Neste sábado (17), completam-se 92 anos do início da Longa Marcha do Exército Vermelho de Operários e Camponeses, o braço armado do Partido Comunista da China. Na noite de 17 de outubro de 1934, mais de 86 mil soldados iniciaram a travessia do rio Yudu, no sul da província de Jiangxi, dando início ao rompimento do cerco crescente do Kuomintang, o Partido Nacionalista da China, à capital da República Soviética da China, Ruijin. Coincidentemente, no dia 22 de outubro também é celebrada a vitória da Longa Marcha, quando os três exércitos principais se encontram no norte do país, dois anos depois da partida. O Brasil de Fato lançará um documentário sobre a Longa Marcha para essa data.
A travessia durou quatro noites. As pontes flutuantes eram montadas ao anoitecer e desmontadas antes do amanhecer para não serem identificadas pelos pilotos das aeronaves do Kuomintang (KMT).
O que levou a iniciar a Longa Marcha
As funções que a Longa Marcha acabou tendo não faziam parte do plano inicial. A meta, ao atravessar o Yudu, era de reorganização (ou transferência, nos termos oficiais) estratégica, ir para o oeste de Hunan, onde estavam o Segundo e o Sexto Corpos do Exército Vermelho, que mais tarde formariam a Segunda Frente. Em termos gerais, mais do que travar batalhas contra os nacionalistas, a principal preocupação do Partido Comunista era com a invasão do Império Japonês, que havia começado em 1931, na Manchúria, no nordeste chinês. Já para o KMT, a prioridade era inversa: derrotar os comunistas para logo combater o Japão.
O cerco do Kuomintang vinha sendo feito por meio das campanhas de Cerco e Aniquilamento. O Exército Vermelho foi capaz de derrotar as quatro primeiras campanhas sob o comando de Mao Zedong, mas, para a quinta, o poderio militar dos nacionalistas havia aumentado significativamente. Outros fatores também incidiram no avanço do KMT sobre a base soviética chinesa.
Ao Brasil de Fato, o pesquisador do Instituto Central de História do Partido, Hu Changyong, afirmou que a derrota que a Quinta Campanha de Cerco e Aniquilamento impôs ao Exército Vermelho incluía a superioridade numérica do KMT, a adoção de uma nova tática de trincheiras e fortalezas, e a crise econômica prolongada nas bases revolucionárias. Mas a causa central, segundo Hu, foi o comando equivocado de Bo Gu e do consultor militar Otto Braun, enviado pela Internacional Comunista.
A estratégia de Braun contrariava as táticas desenvolvidas por Mao Zedong nas campanhas anteriores. “Contra os ataques inimigos, ele pregava o ataque em resposta ao ataque: contra-atacar o inimigo frontalmente e travar combates diretos com fogo concentrado”, explicou Zhang Xiaoling, chefe de pesquisa do Memorial da Conferência de Zunyi. Lutar de frente contra um exército cinco vezes maior, avaliou Zhang, “era como bater com um ovo numa pedra”.
A redução do território começava a deixar poucas opções. Como explica Zhang, “embora a Área Soviética Central se estendesse por dezenas de milhares de quilômetros quadrados, após um ano restava apenas um pequeno enclave contendo um punhado de cidades, incluindo Ruijin, Yudu e Huichang”. A Longa Marcha foi “uma retirada não planejada, executada às pressas sob coerção”, conclui.
As pontes do rio Yudu
O condado de Yudu hoje faz parte dos mais de 300 lugares que integram a “Lista Nacional de Pontos Turísticos Clássicos da Cultura Revolucionária”, da Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma.
Às margens do rio, voluntários participam do drama ao ar livre “A Despedida”, desde 2021. Entre eles há vários descendentes de soldados e soldadas do Exército Vermelho. Desde 2023, uma obra com grande infraestrutura, “A Primeira Travessia da Longa Marcha” é encenada no Grande Teatro da Longa Marcha de Yudu.
Sun Guanfa, descendente de um dos soldados que cruzaram o rio em 1934, relatou que os moradores locais doaram estoques de grãos para sustentar o exército e tábuas que guardavam para seus caixões, para construir os barcos das pontes flutuantes.
Trinta e três jovens saíram do vilarejo onde moram Sun e Tantou para a Longa Marcha. Trinta e dois morreram no caminho, incluindo o pai de Sun. “Só soube que meu pai havia morrido na Longa Marcha; ele deu a vida na Batalha do Rio Xiang”, disse Sun ao Brasil de Fato.
A Batalha do Rio Xiang
Há um mês da partida, o Exército Vermelho quase sofre uma derrota definitiva. O Kuomintang havia montado uma “quarta linha de bloqueio” ao longo do rio com cerca de 300 mil soldados e mais de 30 aeronaves.
Além da superioridade numérica e armamentista, novos erros na condução foram apontados. Os comunistas estavam levando consigo muitos materiais e equipamentos, incluindo máquinas para imprimir dinheiro.
Dos 86 mil que haviam partido, restavam cerca de 30 mil. As perdas levaram a uma crise de liderança que culminou na Conferência de Zunyi, em janeiro de 1935, em que o Exército Vermelho avaliou os erros cometidos e começou a retornar Mao Zedong ao centro do comando militar.
“A Conferência de Zunyi resgatou o Partido, resgatou o Exército Vermelho e resgatou a revolução chinesa no momento mais crítico”, afirmou Kong Xia, guia voluntária e neta de veterano, ao Brasil de Fato, em Zunyi.
A marcha passou por 14 províncias e terminou oficialmente em 22 de outubro de 1936, com o encontro das três frentes do Exército Vermelho no que hoje é a Região Autônoma de Ningxia. A unidade que percorreu a maior distância cobriu mais de 12 mil quilômetros; o percurso total de todas as frentes ultrapassou 30 mil quilômetros.
Durante a Longa Marcha, o Exército Vermelho distribuiu terras, realizou assembleias populares e estabeleceu bases políticas. Mais de 2.600 mulheres participaram da marcha. Algumas deram à luz durante o trajeto e foram obrigadas a deixar os recém-nascidos para trás. “As soldadas do Exército Vermelho também realizavam trabalho de propaganda, carregavam macas e lutavam no campo de batalha”, disse Ren Xia, diretora do Memorial da Vitória da Longa Marcha, em Huining.
O Brasil de Fato percorreu os principais trechos da Longa Marcha nas províncias de Jiangxi, Guizhou e Gansu para a produção do documentário “A Longa Marcha que Forjou a Nova China”. A série estreia em outubro de 2026.

