ENGAJAMENTO POLÍTICO

João Gomes, é difícil ser João do Vale

Em Londrina, João Gomes respondeu à sua maneira e na sua medida: não nomeou candidato, mas falou do que acredita

O cantor João Gomes
O cantor João Gomes | Crédito: Jota Erre/Agif/AFP

Nos últimos dias, João Gomes virou o centro de uma cobrança nacional. Pressionado nas redes para declarar voto no segundo turno, respondeu com uma carta lida num show em Londrina, em defesa da educação, das cotas, do Sistema Único de Saúde (SUS) e da democracia. Diante da pressão pública, a questão que se coloca é antiga: quanto custa falar? Quem conhece a história de João do Vale sabe o quanto é caro.

Na carta, João Gomes agradeceu aos professores que lhe ensinaram a ler e a escrever e defendeu as cotas. Poucas frases tocam tão fundo a vida de João do Vale. Nascido em Pedreiras, no interior do Maranhão, ele foi retirado da escola porque não havia vaga para o filho de um coletor recém-chegado à cidade, e foi ele o escolhido para cedê-la (PASCHOAL, 2000). Aprendeu o mundo sem escola e o devolveu em canção. Em Minha História, lembra os colegas que, como ele, não puderam estudar e, pior, não sabiam fazer canção. O que João Gomes agradece é justamente o que foi tirado de João do Vale e de tantos outros.

Em 1964, no show Opinião, ao lado de Zé Kéti e Nara Leão (que logo seria substituída por uma jovem Maria Bethânia em sua estreia profissional nos palcos), Carcará deixou de ser só música e virou posição: um nordestino dizia, diante de uma ditadura recém-instalada, de que lado estava. João do Vale passou a ser visado e perseguido pelo regime militar, enfrentando a repressão e o silenciamento impostos aos artistas engajados da época.

O que atravessa o tempo e liga essas duas trajetórias é o peso do posicionamento público. Por que as músicas de João do Vale são mais conhecidas que ele próprio? Não é acaso. As pessoas queriam ouvir as dores sertanejas, mas seu corpo preto, retinto, nordestino e operário parecia lhe tirar o direito de dizê-las. Aos poucos, a imagem de um dos maiores compositores do país foi sendo apagada, e esta é a pior forma de punição: quando o que você fez deixa de ser contado.

E havia o preço que se mede em dinheiro. João do Vale teve mais de 200 canções gravadas por nomes como Tom Jobim, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Maria Bethânia. Ganhou da Academia Paulista de Letras o título de poeta do povo. E, no entanto, viveu e morreu sem ver a riqueza proporcional à dimensão de sua obra. Enfrentando problemas de saúde decorrentes de AVCs e refém de um mercado estruturado para desapropriar o criador popular de seus ganhos, viveu a dura realidade da cadeia da música. A obra circulou; a riqueza, nem sempre. Hoje João Gomes lota os Arcos da Lapa, mas o sucesso não blinda ninguém da cobrança e nem deve.

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Em Londrina, respondeu à sua maneira e na sua medida: não nomeou candidato, mas falou do que acredita. Não é pouco, não é fácil, e é o perfume de João do Vale: falar sabendo o que isso pode custar.

Mas João do Vale enfrentou. Seguiu compondo, seguiu cantando o Nordeste, seguiu sendo quem era. Tentaram apagá-lo. O vento levou o dinheiro, levou a imagem, levou o reconhecimento. Mas, como diz Voz do Povo, de João do Vale e Luiz Vieira, gravado por Paulinho da Viola:

“Eu sou a flor que o vento jogou no chão

Mas ficou um galho

Pra outra flor brotar

A minha flor o vento pode levar

Mas o meu perfume fica boiando no ar”

Foi difícil ser João do Vale, e continua sendo. Mas valeu a pena: para o Nordeste, que ganhou uma voz que o representa sem folclore e sem pedir licença; para o Brasil, que ganhou um retrato mais honesto de si mesmo. Valeu a pena para nós, porém isso não paga o que lhe foi negado e retirado. 

A João Gomes, e a todo João que ainda vai subir ao palco, desejo a força do Carcará.

“Carcará mais coragem do que homem”.

*Gabriel Vale é economista, cantor, neto de João do Vale e gestor do acervo do compositor.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Editado por: Vivian Virissimo

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