A Casa Baka é mais um dos endereços da Cidade Baixa que joga toda a sua alma e ações na cultura. Vive recomeçando suas etapas de vida em várias frentes. Artes plásticas, música, dança, cinema, oficinas educativas e por aí afora. Com espírito sempre girando, olhando para a frente, o velho casarão de dois pisos na rua da República, 139, está entrando em fase nova, com foco total nas artes plásticas desde a noite do dia 16/10 quando inaugurou a exposição No fundo da superfície, uma mostra totalmente diferente de tudo que já se viu em Porto Alegre (RS) e que articula relações entre desejo, intimidade e as atuais formas de mediação do olhar.
O casarão, onde está instalada, foi feito pelo arquiteto italiano Armando Boni, entre 1929 e 1931, mesmo autor dos prédios do Auditório Araújo Vianna e da Livraria do Globo, no Centro Histórico, entre tantas outras. Foi o primeiro a usar concreto armado em construções na Capital Gaúcha.

Nas últimas semanas, o espaço passou por uma recauchutagem geral, segundo informa Diego Groisman, diretor do espaço e empreendedor cultural. “Agora está uma lindeza, uma beleza, digna para todas as atividades que pretendemos realizar nos próximos tempos”, garante.
O lugar existe desde 1993 e Diego está ali como comandante desde 2005, sempre inovando e se reinventando para tornar o local mais acessível ao mundo cultural. Neste período, ele viveu uma leve interrupção para ser diretor geral da Casa da Cultura Mário Quintana entre 2020/23. Fora isso, é dedicação total ao casarão, que tem uma grande variedade de salas para diversas atividades, inclusive um café e salas de música. Até o banheiro e os vestiários ganham contornos artísticos.
Nova identidade visual
Esta nova etapa de funcionamento vem também com a renovação de sua identidade visual, assinada pelo designer gráfico, diretor de arte e pesquisador Rafael Maia, doutorando em Design pela Universidade do Estado de Minas Gerais. Na Casa Baka, ele se inspirou no sistema visual flexível e na arquitetura totalmente própria daqueles anos de 1930, onde Porto Alegre recebia várias correntes de imigrantes europeus, fugindo das guerras ou das crises.
Foi no sobrado eclético/neoclássico e na paleta cromática do edifício que Maia retirou a linguagem da nova marca. A identidade assume um caráter cambiante e flexível, com diferentes combinações que preservam a unidade visual sem limitar suas possibilidades de aplicação.
E o nome Baka de onde vem? Vem do sufismo (com u mesmo), significando dimensão mística, espiritual e esotérica do islamismo, cujo objetivo é buscar uma experiência direta, pessoal e interior, purificando a alma e eliminando o ego. Ou, conforme Diego, significa sempre recomeço para o grupo que ali trabalha.

Junto com essa novidade, abriu a uma exposição e elaborou uma grade de programação que inclui oficinas, cursos e encontros gratuitos, além de chamadas abertas para a exposição e o espaço. Está com as suas redes sociais a mil para promover a nova fase, com o objetivo de executar o plano plurianual contemplado pelo edital de fomento a ações continuadas em artes visuais, com financiamento da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB) e Pró-Cultura RS. Depois desta, serão mais duas exposições, conforme estabelece o edital.
A vitória no edital com nota máxima de 9,8, a mais alta do Brasil, clareou os caminhos da casa, que sempre viveu contando dinheiro para fazer as suas coisas e pagar as suas contas. Sobrevive com aluguel de salas, alunos, café e atividades artísticas públicas.
Uma exposição especial
Até 20 de dezembro, Casa Baka recebe a exposição “No fundo da superfície”, que reúne obras do artista, professor e pesquisador de Santa Vitória do Palmar, Lauer Santos, e artistas convidados de diferentes gerações, como Cris Bierrenbach, Mariana Lemmertz e Rafa Curtinovi. As produções destes artistas estabelecem diálogos com a pesquisa de Lauer.
Com curadoria de Andrei Moura e Diego Groisman, a exposição parte de um conjunto de trabalhos de Lauer sobre intimidades, olhares e desejos. Essa estrutura aparece em sua recente série “Vestiários”, composta por pinturas que capturam a atmosfera destes espaços, nos quais as fronteiras entre público e privado são diluídas e as interações pessoais ganham outros contornos; e também na série “Reflexos”, que explora a aparição de formas em superfícies especulares.
Para além de pensar a superfície em oposição ao que está em profundidade, a mostra articula relações e tensionamentos sugeridos pelos termos, considerando essas dimensões como constituintes da experiência dos corpos, da subjetividade e das relações humanas.
Integram “No fundo da superfície” trabalhos realizados em múltiplas linguagens, abrangendo pinturas, esculturas, fotografias, impressos e vídeos. A exposição aborda ainda as relações afetivas na contemporaneidade a partir de situações de mediação tecnológica, como os aplicativos de relacionamento, considerando diferentes situações e marcadores sociais, especialmente as experiências de pessoas LGBTQI+.
Na data da abertura (16) foram apresentadas performances de artistas convidados e, ao longo da vigência da exposição, o projeto terá uma programação paralela, com visitas mediadas, bate-papo com artistas e curadores, além de oficinas gratuitas. O local abre de quarta a sábado, das 15h às 19h
Quem são os artistas
Lauer Santos nasceu em 1969. É graduado em Pintura pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel) em 1992, mestre em Artes Visuais pela Ufrgs (1997) e doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP (2003). Sua trajetória artística se iniciou na década de 1980, marcada pela pintura, instalação e investigação das relações entre imagem, linguagem e visibilidade.
