O ministro das Relações Exteriores da Rússia, Serguei Lavrov, visitou o Irã nesta segunda-feira (19) e se reuniu com o chanceler iraniano, Abbas Araghchi, para discutir os esforços para reduzir a tensão no Oriente Médio.
Após o encontro bilateral, os dois ministros concederam uma coletiva de imprensa. Durante a reunião, Lavrov e Araghchi discutiram a cooperação econômica e nuclear, a colaboração multilateral, a crise na Ucrânia e a estabilidade do mercado de energia.
Lavrov destacou que a Rússia não pretende abandonar seus acordos com o Irã nas áreas econômica e nuclear. “Nossos especialistas estão retornando gradualmente à Usina Nuclear de Bushehr”, afirmou o ministro.
Além disso, ele observou que a Rússia conta com a presença do presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, na cúpula do Fórum dos Países Exportadores de Gás, que será realizada em Moscou em 27 de outubro.
A Rússia e o Irã também concordaram em fortalecer a cooperação em fóruns multilaterais. “Tanto no âmbito das Nações Unidas quanto por meio da Organização de Cooperação de Xangai, do Brics, da União Econômica Eurasiática e da Organização de Cooperação Islâmica”, disse Lavrov.
A viagem aconteceu um dia depois da visita do ministro russo ao Bahrein, onde participou da nona reunião ministerial do Diálogo Estratégico Rússia-Conselho de Cooperação do Golfo (CCG). Durante o encontro, os líderes do CCG pediram à Rússia que usasse sua influência sobre o Irã para que este se abstivesse de atacar seus vizinhos.
Alerta sobre novos ataques ao Irã
A última vez que os dois ministros se encontraram pessoalmente foi em 24 de setembro, à margem da semana de alto nível da 81ª sessão da Assembleia Geral da ONU, onde discutiram a crise no Oriente Médio. Agora, a discussão foi retomada em meio a relatos publicados na mídia estadunidense sobre uma suposta preparação dos EUA para realizar novos ataques contra alvos iranianos.
No último domingo (18), Abbas Araghchi deixou claro que seu país leva essas ameaças a sério. “Querem tentar a sorte novamente? Sejam bem-vindos. Mas tenham cuidado”, declarou o chanceler na rede social X, dirigindo-se aos Estados Unidos.
Durante a coletiva de imprensa com o chanceler russo, os ministros defenderam uma solução diplomática para o conflito entre o Irã e os Estados Unidos e acusaram Israel de desestabilizar a situação no Oriente Médio.
Lavrov afirmou que a Rússia está pronta para facilitar a busca por uma solução mutuamente aceitável para o conflito entre o Irã e os Estados Unidos. Ele enfatizou a necessidade de restaurar a liberdade de navegação no Estreito de Ormuz e de fornecer garantias de que os ataques militares contra o Irã não se repetirão.
“Acreditamos que é importante retornar à situação pré-crise no Golfo Pérsico e no Estreito de Ormuz, incluindo a restauração da liberdade de navegação e garantias de não repetição da agressão”, disse Lavrov.
O ministro russo também classificou as ações dos EUA e de Israel no Irã como agressão ilegal, destacando que Moscou conseguiu impedir, na ONU, tentativas de justificar as ações dos dois países contra Teerã. Ele acrescentou que a Rússia forneceu ajuda humanitária a Teerã, incluindo medicamentos e suprimentos alimentares.
O ministro das Relações Exteriores do Irã, por sua vez, declarou que Teerã e Moscou compartilham uma posição comum sobre a resolução de conflitos regionais. “Os problemas da região não têm solução militar; devem ser resolvidos por meio da diplomacia”, afirmou.
Araghchi pediu o fim das ações militares nos territórios palestinos, no Líbano e no Iêmen. Ele acusou Israel de políticas expansionistas e exigiu o fim do que chamou de genocídio palestino.
Crise na Ucrânia
Outra pauta de destaque entre os dois ministros foi o conflito ucraniano. Foi relatado que Lavrov informou seu homólogo iraniano sobre a situação em torno da crise ucraniana e aproveitou para criticar o governo de Kiev e os seus aliados ocidentais.
“Informei-o sobre os últimos desenvolvimentos e os esforços que estão sendo empreendidos nesta área para garantir o cumprimento incondicional dos objetivos da operação militar especial, preferencialmente por meio de negociações, mas nem o regime de Kiev nem seus patronos europeus estão claramente preparados para isso”, disse ele.
O ministro também agradeceu a seus amigos iranianos por sua posição objetiva sobre a crise ucraniana.
Em paralelo, durante a reunião com o primeiro-ministro russo, Mikhail Mishustin, que fez parte da delegação russa em Teerã, o vice-presidente do Irã, Mohammad Reza Aref, afirmou que a Ucrânia está tentando criar uma cisão entre a Rússia e o Irã, gerando tensões no Mar Cáspio.
“Não devemos permitir que alcancem seus objetivos de criar problemas e obstáculos entre nossos países”, disse o vice-presidente iraniano.
Segundo ele, a segurança da navegação no Mar Cáspio fortalecerá as relações bilaterais, inclusive na área de abastecimento de alimentos. Ele expressou sua intenção de aumentar a segurança dos portos do norte do Irã e espera medidas semelhantes de Moscou em relação aos portos do sul da Rússia.
Conforme foi relatado pelo Ministério das Relações Exteriores do Irã, em 25 de julho, forças ucranianas atacaram um navio mercante iraniano no Mar Cáspio usando drones. Um marinheiro foi morto e outro ficou ferido. Teerã declarou que se reserva o direito de retaliar.

