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Soberania não é abstração: o que a América Latina perde com o corolário Trump

O que o exemplo argentino mostra sobre quem ganha quando se deixa os EUA entrarem

O presidente da Argentina, Javier Milei, não esconde sua admiração por Donald Trump.
O presidente da Argentina, Javier Milei, não esconde sua admiração por Donald Trump | Crédito: Andrew Caballero-Reynolds/AFP

Soberania: um princípio com consequências materiais

A soberania não é um sentimento patriótico nem uma abstração jurídica, pois designa a capacidade efetiva de um povo decidir sobre o uso de seus recursos, a organização de sua produção, as regras que regem seu mercado interno e o destino da riqueza que produz.

Por isso mesmo, sua perda não se manifesta como uma ofensa simbólica, mas como uma série de efeitos muito concretos que atravessam o cotidiano: no preço do combustível e dos alimentos, na qualidade dos medicamentos disponíveis, nos empregos oferecidos e nos serviços públicos financiados. Os governos de direita no nosso continente, que já são maioria, estão oferecendo tudo aos EUA em troca de nada. A eleição presidencial brasileira este mês não determinará só o programa de governo dos próximos quatro anos, senão o futuro econômico de uma geração.

O corolário Trump: explicitar o velho para encenar a força

O corolário Trump da Doutrina Monroe tem o mérito duvidoso de dizer em voz alta aquilo que a política dos Estados Unidos pratica há dois séculos. O que muda com o corolário formalizado pela Casa Branca no fim de 2025 não é, portanto, o conteúdo dos objetivos, mas a decisão de enunciá-los abertamente, sem a mediação retórica da democracia, do livre mercado ou da cooperação hemisférica que acompanhou as fases anteriores.

O anúncio do corolário se dirige ao mundo, e em particular à China, como um aviso de que Washington considera o continente parte de seu perímetro estratégico, mas se dirige também, e com igual importância, ao eleitorado republicano, a quem é preciso demonstrar que os Estados Unidos não estão enfraquecidos. A necessidade dessa demonstração é, ela mesma, o sintoma de uma dupla crise que a atual administração não tem meios de resolver.

A primeira, e mais profunda, é a incapacidade de conter o crescimento econômico da China e sua integração comercial e financeira com países de todos os continentes, inclusive com aliados históricos de Washington. Essa incapacidade não decorre apenas do dinamismo chinês, mas também da própria dependência estadunidense em relação às cadeias produtivas chinesas, das quais a economia dos Estados Unidos não consegue se desvincular sem elevar custos e desabastecer setores inteiros.

A segunda é uma crise de legitimidade dentro dos próprios Estados Unidos. A guerra contra o Irã, ampla e transversalmente rejeitada pela população estadunidense, elevou o preço dos combustíveis e, por consequência, o custo dos bens de primeira necessidade, corroendo a base de apoio de um governo que se elegeu prometendo baratear a vida do trabalhador. Como não pode resolver nenhum dos dois problemas, a Casa Branca recorre à encenação da força, e a América Latina, historicamente tratada como quintal, oferece o palco onde essa força pode ser exibida a um custo aparentemente baixo.

O despertar anti-imperialista e seus limites

Essa postura pública produziu um efeito que Washington provavelmente não calculou ao reavivar no continente um sentimento anti-imperialista que permanecia, em grande medida, adormecido. Quando o governo Trump ameaçou o Brasil com tarifas de motivação abertamente política, vinculadas ao julgamento de Jair Bolsonaro, a resposta foi uma rejeição ao imperialismo estadunidense conduzida ao mesmo tempo pelo governo e pelas ruas. Ela se expressou nos discursos de Lula em defesa da soberania nacional, em mobilizações de massa e na criação de novos símbolos populares.

Esse ressurgimento é extremamente importante, mas não foi suficiente para orientar o comportamento eleitoral contra um candidato explícita e perigosamente alinhado aos Estados Unidos. A votação obtida por Flávio Bolsonaro mostra que a indignação diante da agressão externa não se converteu, para amplos setores da população, em compreensão do que está em jogo quando um projeto político propõe submeter o país à agenda de Washington.

