dois pesos

Meta reconhece, em mensagens internas, prejuízo a Lula e sugestão irregular do perfil de Flávio Bolsonaro nas buscas

Campanha do petista estima que 1,3 milhão de pessoas deixaram de ver anúncios; empresa nega favorecer candidatos

Funcionários da Meta reconheceram que restrições prejudicaram o impulsionamento de posts de Lula no Instagram
Funcionários da Meta reconheceram que restrições prejudicaram o impulsionamento de posts de Lula no Instagram | Crédito: Ricardo Stuckert

Mensagens trocadas por funcionários da Meta, dona do Instagram, do Facebook e do WhatsApp, mostram que a própria empresa reconheceu internamente que as contas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foram prejudicadas por restrições nas plataformas durante a campanha. As conversas, obtidas pela Folha de S.Paulo e reveladas nesta sexta-feira (16), também registram que o perfil do senador Flávio Bolsonaro (PL), adversário de Lula no segundo turno, foi recomendado pelo algoritmo do Instagram e apareceu em buscas no WhatsApp, prática proibida pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Oficialmente, a Meta atribuiu o problema a uma falha técnica no gerenciador de anúncios da plataforma. As mensagens mostram que engenheiros nos Estados Unidos foram acionados, mas levaram horas para resolver. Os próprios funcionários reclamaram da demora e avaliaram que a equipe estadunidense talvez não tivesse entendido a urgência de um caso envolvendo a conta de anúncios do presidente da República em plena campanha. Eles relatam ter pedido que o caso fosse classificado como SEV2, nível reservado a problemas graves que exigem solução imediata.

Nas conversas, uma funcionária menciona a necessidade de combinar como a empresa se explicaria aos integrantes da campanha de Lula, que cobravam respostas. Outro funcionário relata que deputados engajados na campanha pediam satisfações.

Explicações confusas

A primeira justificativa da empresa foi um data outage, uma interrupção global de dados que teria atingido mais de 3 mil contas em 7 de outubro, inclusive uma tentativa de impulsionamento da campanha de Flávio Bolsonaro. As próprias mensagens internas, porém, indicam que essa pane durou cinco horas e ocorreu dois dias antes. No caso de Lula, o bloqueio aconteceu no dia 9 e se estendeu por quase um dia inteiro.

Em uma das mensagens, um funcionário afirma que a conta de Lula estava “limitada” na comparação com a de Flávio Bolsonaro e avalia que a situação era ruim porque havia grande chance de o caso ir parar na Justiça.

O comentário se refere a quando o perfil oficial de Lula passou quase 24 horas sem conseguir pagar para ampliar o alcance de publicações do feed do Instagram. Os anúncios já em veiculação seguiram no ar, e a campanha ainda conseguia impulsionar os chamados dark posts, peças que não aparecem no perfil. O bloqueio atingiu justamente a modalidade mais usada e mais eficiente para alimentar o algoritmo.

Como o TSE veda a recomendação algorítmica de perfis de candidatos, o impulsionamento pago é o único caminho para ampliar o alcance da propaganda na internet. E, segundo a Folha, a Meta concentra praticamente todo esse mercado em 2026: o Google deixou de vender anúncios políticos no Brasil em 2024, e o Kwai oferece o serviço de forma muito restrita. No primeiro turno, a empresa recebeu mais de R$ 270 milhões em anúncios eleitorais, de acordo com o professor do Insper e diretor do Coletivo Digital, Rodolfo Avelino, em entrevista à Rádio Brasil de Fato.

Na reta final, o tempo de bloqueio pesa ainda mais. “Numa corrida de segundo turno muito curta, […] cada dia é disputado”, afirmou um integrante do governo federal. Segundo ele, o enfrentamento à extrema direita foi construído sobre a defesa da integridade do sistema eleitoral, e os problemas envolvendo a Meta acontecem antes da votação, no terreno da disputa por votos. Para ele, a diferença no segundo turno deve ser de milhões de votos, o que torna difícil atribuí-la a episódios pontuais.

