A poesia camponesa na China vem ganhando um novo impulso por meio de iniciativas integradas à estratégia de Revitalização Rural do país. Nesta edição, o Bem Viver, programa do Brasil de Fato, traz uma experiência pioneira nesse sentido: é a da Academia Mulan, localizada em Yanghe, um vilarejo pertencente ao condado de Xiji, na região autônoma de Ningxia Hui. Xiji é historicamente reconhecido como o primeiro condado da China a receber o título de “Terra da Literatura”, concedido em 2011 pela Associação de Escritores da China e pela Fundação de Literatura da China.
Criada em 2019, a Academia Mulan atua combinando formação literária, pesquisa educacional e turismo rural. Atualmente, o espaço reúne mais de 300 camponeses do condado que escrevem, debatem e apresentam poemas, contos e romances.
Entre os membros do espaço está Li Chengshan, camponês e escritor dedicado à criação de bovinos e ovinos. Li nutre a paixão pela leitura e pela escrita desde a juventude, conciliando o hábito com as intensas jornadas no campo.
“Depois que minha mãe faleceu, assumi o trabalho de meu pai. Mesmo após longas jornadas de trabalho, ainda tinha profunda reverência pelas palavras escritas. Lia romances e literatura clássica à luz de lamparina de querosene e nos intervalos do meio-dia. Quando estava exausto pelo trabalho, os livros nutriam meu espírito e melhoravam meu ânimo. Fui aprendendo com outros e comecei a registrar, em fragmentos, minhas próprias observações sobre a vida. Anotava reflexões depois das leituras e também registrava o esforço dos vizinhos. Escrevia sobre tudo que via, e aos poucos isso virou hábito”, relata o agricultor.
Para sustentar a família e garantir o sustento dos quatro filhos até a universidade, Li trabalhou por três décadas na construção civil em áreas urbanas. Embora tenha continuado escrevendo ao longo desse período, suas produções quase não encontravam espaço para publicação.
O reencontro definitivo com o meio literário aconteceu ao retornar à sua terra natal, já na casa dos 50 anos. Em 2021, convidado pelos gestores da Academia Mulan, ele passou a integrar o coletivo.
“Foram Shi Jingbo e Li Ximing, da Academia Mulan, que me tiraram do trabalho no campo e me trouxeram para a academia, me encorajando a continuar escrevendo. Eu disse a eles que havia abandonado a escrita décadas atrás, sem nada publicado. Mas eles disseram que era exatamente de agricultores-escritores como eu que precisavam”, relembra o camponês.
O reconhecimento desse trabalho veio em maio de 2024, quando Li teve um texto publicado no Diário do Povo, jornal oficial do Partido Comunista Chinês. O artigo intitulava-se: “Nós, camponeses, também podemos viver nossas vidas como poesia. Traduzir em palavras tudo que testemunho me traz grande realização. (…) A escrita nutre meu ser interior e fortalece meu bem-estar espiritual. Esse é um ponto de partida maravilhoso para a revitalização rural: usar a escrita e a literatura para encorajar os outros e a mim mesmo”, afirma Li.
“Literatura mais Agricultura, Cultura e Turismo”
A fundação da Academia Mulan é fruto da iniciativa do jornalista Shi Jingbo. Ele deixou o cargo de editor-chefe em um jornal de Yinchuan, capital de Ningxia, para voltar ao seu vilarejo natal e contribuir diretamente para a Estratégia Nacional de Revitalização Rural.
“A cidade não carece de mais um editor-chefe de jornal, mas a revitalização cultural do campo precisa de pessoas dispostas a trilhar esse caminho com dedicação. Acredito que a revitalização rural é, no fundo, revitalizar as pessoas. Os agricultores são os protagonistas”, explica Shi Jingbo.
O financiamento, segundo Shi, sempre foi um gargalo para o desenvolvimento cultural no campo. A academia respondeu com um modelo que chama de “Literatura mais Agricultura, Cultura e Turismo”. Todas as atividades culturais e literárias são sem fins lucrativos e se sustentam com receitas de três frentes.
“Combinamos literatura com programas de turismo educacional para crianças. Esses programas operam com base comercial e geram renda para os agricultores-escritores. Integramos a literatura ao turismo rural com hospedagens e serviços de alimentação. A receita dessas atividades sustenta nossas iniciativas culturais e literárias. Unimos a literatura a transmissões ao vivo de comércio eletrônico conduzidas pelos próprios agricultores-escritores”, detalha o fundador.
Além do turismo, as transmissões ao vivo rurais (livestreams) tornaram-se uma ferramenta crucial ao conectar o campesinato a um mercado consumidor nacional de 1,4 bilhão de pessoas, aproveitando a vasta infraestrutura de logística e internet da China.
“Xiji é a primeira ‘Terra da Literatura’ da China, onde mais de 1.600 pessoas continuam escrevendo regularmente. Por que realizamos essa transmissão ao vivo? Esperamos usar o poder dos praticantes da literatura e da própria literatura para impulsionar as vendas de produtos agrícolas locais de qualidade. Queremos que os escritores contribuam para o desenvolvimento local e para o aumento da renda dos agricultores. Por isso lançamos essa transmissão”, conclui Shi Jingbo.
E tem mais…
O Bem Viver traz também uma conversa sobre o mês das crianças. Em tempo de eleições, elas precisam ser prioridade nas políticas públicas. Reunindo mais de 500 organizações, a Coalizão Brasileira pelo Fim da Violência contra Crianças e Adolescentes cobra, junto com o movimento Agenda 227, que candidatos e candidatas coloquem a infância de fato na agenda. Lucas Lopes, da Coalizão, detalha esse debate.
A chef Gema Sotto ensina uma receita tradicional da Venezuela que une mandioca e uma calda doce para inovar no café da tarde.
Cilene Andrade e Ronaldo Guedes contam como o Ateliê Mangue Marajó produz uma cerâmica ancestral que transforma a natureza em arte autoral, direto da Amazônia. Instagram: @atelieartemanguemarajo
Em Havana, Cuba, o Museu Nacional de Belas Artes mantém projetos que aproximam as crianças do patrimônio cultural e das raízes afro-cubanas da ilha.
Quando e onde assistir?
No YouTube do Brasil de Fato, todo sábado às 13h, tem programa inédito. Basta clicar aqui.
Na TVT: sábado às 13h; com reprise domingo às 6h30 e terça-feira às 20h no canal 44.1 – sinal digital HD aberto na Grande São Paulo e canal 512 NET HD-ABC.
Na TV Brasil (EBC), sexta-feira às 6h30.
Na TVE Bahia: sábado às 12h30, com reprise quinta-feira às 7h30, no canal 30 (7.1 no aparelho) do sinal digital.
Na TVCom Maceió: sábado às 10h30, com reprise domingo às 10h, no canal 12 da NET.
Na TV Floripa: sábado às 13h30, reprises ao longo da programação, no canal 12 da NET.
Na TVU Recife: sábados às 12h30, com reprise terça-feira às 21h, no canal 40 UHF digital.
Na UnBTV: sextas-feiras às 10h30 e 16h30, em Brasília, no Canal 15 da NET.
TV UFMA Maranhão: quinta-feira às 10h40, no canal aberto 16.1, Sky 316, TVN 16 e Claro 17.