Por que a soberania ainda não decide votos

Entre a população existe uma noção superficial e vaga de soberania que não explica o que a sua perda significará em suas vidas. Quando afirmamos que as terras raras precisam ser nossas, falamos de um recurso que a maior parte do povo brasileiro não sabe o que é, para que serve, nem que diferença faria, no seu salário, no seu emprego ou na sua conta de luz, se ele fosse controlado por corporações estadunidenses. Sem essa mediação, a soberania permanece uma bandeira respeitável, porém distante, incapaz de disputar com as promessas imediatas de estabilidade que acompanham o alinhamento à potência que parece dar as cartas.

Não é preciso, contudo, especular sobre o que a submissão à agenda dos Estados Unidos pode significar para o sustento das famílias trabalhadoras. Basta observar o que Washington já conseguiu obter de governos dóceis na região, como os de Javier Milei, na Argentina, e de Daniel Noboa, no Equador. O caso argentino, por estar amplamente documentado e por envolver uma economia com base industrial comparável à brasileira, oferece um retrato particularmente nítido do que a perda de soberania significa em termos materiais.

O caso argentino: o preço concreto da submissão

O Acordo de Comércio e Investimento Recíproco (Arti, na sigla em inglês) entre EUA e Argentina foi divulgado no mesmo dia em que foram anunciados textos quase idênticos com El Salvador, Equador e Guatemala. A semelhança com acordos firmados por economias sem a base industrial argentina já indica a natureza do instrumento: não é uma negociação entre partes, mas a aplicação de um modelo concebido em Washington.

O acordo é fundamentalmente assimétrico, pois a Argentina concede muito mais do que recebe. O país reduz ou elimina tarifas, abre seu mercado, faz concessões em propriedade intelectual e, por fim, abre as portas para o investimento estadunidense em setores estratégicos e empresas estatais, em condições não menos favoráveis que as oferecidas ao capital nacional. Em troca, recebe essencialmente a possibilidade de competir com os Estados Unidos em setores nos quais estes têm ampla vantagem produtiva. O Centro de Economia Política Argentina (Cepa) sintetizou essa desigualdade ao observar que o texto estabelece direitos para os Estados Unidos e obrigações para a Argentina, e o ministro bonaerense Carlos Bianco contou quinze obrigações argentinas contra apenas duas estadunidenses nna divulgação do acordo.

Os bens de capital, automóveis e medicamentos são apenas alguns exemplos dos setores em que a indústria argentina passa a competir diretamente com a estadunidense. Para o Cepa, a abertura nesses segmentos tem impacto negativo automático sobre a produção local, sobretudo porque foi negociada sem estudos setoriais e sem consulta aos setores afetados.

A perda, contudo, não se limita às tarifas. Ao aceitar automaticamente as autorizações da FDA e do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) para alimentos, carnes e medicamentos, a Argentina abre mão de sua soberania regulatória e esvazia órgãos como o Senasa e a ANMAT, responsáveis pelo controle sanitário no país. As barreiras que assim desmoronam não são meros entraves burocráticos, pois existem justamente para proteger os produtores locais e garantir aos consumidores um padrão de qualidade definido pelo próprio país.

O ganho que o governo apresenta como mais concreto é a ampliação da cota de carne bovina argentina no mercado estadunidense, que passa de 20 mil para 100 mil toneladas no texto final, com receita adicional estimada pelo próprio governo em 800 milhões de dólares. O problema é que o maior comprador da carne argentina é a China, e não os Estados Unidos. Segundo cálculo do Cepa, feito ainda sobre a cota de 80 mil toneladas prevista no marco de novembro, a participação dos Estados Unidos nas exportações argentinas de carne passaria de apenas 3% para 7%. Em outras palavras, a Argentina conquistou potencialmente um mercado de que não precisa, arrisca desviar parte de sua produção do seu principal cliente e ainda expõe o consumidor interno a uma alta no preço da carne, efeito para o qual alertam tanto o Cepa quanto outros meios da imprensa argentina.

