“Podemos trilhar nosso próprio caminho rumo à modernização, em vez de só seguir o modelo ocidental”, disse Lu Xinyu, presidente do Fórum Acadêmico do Sul Global (Fasg), em entrevista ao Brasil de Fato, durante a quarta edição anual do espaço (17) em Xangai.
O fórum é co-organizado pela Universidade Normal do Leste da China, o Instituto Tricontinental e a Universidade de Joanesburgo, e reúne quase 270 representantes de partidos, movimentos populares e centros de pesquisa de cerca de 35 países sob o mote “Partidos Políticos do Sul Global: Governança e Modernização”.
Lu Xinyu explicou que o tema desta edição foi escolhido em diálogo com a Iniciativa de Governança Global do governo chinês, e disse que o evento presencial deste ano tem três objetivos: reunir perspectivas das organizações e partidos do Sul Global sobre ordem mundial e governança, apresentar práticas de governança de base, e narrar as histórias do Sul Global. “Vamos narrar juntos as histórias dos nossos países, dos nossos povos e dos nossos partidos políticos, em parceria com os principais veículos progressistas da região e a mídia chinesa”, disse Lu.
Entre as oradoras da abertura esteve a vice-presidenta de Gana, Jane Naana Opoku-Agyemang. “Devemos aprender uns com os outros sem presumir que precisamos nos transformar uns nos outros”, afirmou sobre a cooperação Sul-Sul.
“O objetivo nunca deve ser substituir um centro de dominação global por outro, ou reproduzir desigualdades passadas com a geografia invertida; devemos trabalhar em direção a uma ordem internacional genuinamente plural”, complementou Opoku-Agyemang.
Modernização vs Ocidentalização
“A modernização do Sul Global é uma modernização de nossa própria criação”, disse Lu Xinyu. A professora falou do caminho chinês nesse processo: “Mobilizamos o povo junto com os partidos políticos para realizar a modernização, integrando a linha política, a linha de massas e a linha organizacional. Essa é a experiência da China, que acredito que podemos compartilhar com nossos amigos no Sul Global”.
“A experiência da China demonstra que modernização não precisa significar ocidentalização, nem reproduzir a trajetória histórica do capitalismo ocidental”, disse em sua fala durante a abertura o secretário-geral do Partido Comunista Sul-Africano (PCSA), Solly Mapaila.
Mapaila afirmou que deve haver cautela “ao descrever os países do Sul Global como nações que falharam em se modernizar”. “O problema mais profundo é que os países do Sul Global foram historicamente incorporados à economia internacional em posições subordinadas, dominados, explorados e impedidos de explorar seus próprios caminhos de desenvolvimento independente”, disse.
Opoku-Agyemang destacou a experiência do socialismo com características chinesas como exemplo a ser estudado em outros países do Sul Global. “Para pesquisadores e formuladores de políticas em todo o Sul Global, a experiência da China convida a um exame mais aprofundado de seu planejamento de longo prazo, industrialização, redução da pobreza e o papel do Partido Comunista da China na configuração da trajetória de desenvolvimento do país”.
O secretário-geral do PCSA defendeu que o hegemonismo ou unilateralismo é um problema, mas não o único. “A multipolaridade é um avanço importante contra a dominação unilateral, mas a multipolaridade por si mesma não é socialismo”, afirmou. “Um capitalismo multipolar pode continuar sendo explorador, soberania sem transformação pode coexistir com exploração do trabalho”.
Para Mapaila, a questão central não é o ritmo do desenvolvimento tecnológico, mas quem dele se beneficia. “A questão não é se as forças produtivas devem se desenvolver e em que medida; é também quem as possui, quem as controla, quem se beneficia delas e para qual finalidade social elas são desenvolvidas”, disse. Ele aplicou o mesmo raciocínio à disputa tecnológica em curso: “O Sul Global precisa resistir ao colonialismo tecnológico, no qual nossos povos fornecem minerais, dados, trabalho e mercados, enquanto a soberania tecnológica se concentra em outra parte, no Norte Global”.
De conferência a rede permanente
O Fasg nasceu em 2023 sob o nome de Fórum Internacional de Comunicação do Sul Global, com o tema “Comunicação como Solidariedade”. O primeiro encontro reuniu mais de 100 pesquisadores de 15 países.
“Começamos com a ideia de que precisamos de uma plataforma onde os intelectuais do Sul Global possam conversar entre si e colaborar uns com os outros, produzir conhecimento a partir do Sul Global e para o Sul Global, potencialmente usando um conjunto diferente de metodologias, sem precisar acabar recorrendo à Europa e aos Estados Unidos”, explicou Xiong Jie, secretário-geral do Fasg, ao Brasil de Fato em 2025.
Em 2024, o evento assumiu o nome atual com o tema “O Sul Global e a Modernização Mundial”, reunindo mais de 250 participantes de 35 países. Em novembro de 2025, o terceiro encontro debateu os 80 anos do fim da Segunda Guerra Mundial. Segundo a organização, o Fasg mantém hoje uma rede de mais de 500 acadêmicos, especialistas e profissionais, uma série editorial bilíngue copublicada com a Palgrave Macmillan e um Índice de Soberania Digital.

