Dívida quitada

Com salário de senador, Flávio Bolsonaro levaria ao menos 15 anos para pagar mansão de R$ 6 milhões citada por Lula em debate da Band

PF investiga financiamento de R$ 3,1 milhões do BRB, quitado em três anos; defesa diz que operação foi legal

Flávio Bolsonaro (PL-RJ)
Flávio Bolsonaro (PL-RJ) | Crédito: Carlos Moura/Agência Senado

A mansão do senador e candidato à presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em Brasília foi um dos assuntos abordados no debate da Band deste domingo (18). Ao comparar o próprio patrimônio ao do adversário, o presidente Lula (PT) questionou a origem dos recursos usados na compra do imóvel. “Esse cidadão, que ganha o mesmo salário que eu, comprou uma casa de R$ 10 milhões.”

O tema surgiu com uma pergunta do petista. “Mas me explica como é que você comprou uma casa de R$ 10 milhões com salário de senador?”. Flávio Bolsonaro respondeu que comprou o imóvel “com trabalho”.

Lula, então, usou a própria situação como parâmetro. “Eu sou presidente há 12 anos e tenho um apartamento de 190 m² de R$ 1,5 milhão”, afirmou. Na mesma fala, Lula relacionou a compra da mansão do adversário ao BRB, banco investigado no caso Master.

O imóvel, no Lago Sul, bairro nobre da capital federal, custou R$ 5,97 milhões, um pouco abaixo do valor mencionado por Lula. Uma simulação feita pelo Brasil de Fato com base no Portal da Transparência do Senado mostra que, se dependesse apenas do salário de senador, Flávio Bolsonaro levaria cerca de 15 anos para pagar a casa se guardasse cada centavo do que recebe. O cálculo desconsidera juros, despesas pessoais e outras fontes de renda.

Segundo os dados de remuneração do candidato à presidência, ele recebeu cerca de R$ 2,9 milhões líquidos em salários e subsídios entre fevereiro de 2019, ao completar o primeiro mês de mandato no Senado, e setembro de 2026. Em 92 meses, isso representa uma média de cerca de R$ 31,6 mil por mês. O valor da mansão equivale a mais que o dobro de tudo o que ele teria recebido como senador em quase oito anos. O último salário líquido recebido por Flávio Bolsonaro foi de R$ 35.187,20.

O imóvel foi comprado em 2021. Na ocasião, o senador e a esposa, a cirurgiã-dentista Fernanda Bolsonaro, deram uma entrada de R$ 2,87 milhões, valor que corresponde a cerca de sete anos e meio do salário líquido médio de Flávio Bolsonaro no Senado. O restante, R$ 3,1 milhões, foi financiado no Banco de Brasília (BRB) em 360 parcelas, com prazo de 30 anos. A dívida, porém, foi quitada em 2024, três anos depois da compra. O valor financiado equivale a pouco mais de oito anos de salário líquido do parlamentar.

Investigação da PF

A Polícia Federal (PF) investiga as condições do financiamento. A apuração foi revelada pelo jornal O Globo e é um dos focos do inquérito da Operação Compliance Zero, que investiga o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e a relação do Banco Master com o BRB.

De acordo com as reportagens, o contrato previa juros de 3,71% ao ano, abaixo da média de cerca de 4,85% praticada pelo próprio BRB naquele período. As supostas irregularidades foram apontadas por uma auditoria independente que o banco contratou depois da mudança em sua diretoria, e o relatório foi entregue à PF em fevereiro. Quando o contrato foi assinado, o BRB era presidido por Paulo Henrique Costa, preso neste ano no âmbito da Compliance Zero.

O financiamento já havia sido questionado na Justiça em 2024, em ação popular movida pela deputada federal Erika Kokay (PT-DF). Ela sustentava que o empréstimo foi concedido em desacordo com as regras internas do banco e que a renda informada pelo casal não seria suficiente para a operação.

Quando a compra veio a público, em 2021, Flávio Bolsonaro declarou renda mensal de R$ 56 mil, vinda do salário no Senado e de outras fontes, e afirmou ter capacidade financeira para arcar com o financiamento. Em vídeo divulgado à época, disse que a transação era legal e resultado da venda do imóvel onde morava e da participação em uma loja de chocolates.

Após a quitação, em 2024, o senador afirmou em nota à imprensa que, além da atividade parlamentar, é “empresário e advogado” e que seus recursos são lícitos e “fruto do suor de meu trabalho”. Questionada naquela ocasião sobre quais seriam os clientes e as atividades empresariais do parlamentar, a assessoria não respondeu. Em novembro de 2024, o jornal O Globo identificou ao menos dez ações em que Flávio Bolsonaro atua como advogado no Superior Tribunal de Justiça (STJ) e no Supremo Tribunal Federal (STF).

Sobre a investigação da PF, a defesa do senador afirmou que a regularidade do empréstimo “já foi atestada judicialmente, com decisão transitada em julgado”. Segundo a nota, a Justiça concluiu que a operação “não trouxe risco ou prejuízo ao banco”, tratando-se de “operação legal, corriqueira e que já foi integralmente quitada”. 

Patrimônio declarado

A mansão também puxou o crescimento do patrimônio que Flávio Bolsonaro declara à Justiça Eleitoral. Em 2026, ao registrar a candidatura à Presidência, ele declarou R$ 8.186.555,83 em bens, um aumento de R$ 6.444.797,68 em relação a 2018, quando informou R$ 1.741.758,15 ao concorrer ao Senado. 

Além da mansão, avaliada em R$ 6,2 milhões na declaração, o senador informou R$ 1 milhão em um fundo de investimentos, R$ 568,7 mil em conta bancária, R$ 103,7 mil em poupança e um automóvel de R$ 133 mil. 

Editado por: Rafaella Coury

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