O acordo para a venda de diesel russo aos Estados Unidos revela como os interesses energéticos podem abrir brechas em uma disputa geopolítica. Enquanto Washington busca alternativas para conter os custos dos combustíveis, Moscou vê a oportunidade de ampliar suas exportações e questionar o isolamento econômico imposto pelo Ocidente no contexto da guerra na Ucrânia. A parceria, no entanto, continua limitada por sanções e interesses divergentes.
O acordo entre os presidentes Vladimir Putin e Donald Trump, sobre o fornecimento de diesel russo ao mercado global, anunciado em 9 de outubro, foi classificado por Moscou como “sem precedentes” ao flexibilizar sanções contra a Rússia.
Após o anúncio de Trump sobre o “acordo do diesel” com Moscou, as exportações russas de combustível foram oficialmente retomadas. Na última quinta-feira (15), foi registrado o primeiro carregamento de diesel russo de aproximadamente 40.000 toneladas, que partiu da região de Primorsk ao Marrocos.
A medida ocorre em meio à alta dos preços dos combustíveis nos Estados Unidos, às vésperas das eleições legislativas de novembro. Trump apresenta a liberação do diesel russo como uma alternativa para ampliar a oferta e aliviar os custos para consumidores, agricultores e transportadores.
Ao mesmo tempo, a autorização temporária para transações envolvendo diesel russo cria uma oportunidade para o Kremlin recuperar espaço comercial e ampliar suas receitas com a exportação de combustíveis, além de abrir um precedente para uma maior cooperação com os EUA.
Em entrevista ao Brasil de Fato, o analista-chefe do Fundo Nacional de Segurança Energética da Rússia, Igor Ushkov, aponta que o acordo sobre o diesel é a primeira materialização da visão da Rússia de se manter aberta à cooperação econômica com os EUA.
“Em suas relações bilaterais com os Estados Unidos, a Rússia há muito promove a ideia de que a economia pode ser lucrativa para ambos os países. Que a cooperação é mutuamente benéfica. E a Rússia está propondo separar efetivamente a questão ucraniana e iniciar a cooperação econômica sem interrompê-la. E vemos que o acordo sobre o diesel é o primeiro caso em que isso foi implementado”, afirma.
A disposição da Rússia de ampliar a cooperação econômica com os EUA foi confirmada na prática nesta sexta-feira (16) pelo representante especial da presidência russa para Investimentos e Cooperação Econômica com Países Estrangeiros, Kirill Dmitriev, durante a sessão plenária do Fórum Internacional “Semana de Energia Russa”. Segundo ele, diversos projetos estão sendo discutidos entre a Rússia e os EUA e serão implementados, sendo o acordo sobre o diesel apenas um deles.
“Confirmamos que, sob a direção do presidente russo Vladimir Putin, diversos projetos econômicos e de investimento estão sendo discutidos com os EUA e serão implementados. O acordo sobre o diesel é um desses projetos, sem dúvida extremamente importante não apenas para os Estados Unidos, mas para o mundo todo”, afirmou Dmitriev.
Ao comentar os impactos do acordo, o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, afirmou na última quinta-feira (15) que a retomada das exportações também ocorre em meio à pressão sobre o mercado internacional de energia, agravada pelas restrições impostas ao petróleo e aos derivados russos. No entanto, ele reconhece que a retomada das exportações do diesel russo não é suficiente para a plena estabilização dos mercados globais.
“De fato, os mercados de energia, os mercados de petróleo, estão atualmente sob muita tensão globalmente. E muitos fatores contribuem para esse estado negativo dos mercados de energia, incluindo, é claro, a incapacidade da Rússia de exportar volumes significativos de seu petróleo e derivados. Agora, quantidades consideráveis de diesel estão sendo liberadas. Esse diesel começou a entrar nos mercados globais, e isso terá um certo efeito positivo na estabilização dos mercados de petróleo, embora não os estabilize completamente”, destacou Peskov.
Brecha nas sanções anti-Rússia
A flexibilização, no entanto, não significa o fim das sanções contra o setor energético russo. A autorização para negociar diesel abre uma brecha nas restrições dos EUA, mas ainda há obstáculos para ampliar essa cooperação, já que grandes produtores russos continuam sob sanções. Para Moscou, o acordo pode ser um primeiro passo para negociar o alívio de outras restrições, inclusive as que afetam o transporte marítimo de petróleo e derivados.
