação Apostólica Evangelii gaudium, n. 198, o Papa Francisco apresenta a opção pelos pobres como uma categoria, antes de tudo, teológica. Ao abordar a dimensão social da evangelização, especialmente a inclusão dos pobres nos nn. 176–201, chama a Igreja a ouvir seu clamor e a enfrentar as causas da exclusão. Na Encíclica Fratelli tutti, n. 180, recorda-se que a caridade também se expressa na construção de processos sociais de fraternidade e justiça. Promover os direitos dos pobres, reconhecer seu protagonismo na vida eclesial e social e buscar o bem comum são exigências da missão evangelizadora.

O Papa Leão XIV retoma essa convicção na Exortação Apostólica Dilexi te. No n. 15, adverte que os cristãos podem deixar-se influenciar por ideologias e orientações políticas ou econômicas que conduzem a generalizações injustas e ao desprezo da caridade. No n. 16, fundamenta a opção preferencial pelos pobres no agir misericordioso de Deus e pede à Igreja uma posição decidida em favor dos mais frágeis. Essa preferência não exclui ninguém: expressa o amor universal de Deus mediante uma atenção especial àqueles cuja dignidade é mais ameaçada.

Esses ensinamentos nos convidam, sobretudo a nós, pastores, a um profundo exame de consciência. Que imagem de Cristo estamos apresentando ao povo? Como estamos formando nossos seminaristas? Nossas prioridades pastorais ajudam a reconhecer o Senhor nos pobres, nos migrantes, nos trabalhadores, nos povos indígenas e nos irmãos e irmãs esquecidos? Essas questões precisam ser aprofundadas em nossas comunidades, em nossos seminários e nas decisões de governo pastoral.

Nossas diferenças políticas não podem tornar-se critérios de pertença à Igreja. Há espaço para escolhas distintas, desde que submetidas a um discernimento responsável e ao respeito pela dignidade humana. Nossa referência primeira é Jesus Cristo e seu Evangelho. Por isso, devemos dialogar com todos, preservar nossa liberdade diante dos projetos de poder e denunciar a injustiça, a violência, o racismo e os discursos que desumanizam pessoas. A fidelidade evangélica exige que examinemos atitudes e propostas, inclusive aquelas de quem recebe nossa simpatia política.

Podemos ter diferentes sensibilidades e formas de conduzir a ação pastoral, mas todos somos chamados a acolher as exigências do amor de Cristo. Ele, sendo rico, fez-se pobre por nós (cf. 2 Cor 8,9). O compromisso com os pobres pertence ao coração de nossa fé e precisa orientar nossas escolhas.

O que significa, hoje, fazer a opção evangélica pelos pobres em nosso país? Significa estar perto de quem sofre, defender seus direitos e favorecer sua participação nas decisões que afetam sua vida. Significa apoiar iniciativas que enfrentem a fome, ampliem o acesso à educação, à saúde, à moradia e ao trabalho digno. Na vida eclesial, significa acolher os pobres como sujeitos da caminhada, com voz e lugar nas comunidades.

Esse compromisso encontra especial ressonância nas novas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil (2026–2032), que destacam, entre seus caminhos pastorais, o serviço à vida plena, a opção evangélica e preferencial pelos pobres, a promoção da dignidade humana e o cuidado com a Casa Comum. Essas orientações nos reafirmam que a evangelização não pode permanecer distante das situações concretas de sofrimento, exclusão e injustiça. Ao contrário, exige de nós uma presença eclesial próxima, solidária e comprometida com a dignidade humana e a transformação da realidade (cf. CNBB, Doc. 114).

Nossa Senhora Aparecida, nossa Mãe negra, recorda-nos uma devoção que nasceu entre simples pescadores, a partir de uma imagem encontrada nas águas do rio Paraíba do Sul. Maria nos conduz a seu Filho e, no Magnificat, proclama o agir de Deus, que derruba os poderosos de seus tronos, eleva os humildes, sacia os famintos e despede os ricos de mãos vazias (cf. Lc 1,52-53). Seu cântico anuncia a justiça e a misericórdia divinas e nos chama à conversão, sem dar lugar ao ódio contra ninguém.

Há muitos sinais de esperança em nossa Igreja. Comunidades, pastorais e movimentos, pessoas consagradas, leigos, padres e bispos testemunham diariamente a proximidade com quem sofre. Reconhecer esse serviço nos ajuda a perceber a ação de Deus e a fortalecer o que já produz frutos. A recomendação feita a Paulo permanece atual: lembrar-se dos pobres e dedicar-se a esse compromisso com empenho (cf. Gl 2,10).

A comunhão eclesial é um dom que recebemos e uma responsabilidade que assumimos. Ela cresce quando escutamos uns aos outros, reconhecemos nossas contradições e buscamos a conversão na verdade e na caridade. Nesse caminho, a sinodalidade nos chama a fortalecer uma Igreja que escuta, discerne e caminha conjuntamente, reconhecendo a dignidade batismal de todos e a corresponsabilidade na missão. Escutar o povo de Deus, especialmente os pobres e aqueles que frequentemente não encontram espaço para expressar sua voz, é parte fundamental desse processo de conversão. A unidade da Igreja acolhe a diversidade legítima e pede coerência evangélica. Podemos enfrentar nossas dificuldades com confiança, sem encobri-las e sem transformar os irmãos em adversários.

Jesus ensinou aos discípulos que a autoridade entre eles deve ser exercida como serviço: quem quiser ser grande deve tornar-se servidor (cf. Mc 10,42-45). Essa palavra ilumina nosso ministério episcopal e presbiteral. A proximidade, a humildade e a disposição de escutar tornam visível o amor do Bom Pastor, especialmente junto àqueles que mais sofrem.

Para onde vamos? Somos chamados a caminhar para uma Igreja cada vez mais fiel a Jesus Cristo, comprometida com a dignidade humana, próxima dos pobres e capaz de anunciar e testemunhar a esperança. Uma Igreja que não se deixa aprisionar por interesses partidários ou ideológicos, mas que encontra no Evangelho a inspiração para suas escolhas e atitudes. Esse caminho exige de nós conversão pessoal e comunitária, abertura ao diálogo, disposição para a escuta e coragem para enfrentar as injustiças. Que nossas diferenças não enfraqueçam a comunhão, mas nos estimulem a discernir juntos os caminhos da missão. Que o Espírito Santo nos conceda sabedoria e coragem para permanecermos fiéis ao Evangelho. E que, ao acolhermos os pequenos, reconheçamos o próprio Senhor, que se identifica com eles (cf. Mt 25,40).

*Nereudo Freire Henrique é bispo auxiliar da Arquidiocese de Olinda e Recife.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

Editado por: Gia Matheus Almeida

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