Em contrapartida, o país se compromete a abrir o mercado ao gado vivo estadunidense. Para a revista Ciencia, Tecnología y Política, da Universidade Nacional de La Plata, não faz sentido algum, do ponto de vista do desenvolvimento do país, que um dos maiores produtores de gado do mundo passe a comprá-lo dos Estados Unidos.

O mesmo raciocínio vale para o frango. O acordo foi firmado sem qualquer processo de consulta aos setores da economia argentina por ele afetados, e a indústria avícola, que esperava conquistar o direito de exportar peitos de frango para os Estados Unidos, viu o governo comprometer-se, ao contrário, a abrir o mercado nacional às aves estadunidenses em até um ano.

É preciso compreender que a Argentina foi empurrada estruturalmente pela implantação de uma dívida injusta, para negociar acordos assimétricos. O país precisa pagar uma dívida gigantesca em dólares, contraída em grande parte com o Fundo Monetário Internacional, e só pode obter essas divisas exportando, o que transforma o acesso ao mercado estadunidense em necessidade e não escolha. O que esse encadeamento demonstra é que a dívida não é um acidente de má gestão, mas um dispositivo fabricado e mantido para encurralar o país em duas direções. De um lado, ela o força a operações financeiras ruinosas, que empobrecem a Argentina e enriquecem os credores estadunidenses; de outro, obriga-o a aceitar acordos comerciais desiguais com os Estados Unidos.

Em matéria de soberania de dados, a Argentina simplesmente entregou sua riqueza informacional aos Estados Unidos. O acordo reconhece os EUA como jurisdição adequada para a transferência internacional de dados pessoais, o que permite enviá-los sem garantias adicionais, e proíbe a discriminação de serviços digitais estadunidenses, o que, segundo especialistas ouvidos pela imprensa argentina inviabiliza a regulação das grandes empresas de tecnologia e descarta os projetos de tributação de plataformas.

Autores como Nick Srnicek e Jathan Sadowski mostraram que, no capitalismo contemporâneo, os dados funcionam como matéria-prima e como forma de capital, cuja extração e acumulação sustentam a lucratividade das plataformas e das empresas de tecnologia. Ao transferi-los gratuitamente aos Estados Unidos, a Argentina renuncia à possibilidade de construir plataformas nacionais e de desenvolver uma indústria tecnológica própria, contribuindo para enriquecer ainda mais as big techs estadunidenses e para aprofundar a concentração desse setor.

Quem ganha com o acordo exigido por Washington e aceito por Milei não é o povo argentino, mas uma fração estreita do grande capital exportador, ao lado das mineradoras, das petroleiras e dos grandes frigoríficos. Vale registrar que, em julho de 2026, o acordo ainda não estava em vigor, pois dependia do depósito do instrumento de ratificação, o que mantém aberta a disputa no Congresso e nas ruas da Argentina.

Soberania é emprego, preço e futuro

A soberania não é um princípio abstrato nem um valor que devamos defender porque nos enche de orgulho nacional. Ela determina concretamente desde o preço do combustível até a disponibilidade de alimentos de qualidade e as oportunidades de emprego oferecidas em nosso país.

Um país que sacrifica sua capacidade produtiva sacrifica também as perspectivas de trabalho de engenheiros, cientistas aplicados, contadores, administradores e de toda uma gama de profissões que só existem onde há produção. Um país que abre seu mercado a produtos que já é capaz de produzir perde a capacidade de decidir sobre a qualidade e, sobretudo, sobre o preço dos bens básicos que chegam à mesa das famílias trabalhadoras. E um país que aceita drenar suas escassas reservas em juros pagos a bancos estrangeiros perde o orçamento necessário para financiar transporte de qualidade, sistemas de saúde modernizados e com pessoal suficiente, e educação pública e gratuita.

A perda de soberania sob o corolário Trump não é, assim, uma derrota da esquerda ou do campo progressista, mas uma perda de emprego, de qualidade de vida e de oportunidades para toda uma geração.

Editado por: Rafaella Coury

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