Estamos em pleno ano de 2026 do século 21, mas as marcas dos anos de ditadura militar estão vivas e seguem na pauta política atual do país. Nesta semana, foi lançada no canal de YouTube da produtora audiovisual porto-alegrense Pátio Vazio uma série de três entrevistas intitulada “Mais que um passado”, que aborda os anos de chumbo (1968-1974), a época mais sombria – até agora – da história brasileira.
A exibição dos três vídeos, que têm cerca de 15 minutos cada um, faz parte do projeto do documentário inédito “Uma cidade, um corpo”, que investiga as marcas do regime militar especialmente na capital gaúcha. Dirigido por Vinícius Lopes e Luciana Mazeto, o filme tem previsão de lançamento para o primeiro semestre de 2027.
Os depoimentos da historiadora Anita Carneiro, do advogado Paulo de Tarso Carneiro e da artista visual Manoela Cavalinho servem de material complementar ao título, ampliando a documentação desses fatos e do período histórico da cidade.
Segundo os diretores, o período em que essas entrevistas estão sendo lançadas foi uma coincidência interessante: “Estamos no momento das entregas finais do projeto e, como as entrevistas fazem parte do conjunto de atividades, elas estavam prontas e previstas para serem lançadas nesta etapa. Mas parece oportuno lançar relatos sobre as marcas da ditadura que nos cercam (visíveis ou não) em um momento tão importante para o país. Neste segundo turno, ainda vemos esses ecos do período ditatorial do país – com uma chapa claramente comprometida com a democracia, e outra que demonstrou diversas vezes, e de forma clara, tendências autoritárias e antidemocráticas. Os próximos quatro anos do país não serão a única coisa decidida nas urnas, no próximo dia 25 de outubro”.
Os cineastas locais explicam que trata-se de um tema muito mais abrangente do que seria possível abordar em um filme, até em longa-metragem. Então, acharam que produzir essas entrevistas seria uma boa forma de aprofundar um pouco mais as temáticas trabalhadas no documentário e ampliar o diálogo com o público. “Um filme tem um circuito mais restrito, e escolhas narrativas e estéticas que propõem um tipo específico de diálogo com o espectador – especialmente em um ensaio documental, que se debruça mais sobre ‘relações’ entre os fatos do que sobre relatos diretos”, detalham.

As falas das fontes oferecem três pontos de vista sobre o período da ditadura civil-militar na cidade de Porto Alegre: o da historiografia, o da vivência e militância, e o da transformação através da arte. Conforme Luciana, a pesquisa de Anita Carneiro (e o trabalho dela e da equipe do Caminhos da Ditadura em Porto Alegre) tiveram um papel crucial no desenvolvimento do projeto: “O exercício proposto foi uma grande inspiração para o documentário, em que navegamos pela cidade de Porto Alegre, passando por lugares marcantes de repressão (muitas vezes desconhecidos da população em geral) e analisando homenagens feitas a figuras históricas alinhadas ao regime, que podem ser vistas na cidade”.
Paulo de Tarso Carneiro participa da produção com um relato sobre a “fossa” no Palácio da Polícia, “mas nós decidimos que era importante ouvi-lo de forma mais aprofundada, especialmente porque ele viveu o período de forma intensa, sendo inclusive preso e torturado pelos militares”, em uma vontade de documentar o relato de alguém que defende a democracia desde os anos 1960. “Ele é a memória viva, e isso precisa ser partilhado e registrado”, reforçam os realizadores.
Já Manoela Cavalinho participou ativamente do filme e liga os pontos com as outras duas entrevistas. Partindo da obra “Epigramas”, intervenção urbana da artista registrando locais de memória às margens do rio Guaíba, a produção mostra a história da ditadura em Porto Alegre através de “cartões-postais desconhecidos”, examinando fatos e lugares marcantes do período, mas ainda ignorados pela população.