Em 1997, recebeu o primeiro lugar no VIII Salão de Pintura Cidade de Porto Alegre, com a obra “Sobre sua própria imagem. Em 2000, foi artista residente e professor convidado da École d’Art du Valais, em Sierre, na Suíça.
Sua produção transita entre pintura, instalação e fotografia, com trabalhos que investigam representação, autorretrato, espaço urbano e regimes de visibilidade. Paralelamente à produção artística, atua como professor, pesquisador e curador. Foi diretor do Museu de Arte Leopoldo Gotuzzo (MALG), em Pelotas, onde também atuou no desenvolvimento de práticas curatoriais e projetos de pesquisa e extensão.
Atualmente, é professor titular do Centro de Artes da UFPel, nas áreas de pintura, arte contemporânea, curadoria e semiótica. Em sua produção recente, retoma a pintura de espaços cotidianos, como banheiros e vestiários, explorando a presença do corpo por meio de ambientes, objetos, vestígios e situações de visibilidade.
Serviço
Cris Bierrenbach (São Paulo, 1964) é fotógrafa e artista visual. Atuou como repórter fotográfica da Folha de São Paulo e da Revista da Folha, colaborando com importantes publicações brasileiras.
Sua produção viaja entre fotografia, instalação, vídeo e performance, com participação em exposições no Brasil e no exterior, incluindo instituições como a Maison Européenne de la Photographie, em Paris, o Institut Valencià d’Art Modern, na Espanha, o Stedelijk Museum het Domein, na Holanda, e a 5ª Bienal Internacional de Fotografia e Artes Visuais de Liège, na Bélgica. Suas obras integram acervos de museus do Brasil e exterior.
Mariana Lemmertz (Novo Hamburgo, 2000) vive e trabalha em Porto Alegre. É bacharela em Artes Visuais pela Ufrgs (2025). Participou de exposições, como a “1ª Bienal Black Brazil Art” (2019/2020), “Ilustraê!” no Museu de Arte Contemporânea do RS em 2023, “À beira do Dilúvio” (Ufrgs, 2024), “Dedos Cruzados” (Casa de Cultura Mario Quintana, 2025) e “Tenho tesão em ser artista” (Pinacoteca Barão de Santo Ângelo, 2026).
Em 2024, realizou sua primeira exposição individual, “Zona de(s) Conforto”, no Espaço Ado Malagoli. Foi premiada no VI Concurso de Imagens Digitais e Fotográficas Águas do Mundo, do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da Ufrgs, e selecionada para o 24º Salão de Artes Plásticas da Câmara Municipal de Porto Alegre. Em 2026, integrou a equipe educativa da 14ª Bienal do Mercosul. É cofundadora do projeto “Atelier de Segunda”, vinculado ao Instituto de Artes da Ufrgs.
Rafa Curtinovi (Porto Alegre, 2004) é artista visual e graduando em Artes Visuais na Ufrgs. Sua produção transita entre instalação, escultura e pintura, investigando as nuances entre dominação e docilidade na construção da identidade queer-masculina.
Em 2026, participa da exposição coletiva “O Último Milímetro Antes do Beijo”, no Espaço Força e Luz, em Porto Alegre, onde também integra o 3º Atelier Aberto como artista-residente. Em 2025, participou das exposições “Em Pele De”, no Espaço Força e Luz, e “Tenho Tesão em Ser Artista”, na Galeria da Pinacoteca Barão de Santo Ângelo, além da exposição digital “Pele-Corpo-Pele”, do projeto Ars Sexualis.
A paixão pela Casa Baka
Diego Groisman (Porto Alegre, 1979) é curador, historiador da arte, tradutor e produtor cultural e um apaixonado pelos projetos da Casa Baka. Tem uma equipe de apoio muito boa, segundo suas palavras. Willian Varela é o responsável pela música e pelo Studie Musique, que conta com seis professores; Andrei Moura, atuante em oficinas educativas, e Andrei Charlene Cabral, curadora da casa.
Doutor em Artes Visuais pela Ufrgs, Diego coordena desde 2005 a Casa Baka. “É nosso espaço independente dedicado à arte contemporânea em diálogo com diferentes segmentos artísticos”, garante. Foi idealizador e cocurador da mostra CLAC — Circuito de Arte Contemporânea na América Latina, contemplada com o Prêmio Açorianos na categoria Exposição Coletiva em sua primeira edição. Em 2020, recebeu o Prêmio Açorianos Incentivo Jovem Curador.
A primeira ligação com artes de Diego Groisman foi no grupo Falos & Stercus, fundado em 1991. O nome foi inspirado em duas ideias de fertilidade: o falo (símbolo dos rituais dionisíacos e do teatro grego antigo) e o esterco (o adubo que nutre e dá vida às plantas, remetendo também a uma tese de Friedrich Nietzsche sobre a essência dionisíaca da arte). Atuou entre 1993 e 1998 no grupo, “período que joguei e tracei minha vida para as artes”.
O grupo começou com teatro de rua e evoluiu para montagens radicais, experimentais e provocadoras, envolvendo erotismo, agressividade, elementos rituais e forte interação com o espaço urbano,chegando a usar rapel e performances em locais como o Arroio Dilúvio. Em 2016, após deixar a ocupação cultural no Hospital Psiquiátrico São Pedro, o grupo passou a atuar como Teatro da Crueldade.

