O caso Banco Master protagonizou um momento tenso no debate presidencial da TV Bandeirantes neste domingo (18), o primeiro do segundo turno. Ao responder a uma provocação sobre o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, ex-dono do Master e preso preventivamente desde março, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) atribuiu a ascensão de Vorcaro ao governo anterior e a prisão à sua gestão.
“Você foi feito banqueiro no governo Bolsonaro e vai ser feito prisioneiro no meu governo, e ele está preso”, disse Lula, dirigindo-se ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). “Vocês fizeram ele um banqueiro e eu fiz ele um prisioneiro.”
Durante todo o bloco, Lula insistiu na pergunta sobre o destino do dinheiro negociado entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro para o filme “Dark Horse”, cinebiografia de Jair Bolsonaro. “Você tem que explicar 134 milhões do Vorcaro, que você disse que não pegou e pegou, disse que foi para o fundo e não foi”, afirmou o petista. “O que que você fez com 134 milhões?”
Flávio Bolsonaro não detalhou o caminho dos recursos. Respondeu que o dinheiro foi para “o filme” e disse que a obra trata do “melhor presidente do Brasil que já existiu”. Lula lembrou que um levantamento da agência Aos Fatos identificou ao menos 43 declarações enganosas do senador sobre o caso.
O candidato do PL contra-atacou com acusações a Lula e ao governo, sem apresentar provas. Mencionou um suposto áudio de Vorcaro sobre “R$ 30 milhões para o Instituto Lula, por fora”. Também questionou uma reunião entre Lula, o ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, e o banqueiro. Na semana passada, advogados do grupo Prerrogativas acionaram a Polícia Federal (PF) por suspeita de uma articulação entre Vorcaro e aliados de Flávio Bolsonaro para divulgar, antes do segundo turno, um depoimento com acusações contra integrantes do governo.
Casa, PF e clima tenso
Lula também questionou o patrimônio do adversário. “Eu sou presidente há 12 anos e tenho um apartamento de 190 m² de R$ 1 milhão e meio. Esse cidadão, que ganha o mesmo salário que eu, comprou uma casa de R$ 10 milhões e pagou à vista uma parte dela com o dinheiro do BRB, que está metido no caso do banco do Vorcaro”, disse. O Banco de Brasília (BRB) é investigado por operações com o Master.
Flávio Bolsonaro acusou o governo de usar “um pedacinho da Polícia Federal” para escolher “alvos pré-determinados”. Disse ainda que a prisão de Vorcaro foi obra do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), e não de Lula. O senador citou o ex-ministro da Casa Civil, Rui Costa, e o senador Jaques Wagner (PT-BA) como envolvidos com o banqueiro, também sem apresentar provas.
Lula, por sua vez, afirmou que o dinheiro de Vorcaro financiou festas com a presença de “senadores, ministros”, sem citar nomes, e disse que “tudo isso vai ter que ser apurado”.
O embate teve troca de ofensas. Flávio Bolsonaro chamou Lula para perto de seu púlpito, e o presidente recusou: “Quero distância com miliciano”. O senador respondeu: “Estou sem carteira aqui, você não vai me roubar não”. A mediação pediu que a plateia não se manifestasse.
O que dizem as investigações
Documentos da PF tornados públicos pelo STF descrevem Flávio Bolsonaro como “interlocutor direto” de Vorcaro nas negociações de US$ 24 milhões (cerca de R$ 134 milhões) para o filme. Segundo a PF, ele participou de cobranças de repasses, do agendamento de encontros e do acompanhamento das gravações.
Na sexta-feira (17), a PF apontou uma “divergência contábil severa” de US$ 9,5 milhões (cerca de R$ 48,1 milhões) nas remessas. Mais de US$ 12,3 milhões saíram do país rumo ao fundo Havengate, no Texas, administrado pelo advogado de Eduardo Bolsonaro. A entrada documentada no Brasil foi de US$ 2,8 milhões. A corporação investiga se o filme serviu de cobertura para ocultação e desvio de recursos e pediu ao ministro André Mendonça a prorrogação do inquérito por 90 dias.
O liquidante do Banco Master, Eduardo Bianchini, informou que não há registro de patrocínio do banco ao filme. Os repasses partiram da Entre Investimentos, empresa ligada a Vorcaro, cujo dono fechou delação premiada. A assessoria de Flávio Bolsonaro afirma que ele apenas buscou o patrocínio e não participou da efetivação dos pagamentos.

