“Tião Personal Dancer” foi eleito o melhor filme da Curta Mostra Goiás, seção dedicada à produção goiana da 24ª Goiânia Mostra Curtas, encerrada no último domingo (11). Produzido pela Dafuq Filmes com recursos da Lei Paulo Gustavo e do Programa Goyazes, do governo de Goiás, o curta já tinha levado o prêmio do júri popular no sertão de Minas Gerais, também recebendo o Prêmio Seleção Especial Sesc TV SP.
Escrito por Aristóteles Tothi e Bruno Victor, o curta de 23 minutos troca o documentário pela ficção. Numa sexta-feira, Tião (Otto Caetano) atende clientes em diferentes forrós da cidade, enquanto os amigos recém-aposentados Reginaldo (Adolfo Moura) e Cida (Leni Rabi) se preparam para a noite. No salão, Reginaldo se encanta pelo dançarino. Num espaço heteronormativo, em que homens raramente dançam juntos, o filme constrói o encontro entre os dois: do flerte no banheiro ao beijo que, literalmente, sai do chão.
“Minha grande motivação foi elaborar esse filme como uma narrativa do desejo. Um desejo galopante, crescente, que vai efervescente até entrar em ebulição. Quando o beijo acontece, a tentativa da cena final é que seja um beijo tão romântico entre esses dois homens negros, com mais de 50 anos, que eles levitam”, explica Tothi.
A inspiração vem dos bailões de Goiânia frequentados pelo público 50+, conhecidos entre os adeptos como “forró dos véi”, e de uma figura que circula por eles: o personal dancer, dançarino profissional contratado por duas ou três horas para dançar só com quem o contratou. No bairro de Tothi, um homem de 86 anos organiza há mais de três décadas o Forró do Tião. A partir dessa existência nasce o filme.
Na conversa a seguir, Tothi fala sobre desejo e envelhecimento. Também como dois realizadores negros e LGBTs, se articularam para fomentar os temas, contando história, sem deixar de se distanciar da própria realidade.
Confira a entrevista na íntegra:
Brasil de Fato DF – Como o Tião chega até você? Ou, como você chega até o Tião?
Aristóteles Tothi – O Tião é uma figura que existe no meu bairro, a Vila Cruzeiro do Sul [em Aparecida de Goiânia]. Hoje ele é um homem de 86 anos, e a história se inspira na existência dele. Há mais de 30 anos ele realiza um forró lá no bairro, o Forró do Tião, voltado para pessoas 50+. É algo que eu acompanho e que gosto desde a adolescência. Sempre me interessei por esse forró frequentado por gente de 50, 60 anos ou mais, porque tem uma energia muito gostosa. As pessoas vão a esses espaços para dançar, e dançam a noite inteira.
Sempre tem uma energia sexual, uma energia de encontro, de as pessoas se conhecerem. Isso quebra o estigma de que pessoas idosas não podem se divertir, não podem desejar, amar, querer, viver uma noitada.
O filme surge com todos esses elementos, junto com o forró, que é algo de que gosto muito. No começo eu pensava num documentário, acompanhando a vida do Tião. Mas achei que seria mais valioso usar aquilo como fonte de inspiração e fabular, criar outras possibilidades, um outro universo a partir daquele ambiente: espaços periféricos. Chamei o Bruno Victor, meu parceiro, que coroteirizou a história comigo, e começamos a escrever pensando num romance queer. Esse romance surge quando passo a frequentar esses espaços com outro olhar e percebo que são heteronormativos. Às vezes você até vê mulher dançando com mulher, mas quase nunca vê homens dançando juntos. Os homens que fui conhecendo quando voltei para essa pesquisa estão sempre numa performance mais contida, que coloca na reserva a manifestação da sexualidade deles. Isso me chamou muita atenção.
Achei que seria possível criar um universo em que esses homens negros tivessem a segurança de um encontro. Um encontro prazeroso, não só na expectativa dos corpos se encontrando, mas na possibilidade de se divertir, de curtir uma noite de forró. A história foi caminhando e construindo a ambientação que o filme apresenta.
Você fala dessa heteronormatividade. No filme, a primeira troca dos dois acontece dentro de um banheiro, no sigilo, primeiro a observação da cabine do banheiro, para o contato na pia, de frente ao espelho. Isso foi intencional? O que passou na sua cabeça na hora de construir essa cena?
Foi totalmente intencional. Existe a cultura do banheirão. Os homens se encontram no banheiro para se pegar, mas também para flertar, abrir uma possibilidade. Quando levamos isso para o banheiro, não é só pelo lugar do escondido, do sigilo, mas pela cultura de como essa aproximação acontece. Antes de tudo, existe a ideia de que o banheiro às vezes é o lugar mais seguro para manifestar esse desejo, diante de uma estrutura que está sempre com os olhos postos sobre essas pessoas. Foi um recurso narrativo, de roteiro, porque acho que causa identificação no público, principalmente no público praticante.
