Dia da Mulher Rural

Pilar invisível da sociedade haitiana, mulheres no campo pedem direitos e valorização

Organizações apontam que desigualdade de gênero atinge em primeiro lugar a população camponesa

Desde 1996, o dia 15 de outubro consta no calendário das Nações Unidas como Dia Internacional da Mulher Rural
Desde 1996, o dia 15 de outubro consta no calendário das Nações Unidas como Dia Internacional da Mulher Rural | Crédito: Cha Dafol/Brasil de Fato

São elas que estão nas feiras que acontecem diariamente em todos os municípios do Haiti, onde a população consegue seus alimentos. São elas que vendem e que compram. São elas que transitam pelas estradas mais impraticáveis de cada região, levando cargas enormes em cima de uma moto, um cavalo ou um burro, às vezes colocando suas vidas em risco, quando se trata de atravessar zonas controladas por gangues. E são elas que plantam, que colhem, que guardam as sementes. Sem as mulheres camponesas, o povo haitiano simplesmente não teria comida na mesa.

“Os homens trabalham também, sim! Sobretudo na roça”, defende Rosemène Valdemar, membra do comitê executivo da organização camponesa Tèt Kole Ti Peyizan Ayisysen, ao Brasil de Fato. “Mas, na agricultura familiar, a responsabilidade maior sempre cai nos ombros das mulheres. Porque, além de trabalhar a terra, são elas que vão atrás das sementes para plantar, que administram o dinheiro para comprar insumos ou, quem sabe, pagar outro trabalhador para ajudar. Esse papel é sempre delas.”

Iselande Alexandre, jovem agrônoma e jurista integrante da coordenação do Movimento Camponês Papay (MPP), destaca que o papel das mulheres rurais na sociedade haitiana ultrapassa o quadro da pequena agricultura. “Elas têm uma participação central na própria economia do país. No comércio, são as chamadas ‘Madam Sara’ que se encarregam de comprar produtos numa região para revender em outra. Na agricultura, elas participam do plantio, da colheita… na verdade, nas colheitas, são majoritariamente as mulheres que trabalham.”

Desde 1996, o dia 15 de outubro consta no calendário das Nações Unidas como Dia Internacional da Mulher Rural. No Haiti, onde 40% da população vive no campo e 70% da mão de obra agrícola é feminina, o dia não poderia ser ignorado pelas organizações populares. Mas, na sociedade, a discreta repercussão dessa data comemorativa é sintoma significativo e que, paradoxalmente, justifica a sua existência. Afinal, apesar de serem um alicerce social e econômico para o país, as mulheres do campo são historicamente invisibilizadas, silenciadas e excluídas da institucionalidade.

Na agricultura familiar, a responsabilidade maior sempre cai nos ombros das mulheres | Crédito: Cha Dafol/Brasil de Fato

Desigualdade social e de gênero

Se todas as mulheres haitianas enfrentam discriminações em uma sociedade bastante conservadora e fortemente influenciada pelo legado colonial do cristianismo, as que vivem no meio rural pagam o preço em dobro. Aos trabalhos domésticos, como cozinhar ou lavar roupa, que tradicionalmente lhes são cobrados, se soma o agravante de lidar com condições materiais muito mais precárias — a maioria dos lares não tem luz, fogão a gás ou água encanada, por exemplo.

Além disso, por mais que participem de todas as etapas da produção agrícola, elas praticamente não têm acesso à terra: apenas 9% das haitianas são proprietárias. E no trabalho remunerado, quase sempre informal, costumam receber entre 20% e 50% a menos do que seus pares masculinos.

Segundo Valdemar, a única mulher da direção nacional do seu movimento, um fator que atrasa a evolução da sociedade no caminho da igualdade de direitos é a própria falta de acesso à educação das mulheres do campo, que limita sua participação nos espaços de decisão e acaba abafando suas reivindicações.

“A maioria delas não foi para a escola e não sabe ler. Isso faz com que elas não possam acessar certos espaços de poder e decisão, seja dentro das organizações ou no Estado”, analisa. Se os dados demonstram uma melhoria na questão da escolarização das meninas, continua sendo mais difícil para elas terminarem o currículo, por serem mais frequentemente necessitadas para ajudar em casa.

Alexandre conta que só 15% da sua turma de agronomia na universidade eram mulheres. Ao refletir sobre direitos políticos, ela tem um olhar mais amargo em relação a certos preconceitos que caberia a toda a sociedade combater. “É uma questão de estereótipo, sobretudo contra as mulheres que vivem em meio rural. Dizem que elas não têm capacidade suficiente, que as mulheres agem como crianças, não podem governar; por isso, elas não têm acesso aos espaços de decisão”, lamenta.

“E essa ideia é tão forte que, quando tem uma mulher candidata a um cargo local, muitas outras mulheres não querem votar nela!” Nesse sentido, é imprescindível ressaltar o trabalho árduo das organizações camponesas que buscam incentivar a solidariedade e a união entre todas: “As mulheres precisam entender que devem apoiar uma a outra”.

As mulheres haitianas têm uma participação central na própria economia do país | Crédito: Cha Dafol/Brasil de Fato

Pra luta!

Este dia 15 de outubro também é a ocasião de marchas e assembleias promovidas pelos movimentos sociais, espalhando pensamento crítico e consciência de gênero em suas bases. Foi o que aconteceu durante três dias na zona rural do pequeno município de Piyon, onde cerca de 40 mulheres do Tèt Kole participaram de uma formação sobre direitos e luta popular. Várias relataram que nunca haviam passado tanto tempo fora de casa, e em um encontro de cunho político. E mesmo as mais calejadas da luta, cofundadoras da organização na década de 1980, desabafaram sobre as dificuldades que tiveram, no começo, ao enfrentar seus maridos, que se recusavam a deixá-las participar desse tipo de atividade.

Tais situações continuam sendo recorrentes e difíceis de se resolver. Valdemar explica que, muitas vezes, é preciso fazer formações com homens também para tratar o tema da igualdade de gênero. No entanto, a perseverança dos movimentos em despertar as consciências também deu frutos e permitiu a emergência de novas lideranças. “Hoje vemos mulheres que começaram a erguer a voz, se desenvolver, assumir responsabilidades, circulando de uma atividade a outra e puxando suas companheiras”.

Quem ganha com isso é o país como um todo. Da extensa lista de reivindicações levantadas pelas mulheres do Têt Kole nesses dias de protagonismo, é interessante destacar que suas demandas não se limitam a questões de gênero, abordando todos os setores da vida. Afinal, pela própria abrangência do seu papel na sociedade, elas enfrentam diariamente tanto a omissão do Estado quanto os desdobramentos da crise atual, em todos os níveis.

A população rural precisa de acompanhamento técnico e acesso a crédito para a agricultura familiar, que alimenta as cidades. Precisa de mais escolas públicas para que as crianças que moram longe dos centros urbanos possam estudar. Precisa de estradas asfaltadas para poder circular livremente e transportar suas mercadorias. Sem falar da falta de hospitais, água potável e energia elétrica, que levam, em especial, as mulheres a matarem um leão por dia para a família sobreviver. Por fim, ou mais provavelmente no topo da lista de prioridades, precisam de segurança, de norte a sul, para que a população haitiana possa viver de dia e dormir à noite.

Editado por: Rafaella Coury

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