O Museu Nacional de Belas Artes de Havana, em Cuba, mantém atividades de formação artística para crianças em meio à crise econômica e energética enfrentada pelo país, agravada pelo bloqueio imposto há mais de seis décadas pelos Estados Unidos e pelo atual cerco ao fornecimento de petróleo. Oficinas realizadas durante as férias escolares procuram aproximar as novas gerações do patrimônio cultural cubano.
Em entrevista ao Brasil de Fato, o diretor da instituição, Jorge Antonio Fernández, relata que as dificuldades de transporte por conta da falta de combustíveis não impedem a participação das famílias.
“Eu me surpreendo com a forma como os pais vêm sem transporte, praticamente sem transporte público, caminhando, de bicicleta, de motoneta”, afirma. Segundo ele, os responsáveis reconhecem nas atividades um espaço de formação que funciona como um “bálsamo para a alma infantil”.
Fundado em 1913, o museu passou por transformações após a Revolução Cubana de 1959. Seu acervo foi ampliado, inclusive com a incorporação de coleções privadas nacionalizadas, e a instituição se especializou na preservação das artes plásticas. Uma ampla reorganização, concluída em 2001, separou as coleções nacionais e internacionais em dois edifícios. O Palácio de Belas Artes passou a abrigar exclusivamente a produção cubana, reunindo obras do período colonial à arte contemporânea.
A formação cultural também ganhou espaço nas políticas públicas desenvolvidas a partir da Revolução. Em 1962, foram criadas escolas de arte voltadas à preparação de jovens de diferentes regiões do país. “Não se tratava apenas do artista no sentido mais elevado da palavra. Era preciso formar mediadores, gente que pudesse transmitir esse tipo de ensino nas escolas e nas comunidades”, explica Fernández, que também é professor do Instituto Superior de Arte de Cuba. Crítico e curador, ele dirigiu anteriormente o Centro de Arte Contemporânea Wifredo Lam e a Bienal de Havana.
O legado afro-cubano de Wifredo Lam
Entre os principais patrimônios preservados pelo museu estão as obras de Wifredo Lam (1902–1982), um dos artistas cubanos de maior reconhecimento internacional. De ascendência africana e chinesa, Lam viveu quase duas décadas na Europa e conviveu com representantes do cubismo e do surrealismo, entre eles Pablo Picasso e André Breton.
Ao retornar ao Caribe, na década de 1940, passou a desenvolver uma linguagem que combinava essas influências com elementos da cultura afro-cubana, das religiões de matriz africana e da história colonial da ilha. Sua produção contribuiu para ampliar a presença das tradições afro-caribenhas na arte moderna.
Uma das obras de destaque no museu é “Tercer Mundo”, produzida entre 1965 e 1966. Com 2,51 metros de altura e 3 metros de largura, a pintura está relacionada ao contexto de afirmação dos países do chamado Terceiro Mundo e das lutas anticoloniais. Fernández recorda uma definição do próprio artista para seu trabalho: “Minha pintura é um ato de descolonização”.
O diretor explica que o contato com as vanguardas europeias permitiu a Lam construir uma interpretação própria da identidade cubana, sem reproduzir os modelos internacionais.
Essa circulação cultural também marcou as relações entre Cuba e os Estados Unidos. Apesar do bloqueio econômico e das tensões políticas, Fernández destaca a influência da abstração, do pop e da arte conceitual estadunidense sobre os artistas da ilha. Em 1988, o próprio Bellas Artes foi uma das sedes de uma grande exposição do artista Robert Rauschenberg, realizada em Havana.
A influência ocorreu também no sentido inverso. Fernández lembra a contribuição do percussionista cubano Chano Pozo ao jazz estadunidense, especialmente por sua colaboração com Dizzy Gillespie no fim da década de 1940, que ajudou a consolidar a aproximação entre o jazz e os ritmos afro-cubanos.
Hoje, porém, preservar esse patrimônio exige enfrentar dificuldades materiais crescentes. Fernández relata problemas de transporte, falta de recursos e obstáculos à manutenção das instituições culturais. “Essas instituições não se mantêm do ar”, afirma. Para o diretor, as crises econômicas também produzem crises de valores, o que torna ainda mais importante preservar a formação artística e cultural das novas gerações.
“Este momento que estamos vivendo precisa ser enfrentado com a maior criatividade possível, mas, sem dúvida, deixa feridas. Seríamos iludidos se pensássemos o contrário”, afirma. Para ele, a resposta também passa pela preservação da identidade do país. “Em meio a tudo isso, é preciso continuar reafirmando os valores culturais.”