É completamente construído e intencional que esses dois homens se encontrem primeiro no banheiro, porque é dali que parte o desejo.

Mas esse mesmo espaço do forró, que abriga o encontro escondido no banheiro, termina com um beijo. Ele é um lugar seguro para isso, ou é só ficção?
Quando penso em cinema, minha perspectiva é possibilitar novas imagens, novas construções. Quando possibilitamos que esses homens se encontrem e se beijem com esse desejo, essa liberdade, esse calor, é para concretizar esse imaginário. E volto um pouco: a cena do banheiro, além de criar o clima de tensão sexual que sugere, tem coisas muito sutis, como o encontro das mãos, o toque. Ali a gente possibilita que esses homens construam a perspectiva do afeto. Que aquilo não seja absolutamente de cunho sexual – não que isso seja um problema – mas que antes seja possível construir outra perspectiva, sentir o outro de outras formas.
Minha grande motivação foi elaborar esse filme como uma narrativa do desejo. Um desejo galopante, crescente, que vai efervescente até entrar em ebulição. Quando o beijo acontece, a tentativa da cena final é que seja um beijo tão romântico entre esses dois homens negros, com mais de 50 anos, que eles levitam. Quando eu imaginava essa cena, chegava a me arrepiar. Sabe quando você beija com muita vontade e levanta o pezinho? Eu pensei: e se agora eles forem realmente pro céu? É esse beijo que vai pro céu, que culmina toda essa construção do desejo numa possibilidade de acontecer de fato.
A curadoria do festival fala em pequenos gestos. Pensar nesses corpos dissidentes, com seus recortes de idade, por exemplo, foi também um pensar nos pequenos gestos, que não sejam gestos tão pequenos?
Acho que essa é a grande função do cinema. Ele consegue, a partir disso, criar grandes arcos e significados. A gente trabalha com signo, com ícone, e nesse conjunto de elementos potencializa tudo. Pense no Tião como um profissional, um dançarino que atende clientes. O procedimento dele é tratar todos da mesma forma. O gesto de estender a mão, de fazer a bandejinha para conduzir a pessoa com quem está dançando, independe de quem seja. É um gesto de cuidado, faz parte da conduta dele na dança. Mas, quando possibilitamos isso para aquele outro homem, que vive uma expectativa, é um desabrochar. Ele está vivendo e construindo o que também idealizou. O cinema consegue exponenciar esses gestos narrativamente. Um gesto que talvez não tivesse relevância, quando a gente vê num plano gigantesco na tela, com o elemento sonoro, com tudo o que te embala desde o começo do filme, se declara. Fica completamente manifestado.
No cinema goiano, a última produção que vi nesse nível de construção em narrativa cuir, foi em Vento Seco, mas ainda com a presença de corpos muito específicos e de um imaginário muito bem estabelecido, sobretudo, do universo de homens gays. Aqui vemos corpos muito diversos. Qual a importância disso para você? E o que significa o Tião no contexto de Goiás?
Eu sempre gosto de pensar cidade. Venho de uma periferia, então esse trânsito entre periferia, centro e outros espaços é algo com que gosto de dialogar, parte de uma perspectiva minha. Em Goiânia tem forró de segunda a segunda, em diversos horários, em mais de 87 espaços, desde casas de dança que existem há 30, 40 anos até centros comunitários. São espaços para todos os públicos, econômica e socialmente, e isso também reflete em como essas pessoas se deparam com a diversidade de gênero e sexual. Vento Seco também é de um diretor goiano, de Catalão, e toda a pesquisa dele trabalha a sexualidade, os fetiches, que estão ali como elemento. Para mim, é a perspectiva de um romance, como um livro que eu leio. Eu queria possibilitar que esse romance fosse um romance queer.
Na narrativa, apresentamos o corpo de um homem negro de 60 e poucos anos, nu, numa situação cotidiana: saindo do banheiro para o quarto. Não estamos tentando esconder nem tapar nada. Estamos mostrando apenas uma situação cotidiana. Numa narrativa mais longa, esse beijo poderia evoluir, esses corpos poderiam se encontrar numa relação sexual. Mas a narrativa propõe esse primeiro encontro, e o filme vai até ali. Nesta coisa das relações casuais, da liberdade sexual que a gente vive, tem algo que vamos deixando de praticar: o prazer do beijo. O filme tem muito som, muita música, e o beijo termina num silêncio. É para que a gente volte a atenção a esse primeiro contato que normalmente temos com o outro quando há interesse, que vai partir para o sexual. O beijo é o primeiro marcador. O filme trabalha as nuances desses corpos.
