Violência política

Bolsonaristas invadem duas vezes a Universidade Federal de Roraima para destruir denúncias contra Flávio Bolsonaro

Na sexta, deputado e blogueira foram à faculdade de Direito; no sábado, homens armados interrompem aula

Homem armado interrompe aula do Centro de Ciências Humanas da Universidade Federal de Roraima.
Homem armado interrompe aula do Centro de Ciências Humanas da Universidade Federal de Roraima | Crédito: Reprodução

Em Roraima (RR), o estado com maior percentual de votos em Flávio Bolsonaro (PL-RJ) no primeiro turno, estudantes e professores da Universidade Federal de Roraima (UFRR) estão sendo alvo de ataques de bolsonaristas.

Na noite de sexta-feira (16), a blogueira Athaally e o deputado estadual Marcinho Belota (PL-RR) invadiram a Faculdade de Direito e rasgaram material que os alunos prepararam com várias informações sobre o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro. No sábado à tarde (17), cinco homens, entre eles um supostamente armado, invadiram a Faculdade de Direito e o Centro de Ciências Humanas (CCH), destruindo materiais e interrompendo uma aula de sociologia.

O Ministério Público Federal em Roraima (MPF-RR) informou que recebeu a denúncia e que a “manifestação encontra-se em tramitação interna para análise e posterior distribuição ao ofício competente”.

A reitoria da UFRR repudiou os dois ataques. “A Universidade é, por sua própria natureza, um espaço de liberdade, de estímulo ao pensamento crítico, de pluralidade, diálogo e respeito às diferenças. Divergências de pensamentos, posicionamentos políticos ou ideológicos fazem parte da vida acadêmica de uma instituição que respeita a democracia. O que não pode ser admitido, sob qualquer justificativa, é que essas divergências se transformem em invasão de espaços, intimidação, destruição de bens ou qualquer forma de violência ou desrespeito”, disse em nota, informando que vai adotar “todas as medidas administrativas, legais e judiciais cabíveis para a completa apuração do ocorrido e a responsabilização dos envolvidos”.

O material, financiado pelos próprios alunos, mostrava casos de Flávio Bolsonaro, como a defesa do policial militar que matou a menina Ana Clara Machado em Niterói (RJ), as investigações sobre seu vice ou o caso do apoio à retirada do status de padroeira à Nossa Senhora Aparecida. Nas ações, os bolsonaristas alegavam que os materiais traziam fake news.

Como aconteceram as invasões

Na sexta, a blogueira, que foi derrotada nas eleições, e o deputado reeleito pegaram os alunos de surpresa, que evitaram reagir, com medo, enquanto Athaally rasgava o material e jogava no lixo, como mostra o vídeo gravado.

No sábado à tarde, cinco homens entraram, de maneira truculenta, primeiro na Faculdade de Direito, depois no CCH, destruindo os materiais e interrompendo a aula da professora Joani Silvana Capiberibe de Lyra.

“Era aula de Sociologia Urbana. A turma tem apenas oito alunos, mas no sábado foram apenas cinco. Eu vi homens de porte forte em frente ao CCH. Já achei estranho, mas, no primeiro momento, não relacionei com o ocorrido na sexta-feira. Quando eles entraram, parei a explicação da aula e fui perguntar o que eles queriam. Antes de responderem, vi que estavam arrancando as coisas que estavam no mural do CCH. Eles já vieram respondendo alterados. Meus alunos escutaram e vieram ao nosso encontro. Neste momento, solicitei que chamassem uma professora que estava trabalhando em sua sala e pedi que filmassem aquela situação, já que eles a estavam fazendo. Eles estavam agressivos com todas nós e, quando meu aluno venezuelano falou alguma coisa, um deles respondeu que não era nem para ele estar aqui”, relatou a professora ao Brasil de Fato.

Um dos bolsonaristas, Cleiton Lourenço, gravou o episódio, em que eles também arrancam uma bandeira do movimento “Direito UFRR Antifascista”. Nas redes, Lourenço afirma que fez a ação por “propaganda irregular”.

Há relatos também de que um dos alunos chamou um jornalista no celular e um dos homens mostrou uma arma por baixo da camiseta na cintura, o mesmo que arranca a bandeira. Ele repetia, em vídeo, que eles poderiam entrar ali a hora que quisessem.

Minutos depois, seguiram para a parada de ônibus, onde continuaram provocando as pessoas que chegavam. A Polícia Militar foi chamada e interveio.

Após a destruição dos panfletos, o movimento estudantil está arrecadando doações e pretende imprimir mais materiais para continuar a distribuição.

O Brasil de Fato procurou a blogueira Athaally e o deputado Belota para comentar os fatos, mas não obteve resposta até o momento. Qualquer posicionamento, o texto será atualizado.

71% dos votos para Flávio Bolsonaro

Proporcionalmente, Roraima foi o estado que mais deu votos para o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, com 71,06% dos votos válidos. Flávio venceu em 14 dos 15 municípios do estado. O único em que perdeu para Lula foi Uiramutã, no norte, cidade proporcionalmente mais indígena do país, com 68,95% dos votos no presidente.

O senador bolsonarista recebeu 231.322 votos no primeiro turno de 2026, melhor resultado que seu pai. Em 2022, Jair Bolsonaro recebeu 207.587 votos em Roraima. Em 2018, foram 174.306 votos no estado.

Para governador, logo no primeiro turno, o estado elegeu o bolsonarista Arthur Henrique (PL), com 69,01% dos votos. Para o Senado, Nicoletti, também do PL, teve 138.269 votos (22,7% dos votos válidos), e Teresa Surita (MDB), 117.270 votos (19,2% dos votos válidos). Ambos chegam pela primeira vez ao Senado.

Editado por: Rafaella Coury

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