Além disso, além dos impactos para o mercado global, o acerto possui uma dimensão política. Por um lado, a administração de Donald Trump prevê ganhos eleitorais para as eleições legislativas em novembro, caso consiga estabilizar o preço dos combustíveis no país. Por outro lado, a Rússia abre uma janela de oportunidade de expandir a flexibilização em relação às sanções ocidentais contra o país.
De acordo com o analista-chefe do Fundo Nacional de Segurança Energética da Rússia, Igor Ushkov, isso está relacionado com os objetivos da Rússia na guerra da Ucrânia, flexibilizando as sanções e, ao mesmo tempo, fazendo com que os EUA exerçam maior pressão sobre Kiev.
“Em troca, a Rússia está pedindo o alívio das sanções. E, idealmente, claro, uma pressão sobre a Ucrânia para que ponha fim a esse conflito. E vemos que o acordo sobre o diesel implica ambas as vertentes. Por um lado, vemos que a divisão do Departamento do Tesouro dos EUA já emitiu uma licença geral permitindo a importação de petróleo russo para os EUA. Isso levanta a questão de como esse petróleo precisa ser transportado e, consequentemente, discute-se a flexibilização das sanções à frota utilizada para transportar petróleo e derivados russos”, argumenta.
As projeções e limitações do acordo diesel
A Rússia segue entre os principais exportadores mundiais de diesel. Em 2025, o país respondeu por cerca de 3% do consumo global e quase 10% do comércio internacional do combustível, ocupando a segunda posição entre os exportadores, atrás dos Estados Unidos e à frente da Arábia Saudita.
Apesar da guerra na Ucrânia e das sanções ocidentais, o volume exportado permaneceu praticamente estável. Tanto em 2021, antes do conflito, quanto em 2025, as vendas externas russas ficaram em torno de 40 milhões de toneladas anuais. O que mudou foi o destino dos embarques: Turquia, Brasil e países africanos ganharam espaço, enquanto a União Europeia e o Reino Unido deixaram de ser mercados centrais. Também foram mantidos os fluxos terrestres para a Ásia Central e a Mongólia.
Em abril de 2026, a Rússia dispunha de cerca de 3 milhões de toneladas de diesel por mês para exportação. Em setembro, porém, esse volume havia caído para entre 300 mil e 350 mil toneladas mensais. A redução foi provocada por ataques ucranianos a refinarias, variações sazonais na demanda e dificuldades de abastecimento do mercado interno.
Com isso, o valor teórico de todo o acordo de diesel é de aproximadamente US$ 7 bilhões a preços atuais, com volumes de vendas de cerca de 5 milhões de toneladas de diesel ao longo de seis meses. Isso representa aproximadamente metade da receita da Rússia com exportações de petróleo e derivados em agosto de 2026.
O acordo inédito, no entanto, tem limites. Apesar da flexibilização das sanções estadunidenses, as sanções europeias ao diesel russo permanecem em vigor, o que significa que os custos de transporte continuarão altos. Sem as sanções dos EUA, a Rússia poderia usar embarcações que não fazem parte da frota paralela, usada por Moscou para contornar as restrições ocidentais, o que deveria reduzir um pouco os custos de frete. No entanto, pelas restrições europeias, ainda estariam proibidas de usar os navios com carga russa de combustível.
Para Moscou, a oportunidade vai além das vendas, pois, mesmo com restrições à produção e ao transporte, o país mantém capacidade de competir no mercado global de energia e reforça o seu lugar estratégico como fornecedor global.
De acordo com o analista Igor Ushkov, ainda fica a dúvida sobre a permanência a longo prazo do acordo. De acordo com ele, é preciso entender que o atual alívio das sanções é temporário. Diante da necessidade dos EUA de reduzir os preços do diesel, principalmente no mercado interno, fica a pergunta sobre o futuro do acordo após as eleições.
“A grande questão é se aprofundaremos nossa cooperação ou se os americanos recuarão. Estrategicamente, eles querem controlar a exportação global de petróleo, derivados e gás. E, para eles, a Rússia é essencialmente tanto uma concorrente quanto um ator incontrolável para Washington. Portanto, ainda haverá certa pressão sobre Moscou”, completa.