Recomendação proibida

Os registros também tratam da exposição indevida de Flávio Bolsonaro. Pela regra do TSE, perfis e canais de candidatos só podem aparecer em buscas quando o usuário digita o nome exato. No início de outubro, no entanto, o perfil do senador surgia como sugestão no Instagram, o que não ocorria com os demais candidatos.

Nas conversas, os funcionários admitem que se tratava de um furo e que, ao mesmo tempo, a conta de Lula não aparecia nem quando se buscava o nome exato. A explicação técnica dada internamente foi que o nome do presidente seria longo demais. O erro foi corrigido, mas, segundo as mensagens, ainda havia variações nas sugestões de busca para os dois candidatos.

No WhatsApp, quem procurava pelo termo “Exército do Lula” recebia como resultado o Canal do Lula, o Partido dos Trabalhadores e a Tropa do Flávio, canal de apoio ao candidato do PL que dispara desinformação. O “Exército do Lula”, administrado pelo deputado André Janones, foi derrubado nesta semana por decisão do presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, e depois voltou ao ar.

Série de episódios

As revelações se somam a outros casos recentes. Nesta semana, testes feitos pelo BdF mostraram que a Meta AI, integrada ao WhatsApp, recusava criar imagens com “Vote Lula 13”, mas gerava banners com “Vote Flávio 22”. A empresa disse ter adotado medidas adicionais para impedir que comandos com o primeiro nome e o número dos candidatos produzam imagens. Também nesta semana, o Fórum das Entidades Nacionais dos Servidores Públicos Federais (Fonasefe) denunciou que a Meta removeu 13 postagens com críticas a Flávio Bolsonaro, embora a decisão do TSE mencionasse apenas três.

A coligação de Lula acionou o TSE contra a Meta e criou o canal Censura Digital para reunir denúncias de restrições nas redes. O ministro Marco Aurélio Bellizze deu 48 horas para a empresa prestar esclarecimentos e determinou a preservação dos registros de moderação, anúncios e métricas das publicações.

Para um integrante do governo, as big techs são um fenômeno cujos movimentos são difíceis de antever, e as mensagens reveladas nesta sexta mostram isso. Ele avalia que o episódio deve levar a um processo de aprendizado, como ocorreu em eleições de outros países, para evitar que essas ferramentas tenham influência desproporcional. “Acho que o que acontecer no Brasil vai servir para uma ação do poder público para coibir a repetição desse tipo de atitude”, disse.

O que dizem a Meta e a campanha de Flávio Bolsonaro

As conversas indicam que, dentro da empresa, há a percepção de que ganha força a narrativa de interferência da Meta na eleição brasileira, e funcionários sugerem mostrar que Flávio Bolsonaro também foi afetado. As mensagens citam que, em 23 de setembro, as contas dos dois candidatos ficaram cerca de uma hora sem poder subir anúncios por causa de um erro que apontou atividade suspeita, e que, em 1º de outubro, anúncios de Flávio Bolsonaro foram bloqueados por suposto uso de inteligência artificial em período vedado, o que a campanha nega.

Procurada pela Folha, a Meta afirmou que as alegações de que atua para interferir na eleição ou favorecer uma candidatura são falsas e “não encontram respaldo nos fatos”. A empresa atribuiu os episódios a falhas técnicas globais, a um erro específico já corrigido e à aplicação de normas eleitorais que valem para todas as candidaturas, e disse não dar tratamento preferencial a candidato, partido ou posição política. Nas conversas obtidas pelo jornal, não há admissão de interferência deliberada; o que se discute é a gravidade das falhas e a demora das equipes de engenharia em resolvê-las.

A campanha de Flávio Bolsonaro negou ter enfrentado qualquer problema com a conta de anúncios do candidato, disse cumprir as regras da plataforma e do TSE e afirmou que eventuais efeitos das normas eleitorais sobre o alcance do senador vêm sendo compensados pelo trabalho técnico da equipe.

Editado por: Rafaella Coury

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