O Grupo Globo anunciou nesta quinta-feira (15) o desligamento do diretor-geral de Mídia Impressa e Rádio da companhia, Frederic Kachar. A demissão ocorreu após a revelação de mensagens de texto trocadas entre o executivo e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, investigado pela Polícia Federal (PF).
Kachar estava na empresa há 29 anos e liderava a gestão corporativa dos jornais O Globo, Extra e Valor Econômico; das publicações da Editora Globo, como as revistas Vogue, Marie Claire, Quem e Época Negócios, e do Sistema Globo de Rádio, que inclui a rádio CBN.
Em comunicado oficial divulgado nesta quinta-feira (15), o Grupo Globo declarou que teve acesso aos diálogos na quarta-feira (14) e que o teor das conversas violou as diretrizes internas da corporação.
“O conteúdo das conversas privadas mantidas com Daniel Vorcaro entre outubro de 2023 e julho de 2025, às quais a empresa teve acesso ontem, revela uma relação inadequada do executivo com um anunciante”, afirmou a direção do grupo na nota.
No mesmo texto, a empresa defendeu o trabalho de suas equipes de reportagem e sustentou que as apurações jornalísticas sobre as suspeitas que envolvem o sistema financeiro não foram afetadas.
“A Editora Globo reforça seu compromisso com a ética e a transparência e reafirma a absoluta independência editorial do jornalismo de seus veículos, premissa essencial de sua atuação. O protagonismo da cobertura crítica, isenta e independente que tem feito do caso Master é a demonstração concreta do compromisso inegociável de seus veículos com os Princípios Editoriais do Grupo Globo”, disse o comunicado.
A nota conclui com o reconhecimento da trajetória profissional de Kachar e informa que a definição de quem assumirá o comando da Editora Globo e do Sistema Globo de Rádio ocorrerá em breve.
Patrocínios em eventos
O conjunto de mensagens extraídas pela perícia policial do telefone celular de Vorcaro, revelado inicialmente pelas equipes de reportagem do portal UOL e do jornal O Estado de S. Paulo, abrange trocas de mensagens ocorridas entre o fim de 2023 e julho de 2025. Os registros mostram tratativas de patrocínio empresarial, cobranças sobre a cobertura da imprensa, convites para eventos sociais restritos e pedidos de veiculação de reportagens.
Conforme publicado pelo UOL, Vorcaro acionou Kachar diretamente para promover a marca de suplementos da influenciadora Martha Graeff, sua então namorada, sugerindo a publicação de uma capa na revista Vogue.
Na ocasião, o diretor respondeu que a capa na revista exigiria “um processo mais longo”, mas garantiu espaço nos veículos: “Eu te asseguro um destaque importante pra Martha. E falarei de capa também com Marie Claire e Ela. Vou pautar Vogue, Marie Claire e Ela”. Dias depois, as três publicações divulgaram matérias sobre a marca.
As mensagens documentam ainda a negociação de cotas financeiras. O Banco Master destinou R$ 825 mil para o patrocínio do Baile da Vogue em 2024 e R$ 1,6 milhão para o camarote da editora no Carnaval carioca de 2023.
Em 2025, quando as operações financeiras do banco passaram a ser alvo de fiscalização pública, Kachar propôs retirar a menção formal à instituição financeira das cotas e alocar outras duas empresas pertencentes a Vorcaro nos contratos publicitários, acordando “500k na Vogue e 800k no camarote”.
Pressões sobre a cobertura econômica
Os arquivos periciais mostram também que Vorcaro procurava o diretor do Grupo Globo para contestar reportagens e notas assinadas por jornalistas da casa. Em abril de 2024, o ex-banqueiro manifestou insatisfação com publicações da colunista Malu Gaspar sobre patrocínios a eventos no exterior com a presença de integrantes do Judiciário e insinuou que suspenderia o apoio comercial ao fórum do Valor Econômico em Nova York.
Naquela ocasião, Kachar respondeu, pontuando os limites da atuação corporativa: “Não estou entendendo esse seu tom comigo. Sempre tivemos uma relação de harmonia e respeito. Se tiver algum erro na coluna da Malu, peço a correção imediata. Esse post não saiu no jornal, mas no perfil dela”, escreveu. “Não posso censurar um colunista e seus perfis”, disse.
Em julho do mesmo ano, Vorcaro questionou se havia uma “campanha corporativa” contra suas empresas após publicações do colunista Lauro Jardim a respeito de transações imobiliárias. Kachar rechaçou a alegação de intervenção institucional: “Não tem campanha alguma, claro”.


