O resultado do primeiro turno das eleições presidenciais de 2026 precisa ser compreendido para além da disputa entre nomes, partidos e projetos eleitorais. A disputa entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno revela um país profundamente dividido e evidencia a permanência de diferentes visões de sociedade em disputa.
Segundo os dados divulgados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno com 47,03% dos votos válidos, enquanto Lula alcançou 45,16%. Mais do que uma derrota ou uma vitória de determinado campo político, esse resultado deve provocar uma reflexão profunda sobre o Brasil que estamos construindo e sobre o que pode estar em jogo quando discutimos o papel do Estado, das políticas públicas e dos direitos sociais.
O avanço de forças identificadas com o conservadorismo bolsonarista não pode ser analisado apenas como uma mudança eleitoral. Ele expressa também a força de determinadas ideias que ganharam espaço na sociedade brasileira: a defesa de um Estado menor e menos presente na vida social; a valorização de soluções individuais meritocráticas para os problemas coletivos; o endurecimento crescente das políticas de segurança pública; a crítica e a aversão às políticas de inclusão; uma visão mais restritiva e niilista sobre determinadas políticas sociais.
É necessário reconhecer que milhões de brasileiros votam nessas forças políticas por diferentes razões. Há quem o faça por convicção ideológica, por insatisfação, por preocupação com segurança, por questões econômicas, por valores culturais ou simplesmente pelo desejo de mudança. A democracia exige que essas escolhas sejam compreendidas e respeitadas, mas respeitar uma escolha eleitoral não significa abandonar a reflexão crítica sobre suas consequências. É justamente nesse ponto que precisamos olhar para aqueles que historicamente tiveram menos voz e vez.
Quando políticas de inclusão são reduzidas, quem perde primeiro não é quem possui melhores condições econômicas. São as pessoas que dependem das universidades públicas, das escolas públicas, do Sistema Único de Saúde (SUS), da assistência social, das políticas de transferência de renda, das ações afirmativas, das políticas para pessoas com deficiência, das políticas de igualdade racial e das iniciativas voltadas às mulheres, às populações vulnerabilizadas e às comunidades periféricas e rurais.
Qual sociedade queremos construir?
A discussão sobre o tamanho e o papel do Estado não deve ser meramente econômica. Ela é uma discussão sobre qual sociedade desejamos construir.
- Na educação, as políticas públicas podem significar a diferença entre permanecer na escola ou abandoná-la; entre chegar à universidade ou permanecer excluído dela; entre ter acesso à pesquisa, à cultura e à ciência ou permanecer distante desses espaços.
- Na saúde, as políticas públicas representam não apenas hospitais e consultas, mas prevenção, vacinação, medicamentos, atenção básica e atendimento para milhões de pessoas.
- Na assistência social, a presença do Estado pode representar comida na mesa, acesso a benefícios, proteção diante da pobreza e possibilidade de reconstrução da autonomia.
- Na inclusão, a presença do Estado significa reconhecer que determinadas desigualdades não desaparecem simplesmente quando afirmamos que “todos são iguais”. É preciso criar condições concretas para que direitos possam ser exercidos.
- Também é necessário pensar a segurança pública para além da lógica do confronto. Uma sociedade segura não é somente aquela que prende ou pune mais. É também aquela que oferece educação, trabalho, cultura, oportunidades, prevenção da violência e políticas capazes de enfrentar as raízes sociais da criminalidade.
Por isso, uma eventual redução ou descontinuidade de políticas públicas não deveria ser observada apenas pelos seus efeitos imediatos, mas pensada como um problema que aparecerá lentamente: as escolas deixarão de receber recursos; os postos de saúde perderão atendimentos; as universidades reduzirão oportunidades; as famílias deixarão de receber assistência; os jovens inevitavelmente abandonarão seus estudos; as comunidades periféricas e subalternas deixarão de ter projetos sociais.
O nosso maior risco é naturalizar a ideia de que direitos sociais são privilégios. Educação, saúde, assistência, inclusão e proteção social constituem dimensões fundamentais da cidadania e estão relacionadas ao próprio compromisso constitucional brasileiro com a dignidade humana e com a redução das desigualdades.
É necessário e preciso reconhecer que políticas públicas devem ser permanentemente avaliadas, que os recursos públicos precisam ser utilizados com responsabilidade, transparência e eficiência. É imperativo que o direito de criticar programas governamentais, exigir resultados e combater desperdícios não significa necessariamente ser contrário aos direitos sociais. Pelo contrário: uma sociedade democrática precisa discutir como tornar essas políticas mais eficientes e capazes de alcançar quem realmente precisa.
O resultado do primeiro turno e a forma como o segundo turno está posto em disputa, portanto, não deveriam produzir apenas tristeza, euforia ou indignação. Deveriam produzir consciência crítica. Uma consciência de que nenhuma conquista social é absolutamente permanente; uma consciência de que direitos podem ser ampliados, mas também podem ser restringidos; uma consciência de que a democracia não termina quando termina a votação; e uma consciência coletiva de que os indivíduos que dependem das políticas públicas são justamente aqueles que não têm tempo, espaço e possibilidade de ficar indiferentes às decisões políticas.
O momento exige diálogo, informação e memória histórica
É preciso reavivar a memória para não esquecer que as desigualdades históricas ainda estruturam o Brasil; é urgente transformar a informação em conhecimento para diferenciar discursos vazios e oportunistas de propostas concretas e factíveis; é necessário promover o diálogo dialético para compreender por que uma parcela tão significativa da população deseja outro caminho para o país.
Talvez a principal lição até agora seja justamente essa: a democracia não pode ser reduzida à disputa entre “nós” e “eles”; o Brasil é maior do que seus partidos e candidatos; os problemas de milhões de brasileiros continuarão existindo independentemente de quem ocupar o Palácio do Planalto. Por isso, mais importante do que perguntar simplesmente quem venceu ou quem perdeu é perguntar: qual Brasil queremos construir no futuro?
Um Brasil em que os direitos dependam da condição econômica de cada pessoa? Um Brasil em que saúde, educação, inclusão e proteção social sejam compreendidas como direitos de cidadania? Um Brasil em que a pobreza seja tratada apenas como responsabilidade individual? Um Brasil disposto a enfrentar as desigualdades históricas que impedem milhões de pessoas de terem as mesmas oportunidades? Um Brasil que escolha entre desenvolvimento econômico e justiça social? Um Brasil capaz de compreender que desenvolvimento também significa garantir dignidade, oportunidades e direitos?
A eleição do dia 25 de outubro será, inevitavelmente, muito maior que uma escolha eleitoral. Ela representa uma oportunidade para que a sociedade brasileira reflita sobre seus valores, suas prioridades e seu futuro. Enfim, a democracia deve servir para pensar para quem, para que e para quais indivíduos estamos construindo a sociedade brasileira.
* Alessandro Carvalho Bica é doutor em Educação pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos, presidente da Associação Sul-Rio-Grandense de Pesquisadores em História da Educação (ASPHE) Gestão 2019-2021, professor da Universidade Federal do Pampa (Unipampa) na área de Educação e coordenador do Programa de Mestrado Acadêmico em Ensino (PPGMAE/Unipampa/Bagé)
** Marcos Antonio Corbari é jornalista e comunicador popular vinculado ao Instituto Cultural Padre Josimo (ICPJ), Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), Rede Soberania e Brasil de Fato RS.
** Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