Pensando o cinema goiano, não vou tratá-lo como conservador, porque já temos filmes, inclusive de outras épocas, que avançaram muito nisso. Mas é sempre desafiador, porque lidamos, sim, com uma maioria de pessoas conservadoras, que não estão preparadas para ver corpos de pessoas idosas, quanto mais corpos dissidentes: homens negros, idosos, dispostos a se conectar. O filme tenta trabalhar isso com sutileza, mas não por não querer se arriscar ou ousar. Há uma consciência do que cabe naquele filme como construção narrativa. A nossa propunha ir até esse primeiro momento do encontro.
Para quem circula por festivais e tem uma relação estabelecida com cinema cuir, o filme parece chegar bem. Mas e se ele fosse pensado para sair em um centro de convivência para idosos? Em Goiás, você acha que existe essa possibilidade para o Tião?
Toda possibilidade, enquanto possibilidade, existe. Há duas semanas, o filme passou numa comunidade muito pequena, um povoado no sertão de Minas, num cinema a céu aberto, com uma população de pessoas mais velhas. Eu estava com receio. E foi muito doido sentir essa apreensão e ver a galera vibrar, curtir. O filme levou o prêmio do júri popular. Às vezes esses estigmas antecipam a nossa previsão. Quando olho para o filme, acho que ele tem tanta sutileza, tanto mecanismo de chegada, que meio que subverte isso.
Ele apresenta uma relação romântica numa construção de desejo em que todo mundo fica desconfiado. Joga com isso, tem o flerte. Talvez nem tenha o impacto negativo que a gente imagina.
Mas eu não experimentei levá-lo, como você sugere, a esses espaços de convivência. Fica uma ótima sugestão. É um desejo nosso exibir o filme no espaço onde gravamos, algo que ainda vamos articular. Há possibilidade, com certo receio, mas acho que a gente pode surpreender. O filme tem outras relações também. É muito importante a relação da amiga, a Cida, com o Reginaldo: uma amizade de compreensão, de apoio, de movimento. Isso causa identificação. Os amigos dando rolê, o grupo de amigas saindo com esse amigo.
O grande barato do cinema é quando o filme bate. Quando chamo ele de pop, é no sentido de popular, da capacidade de assimilação cultural. O forró causa essa assimilação. Como é o pano de fundo do filme, as pessoas caem para dentro da história por gostarem daquilo, por uma formação cultural. Nos quatro cantos do país, todo mundo já ouviu um forró uma vez na vida, mesmo que não goste. E quando o filme traz músicas internacionais em versão forró, fica mais pop ainda, cria outra camada.

Para além desse aparente manifesto sobre envelhecimento, sexualidade e desejo, o que mais Tião pretende construir?
Sou adepto de um pensamento: como realizador, algo que pode angustiar muito é achar que o filme tem que dar conta de muitas coisas. Junto com os discursos, penso muito na perspectiva artística, em como você elabora a partir daquilo. Tenho um grande receio de formular tese sobre as coisas. Mas, obviamente, pelo meu posicionamento e pelas minhas escolhas, o filme acaba cumprindo esses papéis, porque eu estou diante da vida. Quando olho para o Tião que existe de verdade, quando estou nesses espaços, estou diante da realidade. Quando transporto isso para a ficção, não me afasto. Pelo contrário, me aproximo cada vez mais. Entro como pesquisador, troco ideias com essas pessoas, ouço depoimentos.
O que trago para o filme junto com o Bruno vem de uma experiência de escuta, de observação, mas não uma observação antropológica o tempo todo. É de compreensão da vida. Temos pessoas mais velhas na nossa família, pessoas homossexuais, pessoas que passam por dificuldade para se assumir, também por conta do etarismo, das limitações postas a quem ainda quer viver. O filme toca nesses pontos porque se propôs a acessá-los antes de transportá-los para a ficção. Isso está até nas imagens. A proposta foi filmar com o bailão funcionando de verdade, com as pessoas em suas ações comuns, num espaço que frequentam há muito tempo, interferindo o menos possível. E organizamos os planos em que filmamos com a casa fechada, com figuração, mas com o baile a todo vapor. O que queríamos trazer para a sensação do filme são as questões que pertencem aos espaços dessas pessoas.
E isso começa antes do filme. Quando a atriz que faz a Cida começou a ler os textos nos ensaios, ela dizia: “Essa mulher sou eu”. Eu e o Bruno não escrevemos distantes de figuras como ela. Estávamos próximos de pessoas assim, para entender o que elas passam. A gente não dá conta de tudo. Mas, quando é honesto, consegue diluir as questões, pulverizar, pontuar, criar termômetros, não pesar aqui, aliviar ali, e trazer as questões por outro caminho. É botar fé num jeito de fazer cinema, num jeito de pensar as nossas narrativas. Somos dois realizadores, escritores negros, LGBTs. A gente não precisa se distanciar para trazer algumas pautas.
Confira o trailer de “Tião Personal Dancer”
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