“É relevante dizer que Manoela teve, como ponto de partida para fazer essas colagens, justamente o mapa digital desenvolvido pela Anita e a equipe do Caminhos. E nós chegamos ao relato de Paulo sobre a ‘fossa’, no Palácio da Polícia, através da Manoela. Dessa forma, tudo se conecta e se influencia.”
Retratos espaciais de uma cidade repleta de cicatrizes em seu corpo

O filme “Uma cidade, um corpo”, de Vinícius Lopes e Luciana Mazeto, ainda traz relatos de pessoas que vivenciaram o período, e relembra a prisão e morte de Manoel Raimundo Soares pela ditadura brasileira, em 1966, em Porto Alegre, uma das primeiras ocorridas durante o regime militar, que ficou conhecida como o “caso das mãos amarradas”.
O projeto teve início no ano de 2019, como um longa de ficção. “Iniciamos a pesquisa sobre o tema da ditadura na cidade de Porto Alegre com esse intuito. Naquele momento, entramos em contato com o trabalho da historiadora Anita Carneiro e da equipe do projeto Caminhos da Ditadura – que proporcionaram a montagem de um mapa digital com mais de 200 pontos, demarcando locais de memória da resistência e da opressão do período, além de trajetos guiados por alguns desses locais”, contam os diretores.
“À medida que investigamos a relação histórica da cidade com a ditadura, percebemos a importância desse local nas disputas simbólicas e nas práticas de violência e supressão de direitos humanos durante o regime”, avalia Vinícius Lopes. A Ilha do Presídio (ou Ilha das Pedras Brancas), espaço usado nas décadas de 1960 e 1970 para deter presos políticos, foi um dos lugares visitados pela produção.
O filme também examina, ao longo de seus 36 minutos, o contraste entre o que foi apagado e o que permanece exposto (e celebrado) nas ruas de Porto Alegre, refletindo sobre como o espaço urbano influencia a mentalidade de seus habitantes.
O título inicial era “O passado está aqui”, mas, conforme evoluíram na produção e finalização, ele foi parecendo direto e literal demais. “Enquanto investigamos a cidade e esse passado, fomos nos aproximando de uma abordagem que propõe a cidade com um ‘ser com vida própria’, que também ‘tem coisas que não gosta de mostrar aos outros’. Por outro lado, conforme avançamos na montagem, o caso de Manoel Raimundo Soares foi ganhando mais importância no filme e servindo com uma das camadas narrativas.”
Os cineastas complementam que “Uma cidade, um corpo” tem um duplo sentido para eles: “O mais direto é a relação da cidade com a ditadura e o notório caso das mãos amarradas. Mas o título também tem uma interpretação indireta, que propõe essa cidade como esse organismo vivo, repleta de cicatrizes deixadas em seu corpo”.
“A relação entre o corpo e a cidade foi surgindo já no começo do processo. Pensamos que a urbe é um local de disputas e atritos, um organismo vivo e complexo, e com características bastante humanas. Uma reflexão que trazemos no filme resume bem essa antropomorfização da cidade: ‘O que constitui um lugar? Ele se define mais pelo que decide lembrar, ou pelo que escolheu esquecer?’”, esclarecem.
A obra “Epigramas”, no filme, vem como esse “retrato” da cidade. “Como cartões-postais desconhecidos, e às vezes indesejados. Um cartão-postal, de certa forma, é como um post de Instagram. Nós (e a cidade) deixamos de lado o que não queremos que ninguém veja, e exibimos aquilo que queremos que pensem sobre nós. Mas tanto nós quanto as cidades somos feitos de tudo que nos constitui, não de partes selecionadas. E é preciso olhar frontalmente para todas as partes, boas e nem tão boas assim, para podermos entender o todo. Apagar o passado nunca foi e nunca será a solução. A cidade, de certa forma, é um espelho de nós, e nós somos um espelho da cidade”, concluem.
“Uma cidade, um corpo” tem financiamento da Secretaria Municipal da Cultura – Prefeitura de Porto Alegre, Sistema Nacional de Cultura, Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB), Ministério da Cultura – Governo Federal, Apoio institucional da POA Film Commission e Apoio cultural da FM Cultura.

