A Assembleia Internacional dos Povos (AIP) lançou, neste sábado (17), o livro “Tirem as Mãos da Ásia: um chamado popular por soberania e solidariedade”, em coletiva de imprensa durante o Fórum Acadêmico do Sul Global (Fasg), em Xangai.
A publicação reúne 33 textos produzidos durante uma conferência realizada em Colombo, no Sri Lanka, em julho de 2026, com 80 delegados de 46 organizações de 17 países, e documenta o alcance do militarismo e da dominação econômica dos Estados Unidos sobre os povos asiáticos.
Assembleia Internacional dos Povos é uma plataforma que reúne mais de 200 organizações populares ao redor do mundo, a exemplo do Instituto Tricontinental e do próprio Fasg.
“Para a Ásia, as questões de desenvolvimento, paz e soberania são inseparáveis da demanda estampada na capa: tirem as mãos da Ásia”, considerou Tings Chak, cocoordenadora do Tricontinental Ásia, durante a coletiva. “É especialmente significativo lançar aqui, onde estamos perguntando como o Sul Global pode se governar e desenvolver suas próprias teorias do desenvolvimento”, afirmou Chak.
O Fórum Acadêmico do Sul Global reúne acadêmicos e representantes de movimentos populares com o objetivo de promover a troca de pensamento e articulação nessa região política.
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Além das bases
Chak destaca que os Estados Unidos mantêm mais de 900 bases militares em todo o mundo, com 40% delas concentradas na Ásia: Japão, Coreia do Sul, Filipinas, Austrália e Golfo Pérsico. Mas o livro argumenta que o militarismo é apenas uma das faces da dominação.
Prachanda, ex-primeiro-ministro do Nepal e autor do texto de abertura, escreve que a soberania econômica pode ser corroída sem que um único tiro atravesse uma fronteira: dívida, condicionalidades do Fundo Monetário Internacional (FMI), coerção tarifária e controle sobre tecnologia têm os mesmos impactos.
Atul Chandra, também co-coordenador do Tricontinental Ásia, reforça que a campanha “Tirem as Mãos da Ásia” não se resume a bases militares estrangeiras: “Estamos falando de soberania sobre as nossas eleições, os nossos recursos e as nossas decisões econômicas”, disse ao Brasil de Fato.
Como exemplo, Chandra cita as pressões dos EUA sobre a política energética da Índia. Em conferência recente em Berlim, o secretário de Estado estadunidense Marco Rubio defendeu o retorno dos “velhos poderes”, criticou Chandra. “Os EUA emitem cartas que são, na prática, ordens: ‘você não pode comprar energia da Rússia’. A Índia precisa cuidar do seu próprio povo, tem seus próprios interesses”, disse.
Militarização no Leste Asiático
Os dois lugares com maior militarização no Leste Asiático são a República da Coreia e o Japão. Segundo dados do Diário Econômico de Seul, com base em fontes do Ministério da Defesa Nacional da República, os Estados Unidos possuem no país 28.500 soldados em um total de 62 bases militares estadunidenses.
Já o Japão, segundo dados levantados pela Nikkei em 2024, possui cerca de 70 bases, com mais de 55 mil soldados norte-americanos.
O arquipélago de Okinawa, que representa apenas 0,6% do território do Japão, possui mais 70% das instalações militares no país. Na cidade de Kadena, 80% do território é ocupado pelas forças militares estadunidenses, com a população comprimida nos 20% restantes, diz Chandra, que visitou o lugar este ano.
“O Japão se diz soberano, mas sua população é comprimida em 20% do território enquanto não tem qualquer direito sobre os militares que ocupam o restante”, disse.
Na Coreia do Sul, o processo de dependência tem raízes no fim da ocupação colonial japonesa: as tropas estadunidenses chegaram ao país menos de um mês após a libertação, em 1945, e permanecem hoje integradas à estratégia militar dos Estados Unidos para toda a Ásia Oriental. Hwang Jeong-eun, secretária-geral do Centro de Estratégia Internacional, denuncia que, na República da Coreia e na Ásia em geral, “as pessoas acham que não é seguro falar livremente” da presença militar.
“Isso destrói muitas possibilidades de que as pessoas possam escolher sua visão no seu país: como querem desenvolver sua economia, como criam a sociedade que querem, do jeito que querem”, diz Hwang.
Ao falar da importância da campanha, ela ressalta o fato de que seja ampla: “Mesmo que a Coreia do Sul consiga retirar as bases estadunidenses, isso não resolve o problema da Ásia como um todo. Precisa ser uma campanha de solidariedade”, disse ao Brasil de Fato.
Terrorismo econômico
Setareh Sadeqi, professora assistente da Faculdade de Estudos Mundiais da Universidade de Teerã, define as sanções estadunidenses como terrorismo econômico. O próprio chefe do Tesouro dos Estados Unidos se gabou publicamente de usar as sanções para pressionar a população iraniana a se revoltar contra o governo do país, diz a professora.
Sadeqi diz ter se inspirado ao encontrar delegados do Japão, da Coreia do Sul e da China em Colombo. “Quando você sente que a sua resistência está isolada, pode perder o ânimo para continuar. Mas, quando você vê que pessoas ao redor do mundo entendem e querem rejeitar essa dominação, é empoderador”, considerou. Para ela, o fórum e o livro são ferramentas para construir uma arquitetura de segurança regional decidida pelos próprios países asiáticos, sem intermediação estadunidense.
Próxima fase
Chandra anuncia que o objetivo da campanha “Tirem as Mãos da Ásia” no futuro é discutir por que os recursos de países asiáticos servem à estrutura militar estadunidense em vez de financiar serviços públicos. “O mesmo dinheiro que serve à estrutura militar estadunidense poderia ser usado para desenvolver estradas e construir escolas para o nosso próprio povo. Por que estamos permitindo que os nossos recursos sirvam a uma estrutura estrangeira que interfere nas nossas eleições e na nossa economia?”, questionou.
À medida que a hegemonia estadunidense se fragmenta, os Estados Unidos recorrem a meios cada vez mais violentos para manter o controle sobre os países da região, elevando o risco de conflitos diretos, denuncia Chandra. A Declaração de Colombo, adotada no último dia da conferência que deu origem ao livro, condensa a aspiração da campanha em uma linha, segundo Chak: “o futuro da Ásia será decidido pelos seus povos”.

