Uma onomatopéia do movimento das águas do mar gerou o nome de um povo que veio em diáspora para territórios mineiros e que celebra a temporada das chuvas em outubro como o início de ciclos, incluindo, neste ritual, casamento e batizados tradicionais Pataxó. O ritual foi preparado ao longo dos primeiros dias do mês de outubro e celebrados nos dias 6 e 7.
A história
O nome Pataxó refere-se ao movimento das ondas do mar batendo nas pedras: “pá-tá”, e seu retorno: “chó”. Esse é também o nome de um povo originário do estado da Bahia, que teve seu território reinvadido na segunda metade do século XX, especificamente no ano de 1951, após uma ação violenta da polícia contra as pessoas na aldeia de Barra Velha.
No território que ficava entre os municípios de Prado e Porto Seguro, um incêndio criminoso destruiu, matou, expulsou e dispersou os Pataxó para outras regiões. Alguns migraram para Minas Gerais, o mesmo estado no qual, em 1969, durante a ditadura, foi inaugurado o Reformatório Agrícola Krenak, que na verdade era uma prisão gerida pelos militares para receber indígenas presos pela ditadura vindos de todo o Brasil.

O reformatório ficava na cidade de Resplendor, na bacia do rio Doce, onde os latifundiários pressionavam para o uso daquelas terras para a criação de gado. Assim, em 1972, após um acordo entre fazendeiros e o Estado, o reformatório foi transferido para o município de Carmésia. Distante, a cerca de 200 quilômetros de Belo Horizonte, onde foi cedida a Fazenda Guarani, para a estruturação da nova central carcerária indígena.
É em Carmésia, a partir de famílias oriundas deste centro de tortura indígena, que foi criada a comunidade Imbiriçu, fundada em 1983 pelo cacique Mongongá. Filhos das águas que são, neste mesmo ano, Mongangá e sua esposa Hemugãy realizaram o primeiro ritual das águas, na aldeia Imbiriçu. Toda a preparação envolve a comunidade e pode durar uma semana. O ritual é realizado em dois dias e é marcado por cerimônias de casamentos, batizados e o banho de lama, que para o povo Pataxó, representa a purificação. 43 anos depois, a tradição segue mantida pelo atual cacique Txonang, filho de Mongongá e Hemgãy.
O casamento e batizado são rituais realizados de acordo com a cultura Pataxó. No primeiro momento do batismo, pais e padrinhos são recolhidos ao centro de uma roda, para que as crianças recebam a defumação, neste caso realizada pela pajé Adriana. A defumação com ervas traz proteção espiritual e abre caminhos. Depois, as crianças são levadas ao lago sagrado, onde o cacique aplica mais uma defumação e faz a consagração com as águas do lago.
No casamento, podem ocorrer vários ritos. Em um deles, o noivo precisa carregar uma pedra com o seu peso correspondente ao peso da noiva, para provar que pode cuidá-la, caso seja necessário carregá-la. O noivo e o cacique buscam a noiva, que está recolhida numa kijeme (casa), e durante a cerimônia o casal realiza a troca de urutaká (cocar), para selarem o compromisso. Após a cerimônia, pode ocorrer o “derruba toco”, um momento no qual o noivo pode demonstrar força e bravura em uma luta contra outros guerreiros Pataxó, na qual vence quem derrubar um toco, que fica no centro de um círculo, com o corpo do oponente.

| Crédito: Nilmar Lage
Na cosmologia Pataxó, as gotas de chuva criaram Txopai, o primeiro ser e deus da sabedoria, dos trovões, da criação e protetor do povo. Txopai viveu sozinho e aprendeu a caçar, plantar, pescar e, principalmente, entender e respeitar os ciclos da natureza. Um dia, após outra tempestade, cada gota de chuva se transformou em um humano. Txopai os ensinou a viver em equilíbrio com a natureza. Em um momento de emergência climática, o Cacique Txonang, lembrou ao seu povo da importância dos encantados na manutenção do bem viver. Os guardiões: Pai da Mata e a Mãe da Mata, fecharam os dois dias de rituais, dando benção às crianças que os procuravam pedindo coragem, proteção e sabedoria, ao entrarem nas matas sagradas.

