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Da Palestina ao Brics: dois projetos de Brasil nas urnas

A decisão nas urnas terá consequências para nossa presença internacional e para a defesa dos direitos humanos

Palestinos colhem azeitonas nas próximidades do muro separatista de Israel, na vila de Beit Awwa, a oeste de Hebron. 15/10/2026
Palestinos colhem azeitonas nas próximidades do muro separatista de Israel, na vila de Beit Awwa, a oeste de Hebron. 15/10/2026. | Crédito: Hazem Bader/AFP

O segundo turno entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) coloca em disputa o lugar do Brasil no mundo. A escolha envolve nossa capacidade de decidir com autonomia, diversificar parcerias e defender a paz. 

A Palestina atravessa esse debate porque revela como cada candidatura responde à ocupação, à violência contra civis e ao direito dos povos de existir. Para mim, defender Lula significa impedir que a diplomacia brasileira volte a servir às prioridades dos Estados Unidos e de “Israel”.

Essa posição nasce de uma trajetória.

Durante seus primeiros mandatos, Lula ampliou o diálogo com países árabes e colocou a autodeterminação palestina na agenda brasileira. Em 2010, visitou Ramallah e, em dezembro, reconheceu o Estado da Palestina nas fronteiras de 1967.

Como examino em meu livro “Palestina: do mito da terra prometida à terra da resistência” (Editora Anita Garibaldi), esse reconhecimento expressou a decisão política de tratar os palestinos como sujeitos de direitos, com legitimidade para construir seu futuro e exercer soberania sobre seu território.

Diante da devastação de Gaza, Lula denunciou o genocídio e cobrou respostas internacionais. Sua postura rompeu com a complacência de governos que continuaram oferecendo proteção política e apoio militar a “Israel”.

Ainda há limites e contradições na atuação brasileira, que devem ser discutidos e enfrentados. Apoiar sua reeleição não exige silêncio crítico. Exige reconhecer a diferença entre um governo que denuncia os crimes contra os palestinos e uma candidatura que promete estreitar o alinhamento com o Estado responsável por cometê-los.

Flávio Bolsonaro prometeu transferir a embaixada brasileira de Tel Aviv para Jerusalém. A proposta afronta a orientação internacional sobre o estatuto da cidade. A Resolução 478 do Conselho de Segurança da ONU rejeita medidas israelenses destinadas a alterar esse estatuto e conclama os países com missões diplomáticas em Jerusalém a retirá-las.

Transferir nossa representação significaria prestigiar a imposição unilateral israelense sobre uma questão central para qualquer solução política. Jerusalém Oriental integra o território palestino ocupado e é reivindicada como capital palestina.

As consequências dessa decisão poderiam ultrapassar o plano simbólico.

O Brasil arriscaria sua credibilidade na defesa da autodeterminação palestina, reduziria sua capacidade de interlocução e criaria tensões com parceiros árabes e muçulmanos.

Nenhuma retaliação comercial é automática, mas seria irresponsável ignorar riscos para exportadores, investimentos e relações construídas durante décadas. A sociedade precisa saber quais interesses brasileiros justificariam assumir esses custos.

Uma promessa eleitoral não pode transformar a política externa em instrumento de mobilização religiosa ou de fidelidade a governos estrangeiros.

O Irã oferece outro sinal preocupante. Flávio criticou a posição brasileira de condenação aos ataques dos Estados Unidos e de “Israel” contra o país. A divergência indica como seu eventual governo poderia reagir a novas escaladas militares.

Se convertida em orientação diplomática, essa postura aproximaria o Brasil das justificativas dos Estados Unidos e do regime sionista israelense, restringindo nosso espaço de mediação.

Defender negociações e rejeitar ataques que ampliam uma guerra corresponde ao interesse brasileiro na estabilidade internacional e na proteção de vidas.

Também preocupa a prioridade anunciada para as relações com os Estados Unidos e “Israel”, acompanhada da disposição de reavaliar a permanência brasileira no Brics.

Lula defende o fortalecimento do bloco, a cooperação com o Sul Global e o multilateralismo. Abandonar ou enfraquecer essa participação reduziria instrumentos de articulação e alternativas de financiamento.

Isso não significaria romper automaticamente o comércio com seus integrantes, mas poderia diminuir o peso político brasileiro e comprometer oportunidades de cooperação econômica, científica e tecnológica.

Vejo nas propostas de Flávio um risco de renovação do isolamento e da subordinação que marcaram a diplomacia de seu pai. O Brasil precisa negociar com todas as regiões, preservando a liberdade de discordar e de defender seus próprios interesses.

Há um parâmetro que nenhuma candidatura pode ignorar: o artigo 4º da Constituição brasileira. Independência nacional, prevalência dos direitos humanos, autodeterminação dos povos, não intervenção, defesa da paz e solução pacífica dos conflitos orientam as relações internacionais brasileiras.

São compromissos do Estado, superiores às afinidades pessoais de um presidente. Precisamos cobrar propostas claras, avaliar consequências e rejeitar qualquer tentativa de apresentar a submissão como pragmatismo. Nenhuma aliança pode dispensar o respeito a esses princípios ou converter nossa soberania em moeda de troca.

A decisão nas urnas terá consequências duradouras para nossa presença internacional, para a defesa dos direitos humanos e para as próximas gerações de brasileiros.

Neste segundo turno, apoio e voto no presidente Lula, porque a solidariedade à Palestina e a defesa do Brasil soberano caminham juntas.

Nosso país deve contribuir para encerrar a ocupação e proteger a população palestina, mantendo autonomia para dialogar com todos. Não podemos entregar nosso futuro às prioridades dos Estados Unidos e de “Israel”.

*Sayid Marcos Tenório é historiador e analista de geopolítica do Oriente Médio, fundador do Instituto Brasil-Palestina (Ibraspal) e autor de ‘Palestina: do mito da terra prometida à terra da resistência’ (2. ed., Anita Garibaldi/Ibraspal, 2022).

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Editado por: Gia Matheus Almeida

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