O direito à alimentação adequada e o enfrentamento à fome foram temas de uma mobilização realizada neste sábado (17), no Sol Nascente, região administrativa do Distrito Federal. A programação começou no Coletivo Mulheres do Sol, com uma roda de conversa sobre segurança alimentar, e seguiu com uma caminhada pelo território até a Cozinha Popular Mara Maria de Jesus, onde foi realizado um almoço coletivo com alimentos da agricultura familiar.
A mobilização reuniu o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), o Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), o Movimento de Trabalhadoras e Trabalhadores por Direitos (MTD), o Movimento Nacional de Luta pela Moradia (MNLM), o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), a Fian Brasil, o Coletivo Mulheres do Sol, o Ecossol e representantes da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).
Realizada um dia após o Dia Mundial da Alimentação, celebrado na sexta-feira (16), a atividade buscou discutir a segurança alimentar e nutricional, a soberania alimentar e as condições de acesso à comida no território. A programação também incluiu a apresentação de um diagnóstico sobre a realidade das famílias do Sol Nascente e o diálogo com moradores.
No mesmo dia, a Cozinha Popular Mara Maria de Jesus também recebeu o curso de formação “Nosso Direito à Cidade”, realizado pelo MNLM, pela Fiocruz e pelo MTD. A iniciativa promove atividades voltadas ao fortalecimento das redes comunitárias, à organização popular e à defesa de direitos no território.
“Ter direito a comer não é um favor, é uma obrigação do Estado e de qualquer projeto político de governo”, afirmou Alessandra Farias, integrante da coordenação nacional do MST e advogada da Fian Brasil, ao defender que o acesso à alimentação seja tratado como um direito, e não como uma concessão política.
Segundo ela, a mobilização também procurou apresentar à população uma alternativa ao uso da vulnerabilidade social para fins eleitorais. “Existem vários políticos que se aproveitam da vulnerabilidade desse povo para distribuir cesta básica, biscoito, suco e veneno. Então, a gente quis hoje trazer um contraponto, trazer o nosso projeto de país para dialogar com essa comunidade”, disse.
Diagnóstico
A programação começou com uma roda de conversa no Coletivo Mulheres do Sol, em que foi apresentado o diagnóstico “Alimentação e direitos no Sol Nascente (DF)”. A publicação foi desenvolvida pela Fian Brasil em parceria com o coletivo MultiplicaSSAN, no âmbito de um projeto de extensão da Universidade de Brasília (UnB), com participação de pesquisadoras da comunidade e lideranças locais.
O levantamento reúne informações sobre as condições de acesso à alimentação e as violações de direitos vivenciadas por moradores dos trechos 2 e 3 do Sol Nascente. Segundo dados do Instituto de Pesquisa e Estatística do Distrito Federal (IPEDF) citados no relatório, 49,8% dos domicílios da região estavam em algum nível de insegurança alimentar em 2023. Desse total, 12,7% enfrentavam insegurança alimentar grave.
Secretário-geral da Fian Brasil, Adelar Cupsinski destacou que o direito à alimentação vai além de ter comida disponível e envolve também a qualidade e a origem dos alimentos.
“O direito à alimentação precisa ser compreendido em duas dimensões. Uma é o direito de estar livre da fome, que é o mais visível, que todo mundo vê. Mas também existe o direito à alimentação adequada, ou seja, a luta para garantir que produtos produzidos localmente, por trabalhadores rurais, comunidades indígenas e comunidades tradicionais, também cheguem à mesa de todos os brasileiros e brasileiras, sem agrotóxicos”, explicou.

O diagnóstico também aponta dificuldades de acesso a alimentos frescos e saudáveis, relacionadas à oferta limitada de produtos nos comércios locais e à necessidade de utilizar transporte público para chegar a estabelecimentos com preços mais acessíveis. O documento reúne ainda recomendações para o poder público, formuladas a partir das demandas apresentadas pelas mulheres participantes da pesquisa.
O diagnóstico completo está disponível neste link.
Agricultura familiar
Depois da roda de conversa, os participantes percorreram trechos do território para dialogar com moradores e apresentar produtos da agricultura familiar. Os alimentos levados pelo MST, foram utilizados no preparo do almoço coletivo.
Segundo Alessandra Farias, a escolha dos produtos também expressa a defesa de outro modelo de produção e distribuição de alimentos. “Toda a base da alimentação está sendo feita com produtos que nós coletamos nos assentamentos e acampamentos da Reforma Agrária, todos sem agrotóxicos. De saladas a legumes e frutas, tudo o que tem é oriundo da agricultura familiar, para a gente mostrar que um outro país é possível”, afirmou a dirigente.

A articulação entre organizações urbanas e rurais também foi destacada por Denilva Araújo, integrante do MPA. Para ela, a união entre os movimentos é fundamental para fortalecer a defesa dos direitos sociais. “Essa aliança entre campo e cidade é estratégica para os movimentos, porque é por meio dessa junção que a gente se fortalece e assegura, de certa forma, os direitos da população, tanto urbana quanto rural”, afirmou Denilva.
Cozinha solidária
Além de receber o almoço coletivo e o curso “Nosso Direito à Cidade”, a Cozinha Popular Mara Maria de Jesus desempenha um papel cotidiano no atendimento aos moradores do Sol Nascente. Adriana Rocha Bandeira, cozinheira do MTD, conta que o trabalho vai além da preparação e da entrega de refeições.
“Aqui a gente não entrega só o prato de comida, a gente acolhe. Porque muitas vezes a pessoa não quer só um prato de comidas, às vezes precisa de um abraço, de uma palavra amiga, de um apoio. E tudo isso a gente faz”, relatou.
Ela também apontou dificuldades para manter o abastecimento da cozinha, especialmente em relação à compra de proteínas. “A nossa luta mesmo é por proteína, porque a última entrega que a gente recebeu aqui foi no mês de maio. A gente está se virando para poder comprar arroz, feijão e tudo que precisa para uma cozinha”, afirmou.
De acordo com a cozinheira, a cozinha prepara entre 300 e 400 marmitas, duas vezes por semana, destinadas aos moradores do próprio território.

A nutricionista e militante do MTD Juliana Gonçalves Machado explica que a iniciativa também busca assegurar a qualidade da alimentação oferecida à comunidade. “A gente não tem alimentos ultraprocessados aqui na cozinha. São alimentos in natura e minimamente processados, de preferência da agricultura familiar. A cozinha vem com esse propósito de fornecer uma alimentação adequada e saudável para essa comunidade, porque todo mundo tem esse direito”, afirmou.
Francisca Dayane, moradora de Samambaia Sul, também destacou a importância da mobilização para as famílias que enfrentam dificuldades para garantir as refeições diárias. “Tem muitas pessoas, inclusive crianças, que não têm o que comer em casa. Por isso, uma mobilização como essa, que oferece alimentação, é muito importante para quem enfrenta a fome no dia a dia”, afirmou.
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