Análise conjuntural

A crise é do capital, mas é a extrema direita quem está capitalizando o mal-estar do povo, diz dirigente do MST na China

Rossetto defende que governos populares democráticos devem ter como resultado principal acumular força política popular

Neuri Rossetto, dirigente nacional do Movimento de Trabalhadores Rurais Sem Terra, durante a abertura do Fórum Acadêmico do Sul Global, em Xangai. 17 de outubro de 2026
Neuri Rossetto, dirigente nacional do MST, durante a abertura do Fórum Acadêmico do Sul Global, em Xangai | Crédito: Mauro Ramos/Brasil de Fato

“A crise do capital é real, mas quem hegemonizou o radicalismo foi a extrema direita, capitalizando o mal-estar com ódio, xenofobia e punitivismo”, disse Neuri Rosseto, dirigente nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, em apresentação ao Fórum Acadêmico do Sul Global (Fasg), em Xangai, realizado nos dias 17 e 18.

O dirigente abordou os desafios dos governos populares, principalmente no contexto latino-americano. Neuri afirmou que uma gestão popular “governa uma forma estatal desenhada para reproduzir a ordem, não para transformá-la”.

Ainda que um governo popular possa ser competente, diz Neuri, ele encontra sempre três limites: um orçamento comprometido pela dívida e pelas transferências ao capital; o fato de o Judiciário, o Ministério Público e as agências reguladoras terem autonomia relativa e a usarem contra o governo; e o fato de que a polícia, as Forças Armadas e o sistema penal “não sejam neutros”.

“A questão central não é eficiência administrativa do Estado burguês. A contradição que todo governo popular-democrático carrega é: governar um Estado, ter base popular e operar sob uma correlação de forças que lhe é desfavorável”, disse.

O fato de a extrema direita ser capaz de capitalizar tem a ver, em parte, com o abandono, por parte de partidos progressistas, de algumas tarefas históricas que o dirigente resume em: produzir intelectuais orgânicos e consciência de classe, construir estrutura organizativa e formar quadros.

Os partidos progressistas da América Latina, “ao exclusivizar resultados eleitorais, praticamente abandonaram esse legado”. O vazio “foi ocupado pelos movimentos populares, com suas fragilidades, contradições e suas dificuldades em dar unidade às bandeiras emancipatórias”, afirmou o dirigente do MST.

O Brasil diante da conjuntura eleitoral

Também presente no Fasg, o coordenador para a América Latina da Associação Popular para a Cooperação Internacional, Luiz Zarref, participou da coletiva de imprensa do fórum para compartilhar uma análise de conjuntura do Brasil com mídias de vários países do Sul Global, abordando “quem são os donos dos meios de produção no Brasil, quem paga por essa propriedade e que força organizada pode mudar isso”.

No Brasil, uma classe rentista concentra o controle do orçamento, da terra e da autoridade monetária, e “bloqueia qualquer transformação do modelo agro-minero-exportador”, disse Zarref. Em 2024, os juros consumiram 8,05% do PIB, transferindo entre R$ 750 bilhões e R$ 800 bilhões por ano ao capital financeiro. Na terra, a lógica se repete: 1% dos proprietários controla 47,6% da área rural, e tradings estrangeiras “comandam os gargalos do complexo exportador”.

Em 2023, mais saiu do que entrou investimento estrangeiro no Brasil, e “a mineração deixa seus custos nos territórios, como os 272 mortos de Brumadinho“, denunciou o coordenador. O modelo se sustenta na precariedade do trabalho: a informalidade atinge 38,2% dos ocupados, e a diferença entre salário e sobrevivência “é coberta pelo trabalho de cuidado, feito sem remuneração, sobretudo pelas mulheres negras”.

Sobre o panorama eleitoral, Zarref apontou que Flávio Bolsonaro superou a votação do pai em 98% dos municípios, mas cresceu mais onde o agronegócio pesa mais: três pontos nas cidades menos dependentes do setor e 7,1 nas mais dependentes, “sobretudo onde grãos, gado, grandes propriedades e crédito rural organizam a vida local”.

“Um governo eficiente que enfraquece o campo popular prepara sua própria derrota, e a derrota seguinte”, afirma Rosseto. “Governar bem, num governo popular-democrático, não é administrar o Estado burguês com competência: é usar cada espaço que ele abre para acumular força popular fora dele, mantendo aberta a perspectiva de ruptura, tendo em vista o objetivo estratégico da emancipação humana e social.”

Esta edição do Fórum Acadêmico do Sul Global recebeu cerca de 270 representantes de partidos políticos, movimentos populares e centros de pesquisa de 35 países e regiões sob o tema “Partidos Políticos do Sul Global: Governança e Modernização”.

Editado por: Rafaella Coury

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